O que aconteceu quando topei o desafio de ficar uma semana sem procrastinar

Fechei a aba do Facebook, o email, deixei o celular no silencioso (com a tela virada para a mesa), coloquei o fone de ouvido e expulsei o gato da sala, para que ele vá ronronar longe de mim. O foco é a tela em que escrevo este texto, mas apesar das distrações externas estarem sob controle, a minha mente vagueia em sobre como seria gostoso deitar no sofá e assistir Hora da Aventura. Ou sobre como eu preciso ir ao mercado comprar açúcar, macarrão, água e detergente. E então, por um segundo, o olhar desvia da tela e eu observo alguns postais que tenho colados na parede. Vejo uma xícara na imagem de um quadro do Dalí e me dá vontade de tomar café. Um chocolate para acompanhar não seria mal. Mas o que mesmo que eu estava fazendo? Ah, procrastinando.

Se o primeiro passo é sempre a negação, afirmo: não sou procrastinadora, sou distraída. Quando leio uma notícia qualquer na internet, já clico em links, abro a propaganda, pesquiso no Google um tópico do qual lembrei, entro no Twitter para comentar sobre, perco-me na timeline, já estou em outro assunto e, quando vejo, uma hora foi pelo ralo. Enquanto isso, há trabalho a ser feito, casa a ser arrumada e compromissos mil. Não procrastino porque quero. É algo que acontece e sobre o qual eu não tenho controle. Mas acho que a Jaque Barbosa, diretora de conteúdo do Hypeness, sacou que havia algo errado em eu enviar posts às 3 da manhã para aprovação e resolveu me dar um toque sutil: o desafio é passar uma semana sem procrastinar.

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CHALLENGE ACCEPTED! Foto © Bruna Rasmussen/Hypeness

Meu trabalho está longe de ser do tipo detestável, em que o sujeito já começa a reclamar no domingo à tarde e só para na sexta. Eu adoro trabalhar como redatora e não me imagino fazendo outra coisa, mas nem isso me impede de colocar outras tarefas à frente dos textos que precisam ser escritos. A fonte da minha procrastinação está em saber que há o Netflix inteiro por assistir, a timeline infinita do Facebook por ler e um gato fofinho que adora carinho na barriga para amassar. Trabalho em casa e eu tenho o dia inteiro para entregar meus textos. Sendo assim, a lógica obviamente é: daqui a pouco eu faço. O problema é que o daqui a pouco é onze da noite e, quando o relógio bate, preciso correr para escrever e entregar tudo.

Criativos e procrastinadores

Para quem trabalha em home office e, principalmente, com jobs que exigem criatividade, a disciplina é um pote de ouro e eu sou uma das que precisa encontrá-lo – se não o pote, pelo menos o caminho que me leva até ele.

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“DO YOUR WORK. DON’T BE STUPID” (Faça seu trabalho, não seja bobo, em português) Foto © Bruna Rasmussen/Hypeness

O trabalho feito por redatores, diretores de arte, fotógrafos e todo profissional criativo costuma ser um prato cheio para a procrastinação. Isso acontece porque criar algo exige o uso da imaginação e, nesse momento, o monstro do prazer instantâneo pode tirar você do foco. “Toda jornada criativa começa com um problema. Ela começa com um sentimento de frustração, a dor de não conseguir encontrar uma resposta. Nós trabalhamos duro, mas chegamos a um muro. Nós não temos ideia do que fazer em seguida”, afirma Johan Lehrer no livro Imagine: How Creativity Works1. Isso significa que, mesmo que você trabalhe duro em um job, um momento de frustração pode fazer com que você se renda aos prazeres instantâneos da procrastinação. E aí? Qual é a solução?

Observando hábitos

A procrastinação, resultado de uma péssima disciplina, é algo que está enraizada em hábitos. Então, a primeira coisa que fiz neste desafio foi me esforçar a observar o que eu fazia, quando eu fazia e tentar entender o porquê eu fazia. Na rotina, a gente costuma se deixar levar no modo automático e fazer as coisas sem pensar. Estar atenta aos meus movimentos e vontades, por si só, já foi difícil, mas foi essencial para entender o problema e reconhecer que o meu tempo poderia ser melhor empregado. Seguem algumas percepções que tive sobre a minha produtividade e hábitos:

  1. O Facebook é uma máquina mortal de procrastinação. Aquele feed infinito maravilhoso, aquelas pessoas falando bobagens nos comentários e você, num masoquismo inexplicável, lendo tudo até o final, os memes engraçadinhos, as tretas, os amigos convidando para uma cerveja no fim do dia. Ah, o Facebook… e lá se foram 50 minutos.
  2. Multitasking: eu jurava que era capaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Então descobri que, na verdade, eu sou capaz de fazer duas coisas mal feitas ao mesmo tempo.

  3. Cuidar da casa é uma terapia. Todos nós sabemos que lavar louça é a solução contra comentários desnecessários e tretas nas redes sociais. Contudo, descobri também que esta é uma excelente forma de pensar um texto e ser mais criativa. Geralmente, eu formo o texto e sua estrutura na cabeça antes de escrevê-lo e percebi que, sempre enquanto esfrego panelas e pratos, consigo construir ideias e parágrafos mais facilmente. São momentos em que eu não preciso pensar e acabo me sentindo mais relaxada. No mesmo livro que comentei anteriormente, o autor explica porque atividades como dobrar roupas ou lavar a louça contribuem tanto para o processo criativo: “Quando nossas mentes estão relaxadas nós temos a chance de direcionar o holofote da atenção para dentro, para o rio de associações remotas que emanam do lado direito do cérebro. […] É por isso que tantas ideias acontecem durante banhos quentes. Para muitas pessoas, essa é a parte mais relaxante do dia”.

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Em tempos de seca, indicar uma ducha criativa não é muito sensato, mas saiba que é uma possibilidade. Fotos © Bruna Rasmussen/Hypeness

A sobremesa antes da comida

Quando eu era criança, minha mãe ensinou que é preciso raspar o prato do almoço para ganhar a sobremesa. Eu cresci meio rebelde e, todos os dias, como a sobremesa antes da comida, mesmo sabendo ser errado. Antes que mamãe leia isso e tenha um xilique, explico: a sobremesa costuma vir na forma de um vídeo engraçadinho, um artigo fora do tópico do trabalho ou nas conexões curiosas que me levam de uma notícia a um passeio no Google Street View em algum lugar do outro lado do planeta. A procrastinação busca o prazer imediato. E isso não é muito esperto, já que os resultados são ansiedade, trabalhos que poderiam ter uma qualidade melhor e horários malucos.

Mas todo mundo que já começou uma dieta na segunda-feira ou prometeu no Ano Novo que ia parar de tomar refrigerante sabe que, como diz o ditado, old habits die hard. Não é da noite para o dia que eu vou me tornar uma ninja da produtividade e trabalhar sem distrações a tarde inteira. Mas por onde começar?

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Clique na imagem para aumentar. Imagem: Reprodução

Decidi que eu tinha duas horas e um Google todo pela frente para descobrir como as pessoas evitam a procrastinação e melhoram a disciplina, sobretudo no trabalho. A outra regra da pesquisa foi manter as conexões, que obviamente iriam acontecer, em uma janela separada. Toda vez que via ou lembrava de algo que gostaria de ler ou pesquisar sobre, deixava o link na outra janela e continuava a busca para exterminar o monstro da procrastinação.

Para a minha alegria, existem milhões de procrastinadores mais evoluídos e ex-procrastinadores para contar suas histórias de superação. Os métodos e dicas são variados, mas uma coisa é unânime: largar esse hábito não é tarefa fácil e demora muito mais do que a semana proposta no desafio.

O jeito certo de fazer uma lista

A dica de produtividade que foi essencial para esse começo de mudança de hábitos foram as listas. Elas não são exatamente novidade, já que eu sempre tive mania de anotar num caderninho tudo o que tenho que fazer. O problema é que durante todo esse tempo eu estive fazendo listas da forma errada e dando brecha para a procrastinação.

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Este é um exemplo de como NÃO fazer uma lista. Foto © Bruna Rasmussen/Hypeness

Descobri que além de ler meu feed de notícias e brincar com o gato, outra coisa que me dá prazer instantâneo é riscar itens cumpridos. Cada vez que eu termino uma tarefa e consigo riscá-la da lista, a sensação de eficiência e alívio toma conta e me arranca até um sorrisinho de glória. E não é só comigo que isso acontece, já que se trata de um padrão de recompensa interpretado pelo cérebro. Para estimular isso, então, a solução é fazer uma lista que renda várias recompensas.

E as duas palavras mágicas são: quebre tarefas. Em vez de anotar na lista que eu preciso escrever uma pauta, o ideal é desmembrar a tarefa em, no mínimo cinco itens: pesquisa, leitura, escrita, revisão e postagem. Para as tarefas de casa isso também funciona. No lugar de “limpar a casa”, itens como “tirar o pó da prateleira da sala”, “passar pano no chão da cozinha” e “trocar os lençóis” tornam as coisas mais simples e “fazíveis”.

O mesmo vale para objetivos maiores, como “aprender a programar” ou “escrever um livro”. Colocada dessa forma, a tarefa parece um bicho de duzentas cabeças. Contudo, ao desmembrá-la, têm-se itens que podem ser cumpridos aos poucos, como tijolos que formam uma construção.

Lista “errada”

  • Limpar a casa
  • Escrever um post

Lista “certa”

  • Casa: dobrar roupas que estão no sofá
  • Casa: passar pano no chão da cozinha
  • Casa: trocar os lençóis da cama
  • Casa: lavar a louça da pia
  • Casa: tirar o pó da mesa do escritório
  • Post: pesquisa
  • Post: leitura
  • Post: escrever
  • Post: revisar
  • Post: subir para o site

A regra dos 3 minutos

Durante minha pesquisa sobre procrastinação em publicações e fóruns, li diversas pessoas dando a mesma dica quando o problema é iniciar uma tarefa: desafie-se a fazer a tarefa indesejada por três minutos. Passado esse tempo, é bem provável que você acabe se entretendo e consiga manter o foco no trabalho por muito mais tempo que isso.

A regrinha funcionou bem e até decidi escrever uma mensagem “motivacional” no quadro branco, como você vê abaixo. Essa é a Nike me ajudando a entregar textos. “Apenas faça”, não pense muito e não titubeie. Por pelo menos três minutos. E não é que deu certo? Começar tarefas está sendo menos difícil, mas continuá-las ainda é um desafio, já que para procrastinar basta um clique.

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Foto © Bruna Rasmussen/Hypeness

Técnica Pomodoro

Quando li o nome, já pensei em pizza e estava correndo pegar o telefone do delivery, chamar os amigos e namorada e… Respirei fundo e recuperei o foco. A técnica Pomodoro, criada nos anos 80, é uma forma simples de otimizar o tempo e tornar as atividades mais fáceis de serem cumpridas.

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Considerando comprar um tomate-relógio. Este é meramente ilustrativo. Foto © Bruna Rasmussen/Hypeness

Funciona assim: você divide o seu dia ou horário de trabalho em vários tomatinhos que equivalem a 25 minutos (ou o tempo que você quiser, mas o padrão é esse). Toda vez que você inicia a contagem de um tomatinho, é preciso fazer o máximo esforço que puder para se focar somente em uma tarefa: seja um job do trabalho, a leitura de um livro ou estudar para uma prova. Finalizado o tomatinho, você tem 5 minutos para relaxar e, então, deve dar conta de outro tomatinho. A cada quatro tomatinhos bem-sucedidos, você tem direito a um intervalo maior e assim por diante, até que você termine o dia ou todas as tarefas.

O nome Pomodoro foi escolhido porque o criador do método usava para cronometrar o tempo um relógio de cozinha que tinha forma de tomate. Como eu não tenho um relógio na cozinha, baixei um dos vários aplicativos gratuitos da técnica no celular (o escolhido se chama Easy Pomodoro, para iOS, mas se tiver uma dica melhor, pode deixar nos comentários!) e comecei a testar.

Posso dizer que a técnica, embora simples, é bastante útil. O diabinho que busca o prazer instantâneo e fica se mordendo para assistir à Hora da Aventura em vez de entregar os posts consegue muito bem me deixar em paz por 25 minutos e até mais. Na tentativa e erro, aliás, descobri que, no meu caso, o tempo ideal de cada tomatinho é 40 e não 25 minutos, dado que levantei após começar a cronometrar quanto tempo levo para finalizar uma tarefa padrão do meu trabalho.

Sendo assim, criei a seguinte configuração Pomodoro:

  • Cada tomate tem 40 minutos;
  • 5 minutos de intervalo a cada tomate;
  • 30 minutos de intervalo a cada 2 tomates;

Enquanto testava os 25 minutos, muitas vezes o intervalo caia bem no meio de um texto e, perdendo o fio da meada, eu acabava demorando muito para recuperar o raciocínio e o ritmo. Com 40 minutos de foco, no entanto, tenho o tempo necessário para finalizar um item da lista e o tomatinho explode na hora certa. O intervalo curto, de 5 minutos, permite levantar da cadeira, tomar água ou fazer um café, ir ao banheiro e, o principal, alongar as mãos – por trabalhar o dia inteiro com os dedos no teclado, tendinite sempre foi um problema para mim e me disciplinar para fazer alongamentos até então não havia sido possível.

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O Darth está louco para me levar para o lado procrastinado da Força. Foto © Bruna Rasmussen/Hypeness

Por fim, o intervalo maior é cronometrado em 30 minutos. “Mas não é muito tempo?”, você me pergunta. Meu trabalho envolve escrever muito e ler mais ainda, atividades que esgotam a mente, que clama por minutos de respiro. Nessa meia hora, eu consigo oxigenar as ideias dando uma volta, posso me perder no Facebook, conversar com amigos, ler o que está acontecendo no mundo, fazer carinho na barriga do gato, deitar no sofá para jogar Candy Crush (sim, sou dessas) ou lavar a louça. Dessa forma, quando volto para liquidar mais dois tomatinhos, a cabeça está fresca e realizar qualquer trabalho criativo fica mais fácil.

Disciplina, volver!

Enquanto escrevia esse texto, segui à risca meus intervalos, tomatinhos e consegui focar no post, mas confesso que, em paralelo, rolou uma luta intensa entre o diabinho do prazer instantâneo e o soldadinho da disciplina. Acontece que, depois de tantos anos, esse danado anda mal acostumado e não é fácil contê-lo. Ao fim de sete dias focados em procrastinar menos e ser mais disciplinada com o trabalho, seria mentira afirmar que consegui cumprir o desafio com sucesso e me tornei uma redatora megaprodutiva. O que consegui esta semana, no entanto, foi um passo importante que envolveu entender o problema da procrastinação e saber quais são as ferramentas e métodos disponíveis para enfrentá-lo.

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Theo, o gato, é uma constante distração quando resolve destruir a casa e derrubar todos os bonequinhos da prateleira em busca de atenção. Foto © Bruna Rasmussen/Hypeness

O trio lista + regra dos 3 minutos + técnica pomodoro permitiu que eu adaptasse à minha rotina um ritmo de trabalho mais disciplinado. É claro que nem sempre vou conseguir segui-lo à risca. E-mails urgentes chegam, o interfone toca, o gato destrói a casa, a internet para de funcionar, a luz acaba, entre tantas outras coisas que podem atrapalhar o plano ideal de trabalho. É preciso manter essas regras flexíveis a fim de evitar a frustração – ela é uma grande brecha para a procrastinação, lembra?

Bom, agora que me dediquei por uma semana à busca pela disciplina, vou tentar dar continuidade ao plano, adaptar métodos e parar de enviar posts às 3 da manhã – certo, Jaque? Quem sabe o soldadinho se torne um grande general!

E então, se anima a tentar eliminar esse diabinho da procrastinação da sua vida durante uma semana? Então se junte a nós! Para dar início esse desafio, poste uma foto nas suas redes sociais com a #desafiohypeness3 e #umasemanasemprocrastinar. Sua foto pode vir parar aqui no Hypeness!

Notas

1 Imagine: How Creativity Works, de Jonah Lehrer. O livro ainda não tem tradução para o português mas está disponível em formato digital via Amazon.

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