Natureza + Tecnologia: porque a soma desses 2 fatores é o estilo de vida do futuro

Imagine acordar às 11 da manhã, esquentar uma água no fogão de pedra e tomar seu café na varanda de um sítio que parece intocado pelo tempo – exceto por um detalhe: a conexão à internet é o que permitiu que você estivesse ali, desfrutando deste momento. Estas não são as férias perfeitas e sim o dia-a-dia de muitas pessoas que levam a vida trabalhando remotamente em áreas rurais.

A vida desses profissionais foi facilitada pela expansão da conexão à internet, que hoje não se restringe aos grandes centros urbanos. Isso permite que muita gente carregue seu trabalho na mochila – ou, mais especificamente, no computador. Com isso, chega a decisão mais difícil: escolher qual lugar você vai chamar de seu.

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Para muita gente, o lugar ideal fica em uma região rural. Por quê? Para comer melhor, viver em um ambiente mais seguro e longe de todo o estresse relacionado ao cotidiano na cidade, em que todos a sua volta vivem uma rotina programada das 9h às 18h e esperam o dia do pagamento para aumentar sua listinha de consumo. Soa familiar?

Então imagina se você pudesse viver em um lugar cercado por pessoas que estão em outro ritmo, que preparam (e plantam) a sua própria comida, limpam seu próprio banheiro e, às vezes, esquecem de trancar a porta da frente. Pode parecer utopia, mas essa é a realidade de muitos profissionais, que deixaram de ouvir Elis Regina cantando “Eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar no tamanho da paz. E tenha somente a certeza dos limites do corpo e nada mais” para viver essa experiência na prática.

Se você ainda pensa que isso é ideia de adolescente hippie ou de velhinhos aposentados, pode esquecer. Esse estilo de vida vem sendo buscado cada vez mais por casais com filhos pequenos, como Hugo e Manu Melo Franco, que se mudaram para a Chapada Diamantina com o filho Tomé, de dois anos, e Nina, a caçula, que ainda estava na barriga da mãe. Da experiência surgiu o blog Notas Sobre uma Escolha, em que Manu compartilha um pouco da rotina da família após se mudar para o campo. Foi preciso vender tudo que tinham para realizar a mudança, mas a ideia era exatamente essa: “Escolhemos partir para poder chegar, ter menos para poder ser mais”, conta. Hoje estão vivendo em Pirenópolis, como contam aqui.

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Apesar de precisarem de pouco dinheiro, já que grande parte do sustento da família vem da própria horta, Malu continua trabalhando à distância como jornalista freelancer. Afinal, as contas de luz e internet ainda não podem ser pagas com hortaliças (infelizmente, diga-se de passagem). E são essas as únicas comodidades das quais a família não abre mão no sítio de cinco hectares onde vive atualmente. Mesmo assim, a ideia é que eles possam caminhar cada vez mais rumo à sustentabilidade, com a implantação de um sistema de captação de energia solar.

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Para Anna Márcia e Rodrigo, a motivação veio com o nascimento do primeiro filho e a busca por um estilo de vida mais saudável. Depois de tomar a decisão de se mudar para um lugar mais próximo da natureza e de um estilo de vida mais simples,  o casal contou com uma ajudinha da tecnologia para continuar trabalhando remotamente – e Anna Márcia, que trabalha com coaching, conta que a procura só aumentou depois que passou a atender online.

No vídeo abaixo, feito para o canal do Youtube Meu Bebê, o casal conta um pouco sobre essa mudança:

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Outro exemplo de um casal que decidiu largar a selva de concreto em busca de mais liberdade e qualidade de vida foram Eme Viegas e Jaque Barbosa – criadores dos sites HypenessNômades Digitais e Casal Sem Vergonha. Os dois são paulistanos “do olho do fucarão”, como gostam de definir, mas num certo momento começaram a questionar se a cidade grande realmente estava oferecendo benefícios suficientes que justificassem permanecer numa cidade que eles enxergavam como caótica, poluída, violenta e superlotada. “A gente começou a perceber que apesar de São Paulo oferecer muita estrutura, a gente não estava aproveitando tanto. Há muitas opções culturais, gastronômicas e de lazer, mas se locomover pela cidade era sempre difícil, o que fazia com que não aproveitássemos tanto.” afirma Eme Viegas.” Outra questão que incomodava muito era a questão da violência. “Já fomos assaltados, nossa família e amigos já foram assaltados. A gente não queria viver num lugar onde éramos reféns do medo e da insegurança. A gente queria dormir de porta aberta e poder ter janelas sem grades.”

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E conseguiram. Desde o início, quando abriram a empresa de projetos para a internet, eles já estruturaram o funcionamento dela para que tudo rodasse online. Assim, conseguiram a liberdade que tanto buscavam. Se mudaram para uma agrovila em Ilhabela de frente para o mar, onde eram acordados pelos papagaios, assistiam ao pôr-do-sol todos os dias de camarote, e dormiam com o som das ondas como trilha sonora. “Depois que nos mudamos para Ilhabela, nossa produtividade disparou. Ficamos muito mais inspirados e felizes, e isso refletiu diretamente no nosso trabalho. A nossa empresa cresceu, nosso trabalho ganhou uma visibilidade muito bacana, os lucros aumentaram. Não conheço nada que motive mais do que viver uma vida como você sempre sonhou.”, revela Eme Viegas.

Depois de morarem por 2 anos nessa agrovila em Ilhabela, eles decidiram fazer do mundo seu quintal. Passaram a viajar por diferentes lugares do globo ao mesmo tempo em que trabalham. “Hoje nossa empresa conta com uma média de 10 pessoas na equipe, cada um em um canto do mundo. Tem gente em Portugal, Berlim, Curitiba, Rio de Janeiro, Londres, São Paulo. A gente gostou tanto desse estilo de vida que achamos justo que as pessoas do time pudessem viver isso também.” , conta Jaque Barbosa. E o Eme Viegas completa: “Apesar de hoje em dia estarmos viajando pelo mundo, sempre procuramos passar mais tempo em lugares onde podemos ter contato com a natureza. Depois que você descobre os benefícios de viver e trabalhar perto da natureza, você não consegue mais voltar pra vida antiga. Temos certeza que esse é o estilo de vida do futuro: a união da natureza com a tecnologia.”

Se as histórias acima parecem surpreendentes, vale a pena também colocar alguns números na balança. Afinal, o próprio IBGE aponta que um quarto da população brasileira trabalha em casa atualmente – e esse número é em grande parte influenciado pelos trabalhadores que vivem em regiões rurais. Além disso, em países que enfrentaram uma crise econômica recente, a população destas áreas já começa a crescer. É o caso da Espanha, que viu um aumento de 12,9% na população de cidades com até 100 habitantes nos últimos 10 anos. Por lá, muita gente está buscando voltar ao campo para diminuir os custos decorrentes de um estilo de vida urbano. 

Enquanto isso, para algumas pessoas a vida no campo é praticamente uma consequência de outras escolhas. Foi o que aconteceu com Larissa e Carlos que decidiram passar um ano vivendo na Nova Zelândia, onde passariam por diversas cidades. Durante esse tempo, eles realizariam house sitting. Ou seja: poderiam viver em uma casa gratuitamente e, como contrapartida, teriam que cuidar da propriedade e dos animais que viviam nela.

Mesmo que nem toda a viagem dos dois seja para destinos rurais, grande parte dela acabou tendo esse foco, principalmente pelas características da hospedagem escolhida. E a experiência foi tão inspiradora que eles decidiram continuar com ela por tempo indeterminado, enquanto contam um pouco desta aventura no blog Vida Cigana.

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Não é por acaso que comunidades como o WWOOF, que promovem o intercâmbio em fazendas orgânicas pelo mundo, crescem a cada dia. A rede propõe que viajantes troquem algumas horas de trabalho por hospedagem e alimentação gratuita em regiões rurais e, de quebra, permite que eles conheçam um pouco mais a fundo a cultura das comunidades que visitam, além de aprender muito sobre agricultura ecológica.

Quem viveu essa experiência não se arrepende: “Das muitas coisas que aprendi em Anlhiac, uma delas é em relação ao tempo e a vida no campo. Lá o tempo é outro, as pessoas e suas atividades seguem outro ritmo, outro padrão. Embora muitas pessoas achem o contrário, a vida no campo é muito dinâmica, muito viva! Apenas segue outro ritmo”, conta João Carlos, que viveu a experiência em uma fazenda na cidade de Anlhiac, no interior da França.

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O WWOOF ou mesmo o house sitting também podem servir como um estágio para aqueles que pensam em largar tudo para viver no campo. Afinal, são oportunidades de aprender mais sobre este estilo de vida antes de se jogar de cabeça no desconhecido. Para isso, não basta ficar no tamanho da paz, como Elis Regina. Muitas vezes é preciso de um pouquinho de coragem para aprender a viver longe de serviços que na cidade parecem essenciais, como supermercados ou hospitais. Quem tentou garante que a coragem dessa escolha é recompensada como nunca.

Em um momento no qual grandes cidades vivem uma crise hídrica como não se via há muito tempo, como o caso de São Paulo, no qual o governo já fala em rodízio de até 5 dias sem água por semana  o êxodo dos centros urbanos tem se intensificado. Nas grandes cidades, a competitividade é maior, a disputa por espaço e recursos é muito mais acirrada, e o nível de qualidade de vida tem cada vez sido mais baixo. Esses fatores fazem com que cada dia mais pessoas decidam deixar as grandes cidades rumo ao campo, onde os recursos ainda são muito mais abundantes e o nível de qualidade de vida é inquestionavelmente mais elevado. Muitas pessoas têm se questionado: pra que ficar numa cidade superlotada quando há a escolha de se mudar para um lugar onde reina a abundância?

Falando em escolha, a Manu nos lembra bem o que fez com que ela e a família fizessem as malas e partissem para o campo: “A nossa escolha nada mais é por viver uma vida larga, não apenas uma vida longa”. E a sua?

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Fotos 1-4, 14, 15: Manu Melo Franco; Fotos 5, 6: Reprodução Youtube Mey Bebê; Foto 7: Reprodução Youtube continuecurioso; Fotos 8-10: Vida Cigana; Fotos 11-13: Relatos de um Caminhante. faixa-materia-especial