Entrevista Hypeness: as brasileiras que ajudam pessoas a renovar o guarda-roupa sem gastar nada

O conceito está se tornando cada vez mais comum em alguns países europeus, Estados Unidos e Austrália. Mas faltava alguém trazê-lo para o Brasil. O Projeto Gaveta nasceu para isso – mostrar para os brasileiros as vantagens do clothing swap, isto é, da troca de peças usadas mas em bom estado, o que, além de sustentável, permite renovar um guarda-roupa sem tocar em dinheiro.

A mecânica é simples – a pessoa interessada em participar contata o projeto e agenda um horário para a entrega das roupas. Depois as responsáveis fazem uma seleção e, por cada peça escolhida e dependendo do tipo de peça, dão uma “moeda” ao participante (por exemplo, uma calça dá direito a uma moeda, uma jaqueta ou um casaco dão direito a três). Como a ideia é não haver dinheiro pelo meio, as moedas não reais e servem apenas para ser levantadas no evento e trocadas por outras roupas. Todas as peças que não passam na seleção da equipe do Projeto, são doadas para a ONG Filhos de Paraisópolis, ajudando a comunidade do bairro.

O primeiro evento do projeto aconteceu em São Paulo, em novembro passado (foi financiado no Catarse, aqui) e juntou mais de 1000 peças, além das 2000 doadas. Por isso, o Hypeness quis conhecer melhor a ideia e as pessoas por trás dela e foi falar com Giovanna Nader e Raquel Vitti Lino, amigas e idealizadoras do Projeto Gaveta.

UPDATE: Já podem separar todas as roupas que não usam mais, pois o Projeto Gaveta 2a edição já tem data! Acontecerá no dia 06 de dezembro de 2014 no Centro Cultural B_arco (Rua Dr. Virgilio de Carvalho Pinto 426, Pinheiros, SP) a partir das 15h.

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1 – Como foi a adesão e qual a reação do público ao primeiro evento do Projeto Gaveta?

Quando pensamos em criar o Gaveta esse era o nosso maior medo, e para a nossa felicidade foi nossa maior surpresa. Tivemos uma procura imensa de pessoas, não só de São Paulo como de todo o país querendo participar. E todos nos parabenizávamos pela ideia e iniciativa. Imaginávamos que faríamos algo para as amigas, amigas de amigas, mas por ser um assunto diferente, o projeto tomou dimensões que jamais esperávamos. Ao final a procura foi tão grande perto da nossa pequena estrutura interna que tivemos que limitar o número de participantes, finalizando com 75 participantes e mais de 4 mil peças recolhidas.

No dia do evento a energia era contagiante. Todos os participantes saindo de lá muito felizes com suas novas aquisições.

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2 – O que mais entusiasma as pessoas no projeto e que fez com que ele conseguisse financiamento do público?

O que mais estimulou os participantes foi o fato de renovar o guarda-roupa sem colocar a mão no bolso e todo o formato inovador e diferente do evento em si. A experiência de participar da troca junto com outros 74 participantes de estilos diferenciados também foi um atrativo. Todos os participantes doaram peças em bom estado e muito bonitas, o que é muito legal e gratificante para nós saber que eles entenderam o conceito do evento, toparam praticar o desapego de peças legais para ganharem peças novas. Escutamos de uma participante uma frase que gostamos muito – quando estávamos contabilizando suas peças ela nos disse: “Estou me sentindo muito esperta, eu desfiz e refiz o meu armário sem gastar nada.”

3 – O que estamos fazendo certo e errado na relação com nosso guarda-roupa?

As pessoas, pelo menos ao nosso redor, estão se conhecendo melhor, afinando seu olhar, não só para o que está na moda, mas para o que fica bem em si, o que tem a ver consigo, portanto mais assertivas na hora da compra.

Já o que achamos que está errado é que muitas vezes as pessoas esquecem de olhar para dentro do seu guarda-roupa de uma maneira criativa. Quando temos uma festa ou casamento, a primeira coisa que a maioria pensa é: “Preciso de um vestido novo!” Será que você realmente precisa comprar esse vestido? Não tem nada no seu guarda-roupa que possa ser customizado, ou usado em uma produção diferente? Hoje em dia a moda é tão abrangente que nos permite possibilidades infinitas de usar uma única peça e em diferentes ocasiões.

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4 – Acham que os brasileiros olham hoje para a roupa em segunda mão de uma forma diferente da que olhavam há uns anos?

Está cada vez melhor, mas ainda muito longe da maneira como países desenvolvidos consomem roupa de segunda mão. Aqui a grande maioria ainda tem preconceito ou não consegue achar peças que lhe agradem em um brechó porque foge do que a moda dita na mídia. A brasileira precisa aprender a olhar para si, encontrar seu estilo próprio e autenticidade.

Mas estamos no caminho, o Brasil é um país “novo-rico”, onde para a grande maioria o ter é muito importante. Vemos pessoas que fazem questão de gastar dinheiro com bolsas e roupas caras como necessidade de pertencimento de grupo social. Temos uma influência muito grande no país de blogs de moda que massificaram a moda brasileira, onde todos andam iguais, usam a marca da moda. E o que queremos é influenciar a consumidora brasileira a se valorizar pelo que ela é, e não pelo que ela tem.

5 – Numa era de consumo desenfreado, como incentivar as pessoas a cuidar melhor de suas peças e não as tornar tão descartáveis?

No Gaveta recebemos inúmeras roupas que ainda estavam com a etiqueta e nunca foram usadas. As pessoas precisam de uma maior segurança na maneira de se vestir, resgatar sua personalidade e comprar aquilo que tem a ver com ela, enxugando seu guarda-roupa e diminuindo o consumo.

A troca de roupas entre pessoas também é uma ótima maneira de torná-las menos descartáveis, por isso batemos nessa tecla. O que é velho para um pode ser novo para outro.

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6 – Isso prova que a moda pode ser sustentável?

Sim! Existem várias maneiras de praticar essa sustentabilidade na moda. Uma é utilizar matéria prima ecologicamente correta, que causa um menor impacto global. Algumas marcas já se atentaram para essa questão o que acaba sendo um diferencial.

Outra maneira de ser sustentável é produzir bens duráveis e reciclar peças de sua própria marca como é o caso da marca americana Patagônia.

E a maneira que mais tem a ver conosco é reutilizando peças que já estão produzidas. Pare pra pensar quantas peças já foram produzidas no mundo, e se parássemos de produzir agora teríamos peças por muitos e muitos anos pela frente. Por isso precisamos abrir a mente para peça usada, e não falamos só de brechó, e sim do guarda-roupa da mãe, vó, tia, amiga. Com certeza fará ótimos achados.

7 – Qual o futuro do Projeto Gaveta? Tem mais edições preparadas? Sairá de São Paulo rumo a outras cidades?

Estamos trabalhando e viabilizando capital para realizarmos a segunda edição ainda esse ano em São Paulo. Divulgaremos a data em breve. Como vimos que a troca funcionou e o país tem público para isso, queremos que o Gaveta sirva como um reeducação na maneira de se vestir, caminhando nessa contra-corrente do consumismo exacerbado.

E em 2015 temos planos de levar essa corrente para demais cidades do país.

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Os interessados na segunda edição podem entrar em contato com a equipe do Gaveta através do email projetogaveta@gmail.com e o pessoal explicará passo a passo como participar.

Enquanto espera pelo dia 06 de dezembro, assista ao vídeo do primeiro evento:

 Você pode acompanhar os próximos passos do projeto no Facebook e no Instagram.

Todas as fotos © Projeto Gaveta

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