Como me senti no dia em que tomei ayahuasca pela primeira vez

Seria possível descrever em palavras uma experiência sensorial tão singular? Como desenhar para quem nunca passou por uma jornada como essa as paisagens com as quais você se depara durante o trajeto? Como explicar aquilo que você encontra ao olhar com tanta profundidade para dentro de si? Foi esse o desafio da vez proposto pelo Hypeness.

Desde que recebi a pauta, perder minha virgindade com a ayahuasca parecia a parte mais simples do processo. Na vida já tive umas tantas experiências com estados alterados de consciência para não temer os efeitos do chá. Conheço meus limites e confio no meu discernimento. Acreditava  que, encontrando pessoas que entendessem o objetivo da matéria e aceitassem minha presença, bastaria comparecer e deixar rolar.

Porém, o que não conseguia vislumbrar de antemão era como relatar isso tudo. Meu desejo era abordar o tema sem fazer juízos de valor das questões de fé envolvidas. Ao mesmo tempo, narrar para quem nunca teve contato com esse universo sem mistificar a prática. E, passada a experiência, também veio a incógnita sobre como traduzir em texto tudo que vi enquanto estava de olhos fechados sendo conduzido pela ayahuasca. Espero conseguir.

Para quem nunca ouviu falar, a ayahuasca está presente há milênios na cultura de alguns povos indígenas nativos da região amazônica. É uma bebida produzida a partir da combinação de um tipo de cipó com um tipo de arbusto que, ao ser tomada, produz um efeito psicoativo.

A shaman in Ecuador boils ayahuasca leaves.

Alguns classificariam o chá como alucinógeno. Nas minhas pesquisas e conversas, ouvi pela primeira vez o termo enteógeno. Ou seja, ao invés de dar aquela chacoalhada na sobriedade bem típica das substâncias psicodélicas, o que ocorre é uma ampliação da percepção e da capacidade de autoanálise, possibilitando acessar níveis psíquicos subconscientes. Algo semelhante a uma meditação profunda.

Existem pesquisas sérias dando conta dos aspectos biomédicos da ayahuasca e seu potencial de uso terapêutico antidepressivo e ansiolítico, assim como seu baixo risco à saúde física. Veja aqui nesta palestra dada por Luis Fernando Tófoli, médico-psiquiatra e professor da Unicamp:

A ayahuasca sempre esteve inserida em um contexto de rituais sagrados. Tanto que hoje, no Brasil, seu uso é legalizado para fins religiosos. Três religiões surgidas no século XX tornaram sua prática mais conhecida por aqui: o Santo Daime, a União do Vegetal e A Barquinha. Todas são bastante sincréticas, combinando em diferentes doses xamanismo indígena e kardecismo, passando pelo catolicismo popular e a umbanda. Um aspecto geral que pode ser destacado é a ausência de proselitismo. Seus membros não saem por aí pregando suas crenças para conquistar novas adesões.

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Porém, os cultos envolvendo a ayahuasca não se resumem a três religiões. Hoje existem diferentes modalidades de consumo do chá que, embora também estejam dentro do território da espiritualidade, trazem novas interpretações e contextos para esse bem tradicional da floresta amazônica. Um desses grupos, o Terra, foi onde vivi minha experiência.

Por uma questão de respeito à privacidade, nomes e endereços serão aqui preservados. Pelo mesmo motivo, não tirei fotos. Pedi ao pessoal que me enviasse algumas posteriormente, especialmente para ilustrar o preparo do chá, que já tinha ocorrido em uma data anterior. Aqui estão:

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Cheguei ao Terra através de uma amiga muito próxima que tinha começado a frequentá-lo uns meses antes. Ela também havia chegado a eles através de uma outra amiga. É princípio do grupo receber apenas quem seja conhecido de algum de seus membros. Até porque a experiência vivida ali envolve muita confiança nas pessoas ao seu redor. Uma preocupação com a segurança de cada um, com receber bem a todos e também em manter o foco no propósito espiritual dos encontros.

Por conta disso, alguns dias antes fui à casa de um dos participantes para bater um papo e nos conhecermos. Era uma manhã de quarta-feira em que conversamos por mais de uma hora. Lá pude expor o tom que gostaria de dar à matéria, que seria muito mais um relato em primeira pessoa do que uma análise. Apesar de entender esse objetivo profissional, a preocupação dele era com os motivos pessoais que levaram à minha aproximação. Ali estava claro que fui eu quem procurei o grupo, e não o grupo que me enviou um convite com RSVP. No final, recebi as boas-vindas e combinamos que eu participaria do próximo trabalho, a ser realizado no sábado seguinte. Como preparação, deveria ficar sem comer carne, ingerir bebidas alcoólicas e ter relações sexuais nos dias anteriores, recomendações que cumpri à risca. Além disso, caso eu fizesse uso de medicamentos, minha ida provavelmente não teria sido autorizada.

No final da tarde do sábado, pego uma carona com minha amiga até o lugar, no interior de São Paulo. Acaba de escurecer e chove bastante no momento em que chegamos. Ao contar que é minha primeira vez com a ayahuasca, as pessoas para quem me apresento têm o cuidado de não tentar explicar exatamente o que viria a acontecer comigo uma vez tomado o chá. Fazem questão é de me dar alguns toques para me sentir mais confortável durante a experiência, como se fossem comissários de bordo passando orientações básicas antes que o avião decole. Um deles, que já tem um relacionamento de 14 anos com a ayahuasca, enfatiza um conselho precioso: caso eu me encontre com qualquer sentimento ou imagem desagradável durante a jornada, devo focar apenas na respiração. Respire, respire e continue respirando. Guardo essa dica comigo em um lugar seguro e acessível.

O espaço é lindo. Uma construção toda de vidro e madeira na beira de um lago e rodeada por árvores. Na iluminação, uma porção de spots pendurados que, ao serem refletidos nos vidros, se projetam infinitamente pelo escuro do lado de fora como uma constelação. Jarros com flores compõem a decoração. E um sentimento de paz e acolhimento toma conta de mim antes mesmo de começar.

Somos cerca de 30 posicionados em círculo. Para cada pessoa, uma esteira e uma confortável almofada, além de mantas e agasalhos trazidos de casa. Algumas instruções são passadas previamente, como a localização dos banheiros e a explicação sobre um exercício de meditação que será proposto no decorrer do trabalho. Também é feito um pedido para quem estiver tomando o chá pela primeira vez avisar isso à pessoa que lhe servir. Não sou o único ali nessa condição. Deve ser por volta de 20h30 ou 21h quando começa o trabalho.

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As luzes são reduzidas. O chá é oferecido. Entro na fila e, ao chegar minha vez, me surpreendo por apreciar o gosto da bebida. Tinham me dito que era desagradável. Na mesa ao lado, foram deixadas uvas para quem quiser acalmar as papilas gustativas logo após tomar. Mas o que meu paladar sente é uma bebida espessa e levemente doce, um pouco ácida e com um sabor forte de terra. O mais próximo que poderia descrever seria um açaí bem grosso, daqueles que se toma em Belém do Pará. Tipo isso, só que nada a ver com isso. Quando comentei posteriormente que curti, as pessoas disseram que deveria ser loucura minha. Não pego nenhuma uva e volto para meu lugar.

Temple of the Way of the Light

Todos estão deitados em suas esteiras. Silêncio. Apenas o som da chuva que cai lá fora. Fico de olhos fechados esperando que algo aconteça. Não sei dizer exatamente quanto tempo passa. Uma hora, talvez? Nesse período lembro de um vizinho de infância que eu simplesmente achava ter deletado da memória. Lembro também do dia em que me despedi do primeiro colégio onde estudei. Parece que estou dando umas voltas diferentes pelo meu passado. Sem que eu tenha pensado nisso, a imagem de um índio com o braço erguido surge à minha frente. Não sei dizer se está me atacando ou protegendo, mas não sinto medo dele. Assim como vem, vai embora de súbito. Tento visualizá-lo novamente em meus pensamentos e não consigo. Tenho certeza de que o vi, mesmo de olhos fechados. Será isso o que chamam de miração? É o primeiro indício de que não estou mais no comando, estou sendo levado.

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Agora caminho por uma praia deserta e de ondas calmas. Me chama atenção a cor do pôr do sol. Como se fosse uma apresentação onde os slides vão sendo trocados, a luz se mantém, mas já não estou mais na praia e sim no topo de uma montanha. Um dos participantes começa a leitura de um texto. Eu não saberia reproduzir as palavras. Era algo na linha da busca pelo autoconhecimento e pela compreensão de que somos apenas um grão de areia nesse espaço e tempo do universo. A compreensão de que somos incapazes de resolver todos os dramas do mundo, mas que podemos olhar para dentro de nós mesmos e entender nossos propósitos e limitações para encontrar mais harmonia em nossa passagem pela Terra.  É um texto bonito sendo interpretado com delicadeza e que naquele momento me conforta. O convite para quem quiser tomar uma segunda dose do chá é feito.

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Vou até a mesma pessoa que me servira a primeira. Ele tem a preocupação de perguntar como está sendo e se me sinto bem. Sim, sim, tudo ótimo. Dessa vez como algumas uvas e volto para minha esteira. Acho que acabei dormindo, não sei por quanto tempo. Sou despertado pelos gemidos de um rapaz do outro lado da sala. Abro os olhos, me sento e vejo seu corpo se debatendo. É um dos que tomaram pela primeira vez e a experiência para ele deve estar sendo assustadora de uma maneira que nem consigo imaginar. Os mais experientes procuram acalmá-lo, confortá-lo, trazem cobertores, água. Tenho vontade de me levantar e ir até lá também, ou pedir para acenderem as luzes e desligarem o som. Mas percebo que quem pode já está oferecendo ajuda. E, naquele momento, a verdade é que não tenho esse poder.

Ao meu redor, um faz posturas de ioga. Outro desenha com as mãos no ar. Tem alguns encolhidos, em posição fetal. Também ouço alguém lá fora limpando suas entranhas. E poderia ficar aqui descrevendo o que vejo os outros fazerem no cenário em que me encontro, mas isso não chegaria nem perto da ponta do iceberg do que cada um vivenciou particularmente. No fundo, apesar de dividirmos o espaço e estarmos conectados energeticamente, é uma jornada bastante individual. Fecho os olhos novamente e lembro do conselho de focar na respiração. Sentado, de pernas cruzadas, me cubro até a cabeça com minha manta e respiro com a mão no coração. E nesse momento sinto uma vibração positiva inexplicável tomando conta de mim. É você, ayahuasca?

Quem me conduz é a playlist, que traz aos alto-falantes uma seleção variada de belos mantras, música clássica e new age. A música sempre foi uma grande paixão minha. E é ela quem me dá a mão para mergulhar mais fundo em tudo aquilo. Inevitavelmente, meu corpo se deixar levar também. Estou sentado, de olhos fechados, coberto até a cabeça e meu esqueleto chacoalha para todos os lados ao ser tocado pelas canções. Me vem a imagem de uma luz amarela-esverdeada bem forte. Para descrever o tom dessa luz de uma maneira tosca, é como se fosse da cor de um Epocler. Tipo isso, só que nada a ver com isso.

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Ora a luz aparece como fumaça, ora como reflexo, ora como um pôr do sol semelhante ao que visualizara momentos antes. As visões são recorrentes e cada aparição me faz agradecer em silêncio pela presença e beleza dessa luz. Mas quando quero visualizá-la uma última vez, simplesmente não consigo. O joystick das mirações não está na minha mão.

Para quem quiser tomar uma terceira dose do chá, o convite está feito. Enquanto ele é servido a alguém do outro lado da sala, daqui sinto o cheiro dele como se tivesse sido colocado logo abaixo de minhas narinas. Não tento entender, apenas sinto. Vou até lá e sou servido novamente. Meu interlocutor pergunta como está sendo e se me sinto bem. Estou amando muito tudo isso. Dessa vez, meio copo e mais algumas uvas.

Volto ao meu lugar e olho ao redor. O rapaz que antes se debatia já está bem mais calmo. Alguns parecem adormecidos. Outros dançam pelos cantos. E, claro, também ouço alguém purificando o seu âmago com sons guturais vindos lá de fora. Nesse momento, penso nas pessoas que mais amo e me dá uma vontade tremenda de abraçar cada uma e todas juntas. As lágrimas vão caindo sem que eu sofra por isso. Pelo contrário, estou agradecido. É como se meu ego acabasse de ser merecidamente rebaixado para a segunda divisão. Me sinto ridiculamente pequeno perante a grandeza do universo, o poder da natureza representada aqui pela ayahuasca e o tamanho do amor que sinto por outros seres.

Aos poucos, as luzes vão sendo acesas. No som é colocada uma cantiga de roda e as pessoas ocupam o centro do círculo de esteiras. Todos dançam, se abraçam, sorriem. Exorcizam os resquícios de energias carregadas que ainda estivessem por ali. E a faixa seguinte não poderia ser mais perfeita: Nina Simone.

O trabalho chega ao fim e nos sentamos em círculo. Quem quiser pode falar sobre como foi sua experiência ou o que mais sentir vontade. Peço a palavra para agradecer pelo acolhimento. Enquanto escrevo essa matéria agora, ainda não consegui processar tudo que vivenciei ali. Naquele instante, só tinha a certeza de que precisava agradecer.

Na sequência é servida uma sopa. Já passa das 4 na madrugada. As pessoas se recolhem para dormir. Na manhã seguinte, retorno para casa de carona com minha amiga e munido de uma sensação de paz indescritível. O desafio maior é tentar fazer com que esse sentimento, a autopercepção e a humildade perante o que não posso controlar sejam orgânicas em meu cotidiano. Algo bastante difícil em um momento como esse, onde muitos querem fazer valer suas opiniões no grito e parecem priorizar aquilo que são contra em vez de qual é o propósito de suas buscas. Foi simbólico ter passado por isso tudo no mesmo final de semana em que tantas pessoas foram às ruas no Brasil com motivações tão desencontradas.

Também acho que tive a sorte de vivenciar essa experiência plenamente, em um grupo que não é vinculado a uma doutrina rígida. Não sei como teria sido em uma igreja. Quem já pratica a ayahuasca há mais tempo diz que são necessários pelo menos três trabalhos para se chegar a um entendimento dos seus significados. No meu primeiro encontro, ela foi muito boa comigo. Se voltarei a procurá-la? Ainda não posso dizer que sim e nem que não. Desta vez, uma grande força agindo em mim era a curiosidade. Não sei como seria em uma próxima, desprovido dela. Segundo as palavras do Mestre Irineu, fundador da doutrina do Santo Daime, “o Daime é para todos, mas nem todos são para o Daime”.

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Fotos destaque e 05 a 08 gentilmente cedidas pelo grupo; Imagem 01 via; Imagem 02 via; Imagem 03 via; Imagem 04 via; Imagem 09 via; Imagem 10 via; Imagens 11 via; Imagem 12 via; Imagem 13 via; Imagem 14 via; Imagens 15 a 18 via; Imagem 19 via; Imagem 20 reprodução via; Imagem 21 via

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