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Uma carta para mim mesmo 10 anos atrás – por Lusa Silvestre

por: Rafael Rosa

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“Uma carta para mim mesmo 10 anos atrás” é o convite feito pelo Hypeness para todos os que queiram refletir sobre as decisões que tomaram na vida e como ela evoluiu na última década. O que aprenderam, o que mudariam, o que deixariam ficar – as dicas dos nossos convidados poderão ser bem úteis para você também.

Convidado de hoje: Lusa Silvestre

Lusa por Lusa: Sempre escrevi e me pareceu natural fazer faculdade em algo que eu pudesse ganhar a vida. Podia ter sido jornalista. Ou advogado. Mas fiz propaganda na ECA, USP. Fui redator da McCann – daqui e de Los Angeles, depois Diretor de Criação. Nessa, percebi que quanto mais alto eu chegava e mais prêmios eu ganhava, menos eu escrevia. Quanto muito, escrevia email – e só. Aí fui buscar refúgio e consolo em outros lugares, escrevendo na hora do almoço. Assim, comendo na mesa, escrevi pra Playboy, VIP, Superinteressante, Marie Claire e Época. Escrevi também três longas, até agora: “Estômago”, “E Aí, Comeu?” e “Muita Calma Nessa Hora 2”. Ganhei prêmios com eles, também. Resolvi sair da propaganda em 2008, pra estudar cinema. Apresentei programa de rádio. Voltei em 2010. Hoje, sou redator-sênior na WMcCann. Escrevo o dia todo, como eu sempre quis.

Jovem Lusa Aos 34,

Tou ligado que você olha pra frente, imaginando se as coisas vão dar certo. Dez anos depois, eu te garanto: as coisas deram certo, sim. Senão eu e você não estaríamos aqui, falando da nossa vida. Quando a gente começou, um redator de 44 anos não tinha espaço no mercado. Isso mudou: ainda haverá espaço pra você alguns anos.

Você vai ter nominho no jornal. Vai ser amigo dos seus ídolos. Vai entrevistar Laerte, Jorge Mautner e Lobão. Vai trabalhar com o Washington. Vai ganhar prêmios e prêmios até perceber que prêmio não muda a vida de ninguém.

Deu tudo certo. E quando dá tudo certo, aparece um baita perigo na vida da pessoa: a vaidade. Cuidado com Ela. A Maldita. Um pouco é bom – quando a vaidade é auto-estima; quando ajuda a gente a se achar capaz de fazer aquele trampo, de escrever aquela história, de olhar para a folha de papel e dizer para ela “nêga, vou te fazer gemer sem sentir dor”. Mas vaidade demais atrapalha.

Ela faz a pessoa parar de ouvir os outros. Tira o foco, some com o rumo. É fingida, mentirosa, peçonhenta – morde e foge pro mato. Dissimulada, como o Demo, o Rabudo, o Ronca-e-Fuça, o Cheiro-de-enxofre. O Treze. O Canhoto. O Sete-Pele. Faz a gente gostar mais de reconhecimento do que do trabalho em si. Faz a gente ficar no Facebook porque lá as pessoas te acham o máximo. Faz a gente querer agradar, ou faz a gente desprezar o resto da humanidade.

Mas uma mudança muito importante vai acontecer nestes anos por vir, uma coisa que vai fazer você ser menos vaidoso. Você, finalmente, vai virar adulto. Lá pelos 41. Adultos têm coisas complicadas pra resolver, coisas que se não forem bem cuidadas, viram saldo negativo, tarja preta e até doenças.

Não dá pra decidir coisas relevantes da vida baseadas na vaidade. Vaidade nunca vai tirar a gente do buraco. Pelo contrário: Ela leva mais lá pro fundo. O que vai te tirar das encrencas, Jovem Lusa, é sua vocação. Tem gente que passa a vida inteira sem saber direito pra quê veio ao mundo. Ou que demora trinta anos pra descobrir o que gosta de fazer. Ou, ao contrário, tem gente que toca violão feito o Paco de Lucia, gente que nunca errou um saque, gente que fala mais línguas que a ONU. Gente que rela o dedo no Photoshop – e pronto: o layout fica lindo. Sabe esses ?

Então, você escreve. É a sua Força Estranha. Vai nela.

Escreva poesia quando o amor estiver faltando. Escreva anúncios quando a agência precisar ganhar concorrência. Escreva emails quando você quiser mostrar a pasta. Escreva cinema quando a propaganda estiver dando no saco (e vice-versa). Escreva torpedos para saber que horas sua filha chega da festa.

Saiba: se tudo der errado, você tem da onde tirar a solução. Da escrita. Da vocação. Fique tranquilo quanto a isso.

E, de novo, e sempre, cuidado com Ela. A maldita.

Beijos.

Lusa Ainda Jovem Aos 44.

P.S – Sim, sim, super importante: pare de comprar CDs.

faixa-carta


Rafael Rosa
Sócio/Diretor de Negócios do Grupo Hypeness. Criativo publicitário, acumulou mais de 10 anos de profissão na área de criação e como diretor de arte. Em 2010 foi para Londres em período sabático e começou sua contribuição no Hypeness de lá. Desde 2014, atua na linha de frente do Grupo Hypeness e lidera a área de novos negócios criando e produzindo projetos de branded content.

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