Entrevista Hypeness: o artista brasileiro que nos faz refletir sobre consumismo e felicidade

Paulo Gôvea é brasileiro, nasceu em São Paulo, vive atualmente em Nova Jérsei, EUA, mas é em Barcelona que estará em destaque, entre os dias 27 de setembro e 7 de outubro na galeria Iroom, com uma exposição que nos convida a pensar nossos hábitos de consumo e a forma como aquilo a que chamamos de conforto e sofisticação está prejudicando a natureza e os seres que nela habitam.

Apaixonado pelo surf e pelo skate, o pintor brasileiro tem fortes influências da street art e uma coleção apreciável de murais intervencionados ao redor do mundo. Na cidade condal, além da exposição em nome próprio, organizada pela Casa Verdi BCN, Gôvea irá pintar um mural, certamente identificável por conta das figuras de rosto triangular que marcam o trabalho do brasileiro.

Em mais uma Entrevista Hypeness, fomos conhecê-lo melhor e despertar a curiosidade para o que aí vem:

Hypeness (H) – Como artista auto-didata, que influência teve a infância e a cidade de São Paulo nessa busca por aprendizado constante?

Paulo Gôvea (PH) – Minha infância foi boa, acredito que soube aproveitá-la bem. Apesar de ter perdido meu pai com 11 anos de idade e minha vida ter ficado um pouco conturbada… Minha mãe era artista plástica e me ensinou muito. Aos domingos ajudava ela a carregar os quadros para expor na praça da República em São Paulo, e acho que isso me influenciou muito no que sou hoje e no meu estilo de trabalho. Além de ter começado a andar de skate muito novo, prestando sempre muita atenção nos desenhos dos shapes e nas artes da cidade. Acho que isso foi o que despertou meu interesse pela arte.

H – Como é seu processo de produção, feito de improvisos ou meticulosamente pensado?

PH – Ele é pensado, normalmente tenho algo em mente bem próximo do resultado final. Mas às vezes tudo muda, inclusive o conceito. Na maioria das vezes as coisas simplesmente fluem.

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H – Uma de suas marcas é o uso de spray e tinta acrílica em simultâneo? Por que essa opção?

PH – Tive muita influência da street art, prestava muita atenção nisso. E os artistas tinham técnicas que me facilitavam o trabalho e traziam estéticas para essa fase que eu tive que só um spray poderia fazer.

H – Os cenários variam, mas as personagens presentes no seu trabalho são facilmente identificáveis, tanto pela paleta de cores como pelos rostos triangulares. É uma forma de ser reconhecido independente da cidade ou país em que pinta?

PH – Sim, e acredito que isso foi uma influência direta da street art.

H – Como surgiu essa figura-padrão?

PH – Meus personagens surgiram quando fui retratar uma amiga, e ela acabou ficando com a cabeça um pouco maior que o normal. No final gostei da estética, e acabei lapidando um pouco mais até chegar nesse estilo. Foi meio que naturalmente.

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H – É um apaixonado por surf e viagens. Eles são uma inspiração para as obras ou um prazer fora do trabalho?

PH – Pode ser os dois. O surf me desconecta do trabalho e as viagens me conectam e abrem vias para trabalhos em outros países. Quando estou viajando, no caso para surfar, gosto de pintar murais entre um swell e outro.

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H – Inclusive, na Indônesia, por exemplo, pintou fachadas de casas de habitantes locais. Como foi o contato com eles? Foi a arte a quebrar o gelo? Como eles viram o resultado final?

PH – Foram todos muito receptivos, mas acredito que a arte tenha ajudado um pouco. Ela sempre me ajuda, não só lá como em outros países. Foi muito bom e todos ficaram felizes com o resultado final, o que me surpreendeu, porque a maioria são ótimos artistas ou têm contato com artes de alto nível técnico.

Houve só uma situação um pouco rara, mas foi por dificuldades de comunicação. Perguntei para uma mulher: “Saya cat dinding?“, que quer dizer “posso pintar sua parede?”. Ela me olhou com uma cara de quem não entendeu, então abri minha mala com as tintas e ela fez sinal que eu podia. Comecei a pintar devagar e logo depois chegou o marido dela, do meio do coqueiral, com um facão gigante. Foi tenso! Pensei: “será que eu corro ou continuo?”. Logo percebi que eles se entenderam e que o marido também tinha aprovado e aí fiquei mais tranquilo. A família era gente boa!

Eu acho que a arte comunica, sempre traz uma reflexão, dando via livre a pensamentos e discussões de pontos de vista diferentes.

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H – Muitas das obras que vai apresentar nesta exposição têm uma forte vertente de reflexão, e até crítica, sobre a sociedade. Considera que estamos em uma corrida por conquistas materiais que não nos servem de nada? De onde veio essa alienação?

PH – Não, nem todas não servem de nada. Mas acho que grande parte da nossa alienação vem do nosso sistema econômico de consumo.

H – Então nessa sociedade altamente influenciada pelo status quo e pela aparência, como reverter essa situação?

PH – Mudando valores.

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H – O que encontrarão os visitantes da exposição que está prestes a começar em Barcelona?

PH – Temas que convidam a uma reflexão sobre qual é a necessidade real de produtos que consumimos e que fazem sofrer outros animais ou têm um grande impacto ambiental. A sociedade moderna criou alguns padrões de status e ostentação, criou necesidades desnecessárias para o homem ser feliz ou para sua sobrevivência. Às vezes, indo ao extremo, seres vivos chegam a ser sacrificados e submetidos a torturas apenas pra elaboração de produtos que as pessoas utilizam como qualificação de status.

Nesta exposição, o visitante esta convidado a pensar sobre seus hábitos no cotidiano. O que é sofisticação para você? Você se considera influenciado pelos padrões impostos pela sociedade? Quais sao seus verdadeiros valores?

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Refinement

Sophistication

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Para acompanhar o trabalho do artista, clique aqui.

Todas as fotos © Paulo Gôvea

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