Matéria Especial Hypeness

As ciclovias de SP funcionam? Percorremos a cidade numa magrela pra descobrir.

por: Daniel Boa Nova

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O uso da bicicleta como meio de transporte em São Paulo costumava ser visto como iniciativa de apenas alguns aventureiros isolados. Sem vias específicas para isso e sinalização adequada, parecia loucura sair pedalando diariamente entre ônibus, carros e motoboys. Mas agora, finalmente, a cidade conta com uma malha de ciclovias que atravessam zonas e bairros.

Hoje são mais de 200 quilômetros de ciclovias permanentes na capital paulista e, enquanto essa matéria é escrita, a metragem vai aumentando. A previsão dos órgãos públicos municipais é chegar a 400 quilômetros ainda em 2015 (veja aqui o mapa das ciclovias de São Paulo).

Porém, não é que as ciclovias tenham sido recebidas de braços abertos por todos na cidade. Apesar das pesquisas indicarem que a maioria dos moradores aprova a construção e ampliação delas, o assunto sempre desperta polêmica quando trazido à tona. Em fevereiro, uma escola no bairro da Vila Mariana entrou com uma ação judicial para simplesmente apagar a ciclovia que passa em frente a seus muros. Outro caso recente teve como cenário Higienópolis, onde a Prefeitura precisou mudar o traçado de um trecho após reclamações de comerciantes locais. Fora isso, volta e meia aparecem relatos e vídeos na internet de motoristas desrespeitando os limites e avançando sobre ciclistas.

Para ir além do diz-que-diz e conferir na prática a quantas andam as ciclovias de São Paulo, o Hypeness pegou a magrela e foi dar um rolê. Em três dias diferentes, o correspondente aqui esteve pedalando por trajetos diversos.

Começou em um fim de domingo, quando haveria o show gratuito de algumas bandas na Praça Dom José Gaspar. Como moro na região central, não fazia sentido ir de carro. Aliás, ir ao Centro de carro nunca costuma ser boa ideia. Usar o metrô seria o mais óbvio, mas optei pela bike por conta da pauta.

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Com o sol quase se pondo, pedalei tranquilamente pelo Largo do Arouche, Praça da República e Avenida São Luís. Na mesma ciclovia, encontrei um amigo meu que seguia de bicicleta para outro destino. Qual a probabilidade de encontrar um amigo no carro ao lado quando se está parado no congestionamento?

Chegando ao local pude constatar que, assim como eu, vários outros presentes ali também estavam na companhia de suas bikes. E, quando terminou, voltei sob a noite pelo mesmo caminho, com a certeza de que teria gasto mais tempo e dinheiro se tivesse ido dirigindo.

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Na quarta-feira seguinte, por volta das 10 da manhã, peguei a bicicleta para dar outra volta. Ao me ver, um vizinho questionou do alto de sua bengala se eu pretendia usar a ciclovia. Respondi que sim, era essa a intenção. Enquanto o elevador descia, ele me contou que não via a novidade com otimismo. A síntese de seu raciocínio era algo como “não tenho nada contra as ciclovias, mas imagine uma mocinha toda arrumada ir para o trabalho de bicicleta e, ao chegar, estar toda bagunçada“. Juro.

Perguntei se ele não achava que a iniciativa privada poderia colaborar, construindo bicicletários e vestiários em suas instalações. Aliás, abrindo um parênteses aqui: quanto gastam as empresas de São Paulo com auxílio-estacionamento para quem vai de carro? Sem pesquisar, chutaria que na região da Vila Olímpia e Berrini o valor mensal por funcionário motorizado passa facilmente dos R$ 200,00. Quem trabalha por esses lados pode dizer melhor. Fazendo uma rápida conta de padeiro, parece que, além de aliviar o trânsito, incentivar o uso de bikes economizaria gastos com Recursos Humanos. Inclusive, já começam a surgir iniciativas inovadoras nesse sentido.

Mas voltando ao vizinho, ele não soube me responder. Achei então que não precisava continuar a conversa e segui meu rumo. Dessa vez tomei o sentido contrário da ciclovia na Santa Cecília, pegando a Rua Albuquerque Lins para atravessar o Minhocão em direção à Barra Funda.

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Entre as reclamações que surgem no boca a boca, uma recorrente é a de que ninguém usa essas vias. Bem, os números do Ibope apontam para uma realidade diferente. E as redes sociais também dão mostras que vão na contramão dessa alegação, como pode ser visto nesse site.

Não é porque a ciclovia está sem congestionamento que as pessoas não estão usando. No meu caminho cruzei com vários ciclistas, alguns a trabalho e outros se exercitando. E não apenas eles: carroceiros, skatistas, gente de patins, corredores e também cadeirantes. Como pouquíssimas calçadas são niveladas e têm rampas, é bastante compreensível que deficientes físicos utilizem as ciclovias para circular com dignidade.

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De bicicleta na região da Barra Funda e Bom Retiro, saltam aos olhos alguns detalhes que poderiam passar despercebidos por trás do para-brisa filmado de um automóvel. A arquitetura das fábricas antigas, a igreja dos bolivianos, o barracão da escola de samba, o centro de candomblé, o colégio dos coreanos, o papagaio do mecânico e, claro, os grafites.

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São Paulo é referência mundial nessa forma de arte. E o berço do grafite é a rua. Não tem jeito melhor de contemplar os grafites da cidade do que caminhando ou pedalando. As ciclovias são um ótimo meio para isso.

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Finalmente, cheguei ao encontro da bela paisagem que o Rio Tietê proporciona. Foi um momento sublime.

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A ciclovia cruza a ponte e segue pela Zona Norte, mas meu condicionamento físico me dizia que metade do caminho já tinha sido percorrido. Era hora de voltar. Fiz isso com um pequeno desvio em relação ao caminho da ida para passar pela Praça Júlio Prestes. Naquela região onde o crack faz a festa.

Tirei fotos bem rapidamente e meio afastado, já que não é recomendável ostentar smartphone por ali.

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No dia seguinte, precisei levar meu computador para consertar. Busquei uma assistência técnica que fosse acessível por ciclovias e descobri uma na Rua dos Pinheiros. Fui de capacete e bicicleta para explorar esse pedaço na Zona Oeste.

Deviam ser umas 9 e meia da manhã quando saí e estava mais quente do que na véspera. Ao chegar na subida da Rua Ministro Godói, passando o Parque da Água Branca, a máquina começou a dar pane. Talvez pelo esforço que já havia feito no dia anterior, talvez por estar carregando um notebook nas costas, fato é que minhas pernas pareciam ter ganhado um bloco de cimento cada uma.

Será que construir uma ciclovia no montanhoso bairro das Perdizes foi uma boa? Não sou parâmetro para julgar. Enquanto lidava com meus demônios na subida, um senhor que deveria ter pelo menos uns 15 anos a mais do que eu passou por mim tranquilamente pedalando.

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Já na Sumaré, parei para beber água e o sistema voltou a operar mais normalmente. A ciclovia da avenida existe há um bom tempo, mas antes não se conectava com nenhuma outra. No ano passado, ela passou por uma reforma e a sinalização foi regulamentada para o uso compartilhado entre ciclistas e pedestres, além do que agora está interligada com o trecho de Perdizes. Uma característica bacana na Sumaré é que o caminho passa várias vezes por entre as árvores.

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No final dela seria possível fazer um retorno pela Rua João Moura, tudo por ciclovia. No entanto decidi seguir adiante pelo canteiro central da Avenida Henrique Schaumann, sem pista exclusiva. Era o caminho mais curto. O rolê de bike virou um pouco corrida de obstáculos, mas logo reencontrei a ciclovia na esquina com a Rua Artur de Azevedo e dali até a assistência técnica foi um pulo.

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Se eu pudesse escolher, teria retornado para casa de metrô. Porém, nos dias úteis o metrô de São Paulo só permite transportar bicicletas após as 20h30. Aos sábados, domingos e feriados, essa permissão se estende para mais horários. Embora não seja de bom senso querer entrar com uma bicicleta na Estação da Sé durante a hora do rush, fato é que essas regras de funcionamento mostram qual é a visão da empresa sobre as bicicletas. A visão de que são para lazer, e não transporte.

Foi essa a razão também que me fez optar por explorar as ciclovias mais acessíveis para mim. Ciclistas experientes conseguem atravessar a cidade de lá para cá. Eu não. Para conhecer os trechos mais ao Sul, Norte e Leste, talvez fosse necessário pegar carro, veja só.

Acabei voltando do mesmo jeito que fui: pedalando. Mas confesso que, na subida de volta da Rua João Ramalho, desci da bicicleta e a empurrei ladeira acima.

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Estou com 33 anos, sempre morei em São Paulo e nunca imaginei ver aqui ciclovias como as que temos agora. Parecia uma utopia, um luxo exclusivo de cidades europeias como Amsterdam, Berlim ou Copenhague. Desde a infância até poucos anos atrás, eu nem sequer tinha uma bicicleta para chamar de minha. Agora, em 3 dias diferentes dentro de uma mesma semana, percorri aproximadamente 30 quilômetros por ciclovias. E isso é apenas uma amostra, que representa em torno de 10% do que temos à disposição.

Claro que algumas correções podem ser necessárias. Com qualquer projeto inovador funciona assim, não? Cria-se o piloto, coloca-se em teste, fase beta. E, com base nos feedbacks, o projeto vai sendo aperfeiçoado. Se você já percorreu outros trechos das ciclovias paulistanas ou se tiver um relato sobre a experiência em outras cidades para compartilhar, nossa caixa de comentários está à disposição. É trocando impressões que vamos tornar nossas ciclovias melhores.

Afinal, em qual cidade queremos viver? Nessa que estivemos habitando as últimas décadas? Com todos presos no congestionamento, respirando poluição e estressados? Chegou a hora de testar novos modelos. Para quem insiste em estacionar o carro sobre as faixas exclusivas ou avançar patologicamente com seu automóvel sobre ciclistas, fica aqui o meu convite para pedalar pelo menos uma vez na vida usando as ciclovias. Mal não vai fazer.

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Todas as fotos © Daniel Boa Nova Hypeness

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Daniel Boa Nova
Redator / Roteirista / Produtor de conteúdo

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