Uma carta para mim mesmo 10 anos atrás – por Jean Boëchat

Sexta-feira é dia do mais novo quadro do Hypeness: Uma carta para mim mesmo 10 anos atrás. Um convite a pessoas das mais diversas áreas para escrever uma carta para eles no passado. É uma forma de gerar reflexões importantes sobre a vida, inspirar pessoas e despertar aprendizados. 

Convidado de hoje: Jean Boëchat (conhecido na praça também pela alcunha de Jampa)

Profissões: Desempregado. Poeta. Compositor Popular. Lenda Viva. Homem-bala. Sócio-fundador e diretor de marketing voluntário do Beaba.

Jean por Jean: um cara bem grande com ideias e sonhos. Para saber mais, procure na Internet.

São Paulo, março de 2014.

Oi Jean. Tudo bem? Espero que sim.

Mas eu sei que está tudo “indo”… “Indo” é a sua resposta padrão. Quem te conhece sabe que você diz isso. “Indo” não é nem bem e nem mal. Mas é uma forma de se proteger. Como você sempre se protege nessa sua armadura gigante. Dentro dela tem um cara imenso, mas que, em alguns momentos, é tão pequenininho, né? É.

Em 2004 você está um pouco assim.

Frágil. Sujeito a chuvas e trovoadas. Ninguém pode imaginar. Você já fez tanta coisa, já passou com tanta coisa nesses 31 anos. Já ganhou um monte de coisa, já ganhou um dinheirão, já gastou um dinheirão, quase sempre ajudando a família e amigos, e não com grandes luxos e afins. Mas 2002 e 2003 foram muito pesados né? Em 2002 você renasceu para não morrer. E nem teve muito tempo para respirar. Trabalhou desgraçadamente.

Em 2003, junto com 2 amigos foi tentar vender conteúdo?? Cara! Conteúdo transmídia? Pera aí! Isso não era pra ser 10 anos depois? É, talvez por isso não tenha dado certo né? E no fim das contas, sem emprego, sem grana fixa, pra complicar seu pai sofre um segundo acidente quase fatal de carro? O “JOVEM” não se contentava com um só no currículo? Foram 5 meses para uma volta pra casa. Que trabalheira que deu. Por essas e outras, terminar 2003 pedindo emprego para Papai Noel no blog não foi fácil. Mas o Bom Velhinho te arrumou um trampo aos 45 minutos do segundo tempo. Por isso, é sempre importante acreditar!

Você começa 2004 pianinho, como eu disse antes, frágil, mas não tem noção de que não está nada legal. Só em outubro você vai perceber o tamanho do buraco com um puxão de orelha de um amigo no dia do seu aniversário. Amigos são pra isso mesmo. Ainda bem que eles existem.

Só assim você vai se descobrir numa depressão. Sim! Uma depressão! Daquelas de verdade. Daquelas de tomar remedinho e botar um pouco mais seriedade na terapia para ver se a cabeça melhora. E ali você vai perceber, depois, que o que te salvou foi uma menininha que caiu de paraquedas na sua casa. Uma menininha que foi morar lá. Sua sobrinha, que era mais uma boquinha pra você sustentar, e naquele momento, mais do que nunca, ser responsável. Era a força que você precisava para levantar todo dia da cama e enfrentar o que tinha que enfrentar. Saiba que você conseguiu. Ainda bem. Senão esta carta não estaria sendo escrita.

Você sempre foi assim. De alguma forma, ajudando alguém e deixando você mesmo um pouquinho de lado. Uma generosidade para ensinar e ajudar tanta gente e ao mesmo tempo aprender com tanta gente. E que para segurar as pontas nesses anos todos e não pirar, só se garantiu justamente por ter um coração que se encanta pelas pessoas. Porque o que importa mesmo são as pessoas. O resto todo passa ao largo. “O resto é sombra de árvores alheias”.

O tempo vai passar e muito vai acontecer. Muitas conquistas. Vai ganhar troféu do melhor criativo do ano, vai atingir o ápice da sua carreira naquele balneário francês, realizar o sonho maior de transformar a Clarabóia em átomo, ter músicas para tocar no rádio, vai amar bastante, formar tanta gente e viver tantas confusões no melhor estilo “sessão da tarde”. Mas… o que Eu, você, enfim, nós não poderíamos imaginar, é que, agora, em 2014, o momento seria um espelho, mas um outro lado de um espelho. Igual, mas diferente.

Estou aqui.

Vivo uma depressão difícil. De novo. Luto contra ela novamente. Talvez seja a mesma de antes. Que você não venceu, apenas guardou numa gaveta. Não sei. A fera taí, te rondando, machucando, dominando. Mas tenho em mim uma força imensa querendo não me deixar de lado e, desta vez, querendo usar toda a minha generosidade, todo o meu amor pelas pessoas, para justamente transformá-la num trabalho onde eu possa ajudar, ensinar, aprender com pessoas e quem sabe, fazer um mundo melhor e a minha vida melhor. Não tenho dinheiro, não sei bem como as coisas vão funcionar, mas não vou deixar de buscar o brilho dos meus olhos e a paixão pela vida e a possibilidade de usar toda a minha criatividade e meu talento para as coisas em que eu acredito.

Na busca de algo para acreditar, encontrei o câncer. Não! Calma… Antes que você se preocupe, não adoeci. Não fiquei careca. Não vivi nenhum drama familiar ou dor profunda para me envolver com ele. Fui convidado para ser sócio-fundador de uma instituição, o Beaba, por uma grande amiga, ex-paciente que tinha sua história particular com a doença, que diga-se de passagem, acompanhei bem de longe, na virtualidade, mas sempre tive um imenso carinho. Me envolvi com o tal do “Beaba“, desde o início

E fui me envolvendo cada vez mais. No começo só virtualmente. Até que uma paciente adolescente, Carolzinha Saporito, me atraiu para entrar no hospital, num 20 de dezembro. A partir deste dia, é bom você saber, Jean, nossa vida vai mudar para sempre, por causa de crianças como: Carolzinha, Layhs, Kauã, Gabriel Pagani, Luis Felipe, Elaine Novinha, Arthur, Pedroca, Ana Carolina, Gabriela, Bruno, Luiza, Camila, João Vitor, Matheus e tantos outros que nem sei… Isso sem contar mães, pais, avôs, avós, irmãos, médicos, enfermeiras, amigos e uma incrível roda viva de amor infinito. Ao contrário do que acontece normalmente com as pessoas, não foi a dor que me moveu, foi o mais puro e imenso amor. Ainda bem, né?

Enfim…

Quando você era mais novo, você sempre dizia que qualquer pessoa podia mudar de vida, em qualquer momento, em nome da felicidade. Dizia que isso era um dever, não era nem um direito. Taí, chegou a nossa vez. Vamos ver se isso acontece juntos? Me ajuda? Preciso da sua força. Com fé a gente consegue.

Beijo,
Jean =^*

Ps.: as fotos são da sua sobrinha Marina. A primeira é a primeira foto que ela tirou na vida – com 1 ou 2 anos – e a segunda foi recentemente, com 11 anos.

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