Entrevista Hypeness

Entrevista Hypeness: como o futebol de rua continua vencendo a selva de concreto

por: João Diogo Correia

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A bola no centro, a meta improvisada, as camisas prontas a serem rasgadas no momento do gol. Enquanto a bola rola, as crianças são apenas crianças, mesmo que sonhem ser adultas, jogando de cabeça levantada e vendo um oceano de corpos indistintos na frente, aplaudindo de pé. Foi assim que grandes nomes do futebol brasileiro deram os primeiros chutes e é agarrados a essa esperança que milhares de meninos (e meninas, por que não?) se enfrentam na várzea ou no chão de pedra como se cada jogo disputado fosse o mais importante de suas vidas.

No Brasil, apesar do crescimento das cidades e da melhoria das infraestruturas de muitos clubes, o futebol de várzea, ou simplesmente na rua, tem grande tradição e continua sendo uma realidade de todos os dias, especialmente na periferia de grandes centros urbanos.

Tadeu Vilani, Jefferson Botega, Bruno Alencastro e Jorge Aguiar são quatro fotógrafos que se uniram para o mostrar o país do futebol de um jeito diferente daquele que o mundo acabou de ver durante o mês de junho. Em 40 fotografias, eles captaram retratos que mostram paixão sem “padrão Fifa”, alegria no pé descalço e muita vontade de ver as bolas de couro fazer balançar uma rede imaginária.

O Hypeness falou com Bruno Alencastro, um dos autores, e ficou conhecendo melhor o projeto Pé de Meia:

Hypeness (H) – Em que lugares do Brasil foi criada esta série que virou mostra fotográfica?

Bruno Alencastro (BA) – Começamos documentando os campos de chão batido de Porto Alegre e região metropolitana, mas depois ampliamos o projeto para outros estados. No Rio Grande do Sul, percorremos a periferia de Viamão, o bairro Umbu (em Alvorada), Restinga e Nova Gleba (Porto Alegre), Guajuviras (Canoas), favelas do Alemão e Santa Marta (Rio de Janeiro), favelas Moinho e Paraisópolis (São Paulo), além de Teresina (Piauí).

5.Jorge5Foto © Jorge Aguiar

H – De onde surgiu a ideia e qual o objetivo por trás dela?

BA – O projeto começou ainda no final de 2010, com o objetivo de mostrar que, na várzea, de onde saíam os craques do passado, a bola continua uma paixão, que leva no final de tarde e finais de semana a gurizada a correr atrás dos sonhos de se tornarem jogadores de futebol, famosos como Neymar…

Daí o nome “Pé de meia”, quando observarmos a forma como a gurizada joga, alguns de pés descalços, outros com apenas uma meia, ou de chinelo, chuteiras gastas, etc.

H – Que crianças encontraram? Como é para elas o momento do jogo?

BA – Num mundo cada vez mais individualizado, onde as crianças dos grandes centros urbanos trocaram as brincadeiras nas ruas por jogos eletrônicos e computadores, é interessante observar que, nessas comunidades que visitamos, a lógica é completamente diferente. Os meninos vivem em liberdade e têm, no momento do jogo, a oportunidade de conviver com seus vizinhos, aprender a respeitar as regras do jogo, esperar o tempo (no time de fora) para entrar em campo, aceitar as diferenças, entre outros exercícios de cidadania.

H – Elas reagiram com naturalidade ao fato de serem fotografadas?

BA – Em nossas documentações fotográficas, trabalhamos com a proposta de conquistar, de maneira gradual, a confiança de nossos protagonistas. Para isso, antes de “já sair fotografando”, visitamos as comunidades pretendidas e vamos nos aproximando das lideranças locais, explicando nossos objetivos, mostrando trabalhos anteriores e, assim, sistematicamente, começamos a efetivamente capturar nossas imagens. Por se tratar de um projeto longo, de mais de 3 anos de duração, existem comunidades que foram visitadas uma dezena de vezes, até conseguirmos essa dita “naturalidade” (que na verdade não existe em sua totalidade, mas o mais próximo que conseguimos).

Em outros casos, a empatia é tão grande que já numa primeira visita conseguimos conquistar a empatia dos fotografados. Varia muito de contexto para contexto.

07-BrunoFoto © Bruno Alencastro

H – Consideram que o crescimento de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro pode prejudicar espírito do futebol de rua? Será que isso terá repercussões tanto no futebol brasileiro quanto no tecido social, ou na forma como as crianças se relacionam?

BA – Temos uma visão otimista de que a paixão nacional é tão grande que sempre haverá espaço para um campinho improvisado. É interessante perceber nas nossas fotografias a capacidade de adaptação e criatividade que os pequenos encontram para demarcar um campo e duas goleiras nas mais variadas condições: rua, morro, terreno abandonado… sempre haverá um espaço.

H – O que significa o futebol para essas crianças?

BA – O futebol representa muitas vezes uma das poucas atividades de lazer e sociabilidade. Vivendo em regiões periféricas da cidade, sem infraestrutura de parques e praça, basta dois pares de chinelo ou algumas pedras e tijolos para demarcar as goleiras e a diversão está garantida.

03-BrunoFoto © Bruno Alencastro

H – E o que significa o futebol de rua para o Brasil? O que ele nos pode ensinar sobre o país?

BA – Nos ensinar que mesmo na diferença e na adversidade, somos um povo criativo e feliz em viver a vida.

H – Se o esporte em geral, e o futebol, tem um lado educativo, pedagógico, qual a melhor forma de o usar a favor da integração?

BA – Acreditamos que isso já vem sendo desenvolvido a partir do trabalho de diferentes ONGs que aproveitam as competências desenvolvidas dentro de campo aplicar no cotidiano dessas crianças, como o respeito ao outro, a tolerância às diferenças, o “fair play”, o companheirismo, o espírito de trabalhar juntos por um mesmo objetivo, a superação, entre outros.

1TadeuFoto © Tadeu Vilani

H – Depois do ambiente da Copa e de grande emoção esportiva, como vocês gostariam que as pessoas olhassem para essas fotos?

BA – Fotografia é sempre lida de maneira polissêmica, a partir dos anseios, desejos e do repertório de cada pessoa. De toda forma, um dos nossos ideais com o projeto é chamar a atenção para exatamente para o fato de que, independente da Copa e dos possíveis legados que ela possa trazer, é preciso olhar para as periferias das cidades e trabalhar para oferecer condições igualitárias de espote, lazer, saúde, educação, infraestrutura para todas as camadas sociais.

H – Depois da exposição em Porto Alegre, onde vamos poder ver as fotos? Podemos esperar outras exposições ou, quem sabe, um livro?

BA – Depois da exposição, criamos um Tumblr reunindo algumas das fotografias integrantes da mostra e já recebemos convites para expor em outros lugares. Em Agosto, vamos para Caxias do Sul, durante a 7ª Semana de Fotografia, depois seguimos para Montevideo, no Uruguay, e também estamos em adiantadas negociações para levar o futebol de periferia para o velho mundo, em Paris.

10.JorgeFoto © Jorge Aguiar

Tadeu-02Foto © Tadeu Vilani

8.JorgeFoto © Jorge Aguiar

8.JefFoto © Jefferson Botega

08-BrunoFoto © Bruno Alencastro

7.TadeuFoto © Tadeu Vilani

7.JefFoto © Jefferson Botega

6.TadeuFoto © Tadeu Vilani

5.JefFoto © Jefferson Botega

4TadeuFoto © Tadeu Vilani

3TadeuFoto © Tadeu Vilani

3.JefFoto © Jefferson Botega

05-BrunoFoto © Bruno Alencastro

2.JorgeFoto © Jorge Aguiar

2.JefFoto © Jefferson Botega

1.JorgeFoto © Jorge Aguiar

Abaixo o vídeo de apresentação do projeto, criado para a plataforma de financiamento coletivo Catarse, onde os autores conseguiram arrecadar o valor necessário para fazer do Pé de Meia uma realidade.

Pé de Meia from Bruno Alencastro on Vimeo

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João Diogo Correia
É português, viveu no Brasil, Itália e Espanha. Fez a melhor viagem da sua vida pela África e agora está de volta a Portugal. Há mais de três anos, começou a trabalhar remotamente, a partir de casa ou em qualquer lugar com wi-fi, e por isso agradece todos os dias à internet.

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