Eles largaram seus trabalhos convencionais e, agora sim, são felizes #1

Talvez um dos assuntos mais comentados da atualidade seja sobre o ótimo momento que vivemos hoje para pessoas irem atrás dos seus sonhos. A carreira consolidada, a carteira assinada, a estabilidade antes tão almejada, hoje perderam espaço para uma prioridade maior na vida das pessoas: ser feliz. Se passamos a maior parte das nossas horas diárias trabalhando, então se tem algo que faz sentido, é trabalhamos com coisas que nos motivam. Pessoas estão despertando para o fato que ser feliz somente de fim de semana é desperdício demais.

Por isso, nós do Hypeness vamos trazer algumas entrevistas feitas pelas criadoras do projeto Agora Sim! – Marina MoretzsohnLilian Barbosa – cujo foco é contar história de pessoas que largaram suas carreiras consolidadas, mas que já não as motivavam mais, para finalmente perseguir um sonho. A ideia é inspirar cada vez mais pessoas a buscarem seu lado empreendedor e trazer referências de histórias de sucesso. Quem sabe, a sua pode ser a próxima.

A primeira entrevista da série foi feita com Lucas Ferreira: um ex-redator de uma das maiores agências de publicidade do Brasil por 6 anos, que largou a carreira para abrir um restaurante (que hoje é sucesso) na cidade de Pipa, no Rio Grande do Norte. Inspire-se:

Em dias de semana, a cidade de Pipa, no Rio Grande do Norte, tem poucas pessoas passeando à noite pelas ruas. Até que você vira numa esquina e dá de cara com uma fila de espera na porta de um restaurante: o Tapas. 

Um sonho conquistado pelo cozinheiro Lucas Ferreira, ex-redator de uma das maiores agências de publicidade do Brasil. Uma história emocionante, um sucesso mais que merecido.

Você era redator de uma grande agência de publicidade, em São Paulo…

Sim! Eu formei em publicidade e trabalhei durante 6 anos como redator, na McCann. Mas, aí, me deu vontade de viajar, de morar fora e acabei indo pra Portugal.

E, lá, você continuou trabalhando como redator? 

Eu tinha um amigo que morava em Lisboa e ele me ajudou a arrumar uns freelas em agências. Em uma delas, conheci um cara que trabalhava no caderno de gastronomia de um jornal, e ele me apresentou um cozinheiro da Suécia. A gente ficou muito amigo e, nessa época, ele estava abrindo um restaurante. Aí, me chamou pra trabalhar lá e eu topei! Depois disso, nunca mais parei de cozinhar.

Mas você já sabia cozinhar?

Eu sempre fui cozinheiro de paixão. Sempre fui o amigo que cozinhava nas viagens da faculdade. (Risos) Desde moleque, eu gostava disso. Lembro que meu pai e minha mãe comiam rápido e eu ficava lá, sentado na mesa…

E como você veio parar em Pipa?

Em Lisboa, conheci a Nicole, minha esposa. Daí, a gente foi morar na Espanha um tempo e, lá, acabamos decidindo voltar pro Brasil. Juntamos uma graninha de última hora e fomos pro Ceará. Mas, logo depois que chegamos, invadiram a nossa casa e roubaram tudo o que a gente tinha…

Nossa… E aí?

Eu não sabia o que fazer… Não tínhamos grana pra voltar pra São Paulo. Aí, pegamos três mil reais emprestados e compramos um buggie usado. A Nicole tinha uma amiga que morava aqui em Pipa e a gente veio pra cá. Chegamos e começamos a vender sanduíche natural na praia.

Nessa hora, você se arrependeu de ter largado seu emprego e saído de São Paulo?

Não. Mas o bom é isso… Eu não tenho essa crise. Eu fecho a minha mala e mudo tudo. Eu curto mudar, acho que mudar é rejuvenescedor! Na verdade, as pessoas que acabam se frustrando na velhice são aquelas que tiveram muito medo na juventude.

Sua família te apoiou?

Minha família sempre me apoiou, graças a Deus. Eles sentiram um pouco de insegurança quando eu estava vendendo sanduíche na praia, mas sempre me apoiaram. Meu pai dizia que tinha tudo pra dar errado. Mas, graças a Deus, deu certo.

E como surgiu o Tapas?

A gente passou um ano vendendo sanduíche. Conseguimos juntar uma graninha boa e montamos um restaurante, perto da Praia do Amor. Começamos fazendo umas pizzas e ficamos 8 meses lá. Mas, aí, o dono do imóvel pediu ele de volta. Então, alugamos uma casa e o Tapas começou na cozinha dela, em um espaço de 19 metros quadrados. Era só eu cozinhando e a Nicole atendendo às mesas. Com suor e paixão, o Tapas foi dando certo e mudamos pro Centro. Depois de quatro dias aqui, o restaurante já teve a primeira noite com fila de espera. E, daí em diante, a gente nadou de braçada! (Risos)

Em algum momento, você chegou a pensar que não daria certo?

Sim. Depois de uns meses que a gente já estava vendendo sanduíche, o pai da Nicole descobriu que estava com câncer e ela teve que voltar pra São Paulo. Eu fiquei sozinho e fui trabalhar em um restaurante daqui, mas não rolou uma energia boa com o chefe, que era o dono. Nesse momento, eu pensei em desistir, fazer outra coisa, arrumar outro emprego. (Choro, pausa). Mas, aí, o pai dela melhorou, ela voltou pra Pipa e a gente continuou vendendo sanduíche.

Você tem algum projeto? Aumentar o espaço, montar outro Tapas… 
Na verdade, temos um projeto de diminuir o restaurante (risos). Porque chega uma hora que acaba tomando um tempo muito grande da vida. A exigência que você tem pra fazer 140 jantares em uma noite não é fácil. E a gente não tem muita ambição. Eu não tenho vontade de comprar um helicóptero, ter um carro importado.

E esses pratos tão diferentes… Onde você aprendeu a fazer?

Na verdade, sou eu e a Nicole. A gente faz tudo a quatro mãos! O lance das receitas é um pouquinho de cada coisa que já vimos por aí… Mas eu não pego uma ideia e, simplesmente, trago pra cá como novidade. A gente tenta botar a nossa mão, deixar um pouco com a nossa cara. Nunca fiz curso de culinária. É a vida mesmo, é mais que um dom. É esforço, paixão e honestidade. É tratar bem os funcionários, os clientes. A gente tem o restaurante há 8 anos e nunca abrimos sem estarmos eu e a Nicole aqui.

O cardápio do Tapas pode ser comparado aos cardápios de excelentes restaurantes em São Paulo. Você tem vontade de sair de Pipa, um dia?

Na verdade, eu nunca paro pra pensar assim. Se estivesse em São Paulo, faria com o mesmo empenho. Talvez lá, eu teria um pouco mais de facilidade pra comprar bons produtos. Mas, por enquanto, não penso em sair daqui. A gente sempre fecha o restaurante em maio e junho e vai viajar. Esse ano, fomos pro Oriente Médio. Ano passado, pra Tailândia.  Nossa ideia é buscar inspiração por aí e trazer pra cá. Todo ano, a gente tenta mudar 30% do menu.

E você tem uma qualidade de vida legal aqui, né?

Tenho! Por isso, tenho essa ideia de diminuir o restaurante. A gente vai pra praia quase todo dia, viemos buscar isso.

Defina seu trabalho com uma palavra.

Paixão. Paixão, paixão, paixão. Acho que tanto o cara que trabalha na cozinha como o garçom tem que gostar muito.. Tem que ser uma paixão.

O que te traz mais felicidade aqui?

É quanto eu vejo que o atum que eu comprei de manhã é bem bonitão, que o filé que chegou está bonito. Porque tem muita coisa que não está no meu controle. Então, quando eu chego aqui, à noite, e vejo que todo o esforço que a gente faz todo dia está valendo a pena, que a gente está servindo um prato legal, me dá muito prazer!

E o pessoal da cidade reconhece esse esforço de vocês, né?

Vender sanduíche na praia foi a parte mais importante pro restaurante ser o que é hoje. Quando chegamos em Pipa, não fomos vistos como “dois playboys” que tinham uma condição de vida que a galera daqui não tinha. A gente se apresentou pra todo mundo de uma maneira muito simples, com uma caixa de isopor na mão. E todo mundo acabou fazendo parte da nossa história. As pessoas que acompanharam a gente desde o comecinho trazem um amigo aqui e falam: “Eu comia o sanduíche deles na praia… Eles sempre deram o maior duro.” Essas pessoas guardaram a imagem de dois trabalhadores, que não têm medo de enfrentar a vida. Que comem o que colocam na mesa.

Entrevista por Agora Sim!