Fazendas urbanas: como a tecnologia pode colocar alimentos orgânicos baratos no seu prato

Você ouve um alto-falante pelas ruas: “Abaixe os braços e pouse o garfo sobre o prato novamente. Sua comida pode estar envenenada”. Crianças, idosos e cãezinhos fofos não estão livres do problema. E a solução não cabe no bolso de grande parte da população. O cenário parece filme de ficção científica, mas não está tão distante do que vivemos hoje. Felizmente, a esperança pode estar na tecnologia.

Ironicamente, foi também a tecnologia que colocou o veneno no seu prato, com o nome sutil de agrotóxico. Tudo começou com a produção de alimentos em escala, em uma época em que isso era visto como progresso. Foi a chamada “revolução verde“, que chegou ao Brasil nos anos 60, trazendo muita comida para nossas mesas.

Hoje, progresso é ter um prato cheio de alimentos orgânicos. Mas como, se eles custam em média 200% a mais do que os alimentos tradicionaisMuitos produtores orgânicos lutam para conseguir que seus produtos cheguem aos mercados com preços mais justos, mas nem sempre isso é possível. Por isso, para entrar em parceria com os pequenos produtores na missão de produzir alimentos mais saudáveis para a população, as chamadas “fazendas urbanas” têm ganhado destaque.

Se o problema está no bolso, as fazendas urbanas já estão despontando como uma promessa para solucioná-lo. O nome é dado a edifícios e espaços urbanos que estão sendo repensados e reutilizados para a produção agrícola, sempre com uma ajudinha da tecnologia.

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É o caso do estudo feito pelo japonês Shigeharu Shimamura, em parceria com a GE Reports, que parece ter encontrado uma maneira de tornar as plantações indoor tão ou mais eficientes do que as tradicionais. A experiência foi feita transformando uma fábrica de semicondutores em uma floresta urbana, capaz de produzir até 10 mil cabeças de alface orgânicas por dia, com uma porcentagem de perda 40% menor do que em produções de orgânicos convencionais e ainda por cima utilizando apenas 1% da água normalmente gasta na produção (por sinal, a gente já falou sobre isso aqui).

Como? As enormes áreas de plantação foram trocadas por um espaço do tamanho de meio campo de futebol e o sol substituído por mais de 17 mil lâmpadas LED inteligentes. Com um ambiente 100% controlado, não há necessidade do uso de agrotóxicos nos alimentos, pois os vegetais não ficam expostos às mudanças climáticas ou mesmo à ação de insetos. Com uma perda menor e economia de recursos, os preços dos alimentos produzidos tendem a cair.

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Uma iniciativa semelhante em Berlim já produz verduras e cria peixes em larga escala, utilizando o sistema de aquaponia, uma mistura da aquicultura (criação de peixes), com a hidroponia (cultivo de plantas na água). Nicolas Leschke, um dos criadores do sistema, apelidado de ECT, acredita que a principal motivação de sua equipe era a de produzir alimentos em larga escala, mas de maneira sustentável. A boa notícia é que eles estão conseguindo.

O local destinado a esta produção possui 1,8 mil metros quadrados e fica localizado no bairro de Schöneberg, com capacidade para produzir cerca de 35 toneladas de verduras e legumes e 25 toneladas de peixe todos os anos, utilizando técnicas sustentáveis que incluem o aproveitamento de água da chuva, responsável por uma economia de 70% no uso do recurso. Além disso, o sistema também reaproveita a água onde os peixes vivem na plantação, já que esta é repleta de nutrientes – assim, é possível aliar fertilização e irrigação com um só elemento.

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Outro ponto importante para este tipo de plantação é a localização. Localizadas em meio à cidade, as fazendas urbanas podem economizar em logística e transporte de alimentos, tornando sua produção ainda mais sustentável. Este é apenas um dos benefícios apontados por Dickson Despommier, da Universidade de Columbia (EUA), um dos pioneiros quando se trata de fazendas verticais. Segundo ele, um edifício de 30 andares de plantação é suficiente para alimentar 10 mil pessoas. Um cálculo rápido demonstra que pouco mais de mil edifícios deste tamanho seriam necessários para alimentar toda a população da cidade de São Paulo, enquanto no Rio de Janeiro seriam necessárias menos de 650 construções similares. A tecnologia para isso já existe, só falta ser colocada em prática.

Mas por que essas iniciativas ainda são tímidas no Brasil? Segundo a revista Superinteressante, aqui não há linhas de financiamento voltadas para a agroecologia. Para piorar, entidades de pesquisa como a FAPESP, o CNPQ e a CAPES não costumam liberar bolsas de estudos para quem pretende estudar agricultura orgânica e familiar. Por aqui, a moda ainda são as hortas comunitárias, como a do Shopping Eldorado, em São Paulo, que criou um telhado verde, onde legumes e verduras são cultivados em uma área de mil metros quadrados. O local utiliza as sobras do que é consumido na praça de alimentação como adubo, criando uma alternativa sustentável ao reaproveitar os resíduos orgânicos. No primeiro ano de cultivo, o telhado verde já foi responsável por três colheitas, sendo que apenas uma delas produziu mais de 900 pés de alface e 400 berinjelas. Os alimentos são cultivados sem pesticidas e destinados aos restaurantes do próprio shopping.

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Foto © Cristina Fernandes

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Segundo a Anvisa, ainda somos responsáveis pelo consumo de 19% de todos os defensivos agrícolas produzidos no mundo. Entre estes, consumimos produtos que são proibidos nos Estados Unidos e na Europa há 20 anos. Não é por acaso que 8 mil casos de intoxicação por agrotóxicos foram registrados no Brasil apenas em 2011. E não adianta dar uma lavadinha na maçã antes de comer – a própria Anvisa já avisou que isso não retira todos os agrotóxicos presentes nos alimentos que consumimos.

Talvez por isso, já existam arquitetos repensando a nossa relação com a agricultura. É o caso de Rafael Gringberg, que propõe a revitalização de edifícios e sua transformação em fazendas verticais. Em 2011, ele apresentou uma proposta para revitalizar os edifícios São Vito e Mercúrio, no centro da capital paulista, através de plantações hidropônicas e aproveitamento da luz solar.

Aos 36 anos, o arquiteto belga Vincent Callebaut segue uma linha semelhante e aposta nas fazendas urbanas como uma opção para garantir um futuro mais saudável. Para ele, estamos a um passo de viver em condomínios sustentáveis e autossuficientes. Foi com essa proposta que ele criou o projeto Dragonfly, um edifício de duas torres que formam uma fazenda vertical. No local, haveria espaço para escritórios e apartamentos, mas também para pomares, campos de arroz e até mesmo produção de gado.

Até o momento, nenhum dos dois projetos foi colocado em prática.

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Enquanto as ideias de Callebaut e de Gringberg não saem do papel, o Japão desponta como pioneiro neste tipo de agricultura. Motivados talvez pela falta de espaço característica do país, os fazendeiros japoneses já estão inovando e investindo pesado em tecnologia e em plantações entre quatro paredes. Um exemplo bem sucedido no país é o edifício da agência de empregos Pasona, onde estão localizados um arrozal e uma sala de cultivo de vegetais hidropônicos. Cada safra de arroz plantada na empresa gera 50 quilos do grão, enquanto cerca de 250 pés de alface são plantados por semana e vão parar no prato dos funcionários do local que, por sinal, ainda dividem espaço com tomates, mostarda e brotos de soja, entre outros vegetais.

O edifício da Pasona está mais perto de ser a regra do que a exceção no país, onde 50 fábricas agrícolas foram criadas em pouco mais de uma década, 34 delas utilizando apenas iluminação artificial e 16 destas aliando luz solar e artificial. Em comum entre todas está o controle das condições climáticas e a possibilidade de produzir alimentos durante todo o ano. O modelo que já é sucesso no Japão tem tudo para dar certo por aqui também. Já imaginou viver ou trabalhar em um edifício que planta sua própria comida? O futuro é promissor. E o melhor de tudo: sem veneno.

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Fotos 1-4: © GE; Fotos 5-7: Clarissa Neher; Foto 8: Marcelo Magnani – ÉPOCA-SP; Foto 9: Ecoeficientes; Fotos 10, 11: © Angelo Eliades; Fotos 12-14: Estadão; Fotos 15-17: Carlos Yamate.

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