Matéria Especial Hypeness

Pílula anticoncepcional: os grandes perigos escondidos nesses pequenos comprimidos

por: Brunella Nunes

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escoberta por acaso em 1960, a primeira pílula anticoncepcional surgiu no Brasil através do remédio Evonid R. O achado, posteriormente estudado por médicos e cientistas, deu então às mulheres uma maior liberdade sexual, fazendo-as se sentir donas de seu próprio corpo e evitando a gravidez indesejada. E nisso surge um ciclo bem complicado, porque se a menina ou mulher não se adapta a pílula, além da culpa sempre cair sobre ela, pode ser que surja o aborto, outro assunto polêmico, já que não há o desejo ou preparo para a maternidade. Independente do seu julgamento, nós precisamos falar sobre este tópico tão fundamental na vida da mulher.

Ok, pode ser que um filho seja evitado, mas os poréns da pílula contraceptiva são dos mais desagradáveis: aumento de peso, queda da libido, aumento de pelos, dores mamárias. Estas são apenas algumas das reações mais comuns aos hormônios sintéticos. Quando piores, chegam a proliferar cistos e nódulos pelo corpo, e existem relatos de até mesmo a causar AVC e trombose, coisa que muitos médicos sequer alertam o paciente. Assim sendo, só podemos concluir de que há alguma coisa muito errada neste método em troca de evitar uma gravidez.

Um caso comum aconteceu com uma amiga minha e me deixou preocupada. A veterinária Marcelle Bortoleto, de 26 anos, que não fuma e pouco bebe – antes que alguém alegue isso – teve que suspender a pílula às pressas pois estava com um nódulo no fígado. O diagnóstico? Sobrecarga de hormônios que vinham através do remédio, afinal, ele é tomado todos os dias, com pausas de uma semana para quem tem o período menstrual e sem pausas para quem não deseja ou não pode menstruar, como é o caso de mulheres diagnosticadas com Endometriose, doença que afeta a parede do útero e se agrava com o escoamento de sangue.

Eu mesma fui diagnosticada com a doença aos 17 anos e passei a tomar a pílula constantemente. Fiz isso durante pelo menos uns seis anos até começar a desconfiar de que algo estava errado. Meus exames nunca apontaram absolutamente nada, os próprios profissionais dos laboratórios achavam esquisito esse diagnóstico. Chutei o balde, fui em outro médico e me convenci de que a pílula me faz mal. Vivo numa relação conturbada com o medicamento, pois sabendo da sua necessidade e não querendo ser mãe, me preocupa muito estar sem ela. Ao mesmo tempo, ela, independente da marca e em doses baixíssimas de hormônio, me maltrata, me dá cólicas bizarras e altera o meu humor em níveis bipolares. Simplesmente não me sinto bem.

O que fazer então? Os médicos sempre alegaram que eu precisava dela e que não há nada de errado. Claro, como se nós não conhecessecemos nosso próprio corpo, somos aparentemente leigas em tudo. A irresponsabilidade médica também, por vezes, me desagrada. Parece que todos os sintomas são ignorados, ao menos comigo, afinal, meu útero não está sangrando ou não estou a caminho do hospital tendo um AVC, então pra que estudar o caso, não é? Óbvio que não são todos os médicos que agem desta forma, mas sinceramente ainda não encontrei confiança nos meus exatamente por este motivo, por insistirem que “está tudo bem” com a pílula.

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Ainda entre outros casos, a jovem Mariana Reis Luz (foto acima), de apenas 21 anos, foi vítima do medicamento, iniciado aos 15 anos de idade, que causou Tromboembolismo Venoso Cerebral, levando-a à morte em 2012 (a marca que ela usava não foi confirmada). A moça se queixava de fortes dores de cabeça.

Ainda no Brasil, a blogueira Kamaia Medrado também teve danos e felizmente nada de pior aconteceu além de um AVC aos 22 anos de idade, o que já é grave o suficiente. Também Kamaia passou pelo mesmo sintoma: dor de cabeça durante oito dias consecutivos. Não conseguindo ler e se sentindo mal, foi ao hospital, tomou quatro medicamentos e ainda assim não estava melhor. Insistiu para que fizessem exames e comprovaram uma hemorragia, causando um AVC. Daí sim vieram inúmeras perguntas, exames, 12 dias de internação, sendo três de UTI. Foi então identificada uma trombose nas pernas, que logo despertou a desconfiança de ser por conta do anticoncepcional.

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Após um ano de tratamento, foi comprovada a causa por um hematologista, e Kamaia não tinha pré disposição alguma ou histórico familiar para acidentes do tipo. “O AVC foi em um ‘nível leve’ e não ficou nenhuma sequela, mas por outro lado, hoje eu não posso mais tomar hormônio de jeito nenhum e estou enfrentando muitos problemas hormonais por conta disso, além de ter desenvolvido ovário policístico (que é tratado com anticoncepcional). Preciso tomar injeções antes de qualquer viagem de avião ou que dure mais do que 4 horas e se eu engravidar, o acompanhamento médico será muito mais intenso e cheio de medicações extras”, contou ao Hypeness.

Na internet encontramos muitos relatos, finalmente, de mulheres que se sentem mal e suspendem o uso do remédio. Não é difícil também conhecer alguém que tenha queixas ou desconfianças sobre seu uso. Após o incidente, Kamaia se juntou a outras mulheres e juntas formaram uma comunidade no Facebook com 2 mil depoimentos de vítimas do anticoncepcional, onde todos os dias chegam mensagens com dúvidas e apoio de outras mulheres e homens. Infelizmente a força da indústria farmacêutica é muito maior do que voz do povo, todavia conseguimos fazer com que pelo menos a ANVISA se posicionasse e divulgasse em seu site os riscos existentes.”

No caso de Pamela Destacio, ela contou que durante muitos anos tomou a pílula contínua Gestinol 28, que dura 28 dias e não possui pausas, cortando o ciclo menstrual. Com muitas dores no peito, foi ao hospital. “Quando cheguei, uma médica logo desconfiou e me mandou para a tomografia. Confirmou o meu pesadelo: estava com dois coágulos no pulmão esquerdo, fui para UTI e fiquei seis meses em tratamento fora do hospital”. Imaginem o pânico de um belo dia você descobrir que tem coágulos no seu pulmão e simplesmente ir parar na UTI! É surreal, ninguém que toma a pílula para não engravidar poderia imaginar que passaria por isso por conta dela.

Recentemente, a Miss Portugal, Ana Lopes, sofreu os efeitos da pílula Yasmin, considerada uma das melhores do gênero por não ter tantos efeitos colaterais. Ela também foi parar na UTI por conta de Tromboembolismo pulmonar. Eu mesma já tomei Yasmin, e não obtive o sucesso que gostaria de ter, de me sentir bem ou “menos pior”. ana lopes

Segundo um estudo realizado no ambulatório de trombofilia do Hospital de Transplantes do Estado de São Paulo, os contraceptivos associados ao tabagismo aumentam as chances das mulheres desenvolverem trombose. Na pesquisa, foram acompanhadas 400 mulheres com trombose venosa, entre 20 e 45 anos, sendo 180 delas fumantes e usuárias da pílula. As pacientes que não faziam uso de nenhuma destas substâncias corresponderam a cerca de 6%. Em 197 participantes que apresentavam o mesmo problema, constavam em seus históricos o uso do cigarro e da pílula em algum momento de suas vidas. Ou seja, se você fuma pode ser que tenha mais chances, mas este fator não é um divisor de águas, afinal, muitos casos relatados não envolvem o fumo e nem a genética.

Os riscos, atualmente, não ficam tão claros nas bulas dos medicamentos. Por exemplo, na bula do Diane 35, descrevem que “estudos epidemiológicos sugerem associação entre a utilização de contraceptivos orais combinados (COCs) e um aumento do risco de distúrbios tromboembólicos e trombóticos arteriais e venosos, como infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, trombose venosa profunda e embolia pulmonar. A ocorrência destes eventos é rara. Esta é a exata descrição que a farmacêutica nos fornece. Ou seja, não devo me preocupar com a minha saúde, afinal, é algo raro.

Em outro momento, escrevem que “outras condições clínicas que também têm sido associadas aos eventos adversos circulatórios são: diabetes melitus, síndrome do ovário policístico, lupus eritematoso sistêmico, síndrome hemolítico-urêmica, patologia intestinal inflamatória crônica (doença de Crohn ou colite ulcerativa) e anemia falciforme. O aumento da frequência ou da intensidade de enxaquecas durante o uso de COCs pode ser motivo para a suspensão imediata do mesmo, dada a possibilidade deste quadro representar o início de um evento vascular cerebral”. Em 2013, a Anvisa solicitou à Diane 35 que alertasse os riscos do produto.

Acontece que tais sintomas são apenas um passo para os sintomas mais “raros” e graves, como um AVC. Aliás, difícil dizer como um remédio que pode ter tantas causas adversas ainda circula livremente pelas farmácias e inclusive entre meninas muito jovens, sem as devidas informações. Se você for ler a bula inteira destes remédios, provavelmente vai achar que está próxima da morte, porque a lista de reações, advertências e contra-indicações é gigante. Ainda assim, muitas mulheres optam por esse tipo de prevenção, grande parte das vezes indicada pelo médico ginecologista.

Segundo uma entrevista no site do Dr. Drauzio Varella, um comitê da Inglaterra comprovou que a alta dosagem de estrogênio estava associada ao tromboembolismo. O médico entrevistado, o Dr. José Mendes Aldrighi, ainda alerta para as dores de cabeça, um dos sintomas primários de algumas complicações. “Se a jovem apresentar dor de cabeça intensa sem nenhuma outra causa aparente, suspende-se a pílula anticoncepcional e acompanha-se a evolução do quadro. A mesma conduta é adotada quando aparecem alterações visuais, como a diplopia (visão dupla), ou a perda da visão lateral, para afastar a hipótese de estarmos diante de um problema vascular causado pela pílula”. Ou seja, não são hipóteses, são fatos que demonstram os problemas dos contraceptivos orais.

O jornal britânico Daily Mail relatou recentemente que um novo estudo aponta a diminuição do cérebro feminino pelo uso da pílula anticoncepcional. Segundo a reportagem, pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA), afirmam após um estudo com 90 mulheres que o córtex orbitofrontal lateral e o córtex posterior cigulate podem encolher em resposta aos hormônios sintéticos encontrados na droga. De de acordo com o estudo publicado no jornal Human Brain Mapping, substâncias artificiais nos hormônios naturais bloqueiam a droga, o que provoca mudanças na forma e função cerebral.

Outro fator ruim está em volta dos preços. As pílulas são praticamente divididas em “qualidade” de acordo com a faixa de preço, sendo que as mais populares têm altas doses de estrogênio e progestogênio, aumentando os efeitos colaterais. Sabe aquela menininha que de repente virou mulherão? Pode ser culpa dos hormônios tomados por ela. Sendo assim, muitas meninas que não têm poder aquisitivo podem estar sofrendo mais do que o normal com os efeitos do remédio. A Josie, que já ajudou minha mãe nos serviços do lar e hoje é uma grande amiga da família, deixou de tomar a pílula por este motivo, sendo que eu mesma já briguei muito com ela para que tomasse o remédio, além de tomar juízo também. Resultado: gravidez. Mas à medida em que fui crescendo e observando a situação, entendi também que o fato do remédio dela ser mais barato do que o meu lhe causava reações piores.

Como que as empresas farmacêuticas conseguem manter seus lucros fornecendo remédios que nos curam de um lado e adoecem de outro? Porque eu não estou nem um pouco afim de ficar com cólicas diárias, a Marcelle não quer ter nódulos pelo corpo, a Kamaia jamais gostaria de ter um AVC, a Pâmela não ficou contente com os problemas que teve no pulmão e a Josie não quer engordar.

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Outros métodos

Existem algumas alternativas para a pílula anticoncepcional comum, como é o caso do Método de Ovulação Billings. A técnica, desenvolvida pelos médicos Dr. John e Dra. Evelyn Billings, consiste em evitar relações sexuais durante determinados períodos de cada ciclo menstrual. A partir do conhecimento do próprio corpo, o que inclui diversos exercícios de observação, a mulher controla sua fertilidade através de uma análise própria do muco cervical feminino. O método já foi reconhecido por pesquisadores renomados e testado pela Organização Mundial de Saúde, que comprovou seu sucesso.

Apesar de ter seus contras, a camisinha ainda é um dos meios mais eficazes de evitar uma gravidez, além de também proteger o corpo contra doenças sexualmente transmissíveis e outras complicações. Muitas pessoas se queixam de usá-las, mas é um “mal” necessário. Quando ela ou qualquer outro método “falha”, ou a pessoa que foi irresponsável mesmo (quem nunca?), recorrem à pílula do dia seguinte, que definitivamente não é solução pra ninguém. Seu uso contínuo pode nem fazer efeito e o mal estar é praticamente imediato.

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Algumas mulheres recorrem, em especial as casadas, ao DIU, dispositivo de plástico intra-uterino  que libera um hormônio chamado Levonorgestrel, que não age em outras partes do organismo e evita que espermatozóides fecundem o óvulo da mulher. Deve ser trocado a cada cinco anos e tem um problema: é caro e nem todas se adaptam ao endoceptivo.

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Há ainda o diafragma, cúpula flexível de silicone à frente do colo do útero; o anel vaginal e o anticoncepcional subcutâneo, que inibem a ovulação; o anticoncepcional vaginal, que é em formato de pílula e fica posicionado como um absorvente interno; uma pílula com o mesmo formato da pílula oral, para ser posicionado como se fosse um absorvente interno.

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Vale ressaltar que o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece oito opções de métodos contraceptivos: injetável mensal, injetável trimestral, minipílula, pílula combinada, diafragma, pílula anticoncepcional de emergência (ou pílula do dia seguinte), Dispositivo Intrauterino (DIU), além dos preservativos.

Pílula para homens?

Ainda em fase de testes, o contraceptivo para homens é estudado há mais de 30 anos e não é tão fácil chegar a um resultado ideal. Isso porque a testosterona, que estaria presente nas pílulas masculinas, tem pouco tempo no sangue antes de ser metabolizado. Além disso, há também o risco de doenças cardiovasculares, câncer de próstata, variações de humor, infertilidade e até impotência.

Em Pequim, o Instituto de Pesquisa para o Planejamento Familiar avalia uma versão injetável composta não só pelo hormônio, mas também por óleo de semente de chá (não foi divulgado qual chá). No caso, o hormônio sintético chega em pequenas doses no organismo e é absorvido aos poucos pela corrente sanguínea, enganando o cérebro, que acredita que o organismo já produziu doses suficientes do hormônio. Todo o processo acontece em prol de fazer com os espermatozóides, responsáveis pela procriação, não sejam produzidos.

Além disso, homens também podem recorrer à vasectomia, que não é lá muito interessante por ser radical demais. Apesar de reversível durante cerca de cinco anos, o procedimento não costuma atrair os mais jovens que ainda não sabem se querem ou não ter filhos. É como se pedissem para a mulher cortar as trompas, o que a impediria de engravidar pelo resto de sua vida, então muita calma nessa hora, caso seu parceiro não se sinta tão confortável com a ideia.

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Independente se a pílula te faz bem ou te faz mal, o fato é que diante de tantos casos e queixas é imprescindível que a comunicação, a indústria farmacêutica e a medicina melhorem em diversos aspectos. Não dá mais para ficar isento à situação ou ignorá-la, afinal, são vidas de mulheres jovens, com menos de 30 anos, que estão sendo prejudicadas quando na verdade as mesmas gostariam de ser beneficiadas pelo uso da pílula.

Como citamos em apenas alguns casos, a sobrecarga de hormônios tem causado problemas graves de saúde relacionados à trombose venosa, que acaba causando embolia pulmonar, AVC e, caso não investigada, pode levar à morte. Fica difícil meninas tão jovens pensarem em problemas como estes quanto têm sintomas como dores de cabeça ou dores no peito, especialmente pelo uso da pílula anticoncepcional, um comprimido vendido facilmente nas farmácias, onde qualquer uma tem acesso sem apresentar prescrição médica. É outro problema também o médico não avaliar em nenhum momento o histórico familiar e os costumes da paciente, ou fazer um acompanhamento mais sério e rigoroso quando indica alguma pílula para ela.

Vale frisar que muitos dos casos não envolvem pré-disposição genética, histórico familiar ou cigarro, fatores apontados como de risco relacionados ao uso do contraceptivo oral. Ou seja, diante de tantas histórias dramáticas como estas, não tem como continuar seguindo estas conclusões tão vagas e impessoais quando consultamos um médico ou compramos um remédio.

Além disso, sabemos também que outras tantas garotas não têm problemas com o uso da pílula, vivem bem com o medicamento e até apresentam melhoras em alguns pontos. É algo extremamente pessoal até porque, em termos de saúde, somos indivíduos, de fato, completamente diferentes. O organismo de cada um funciona de uma maneira e pelas diversas fases da vida isso vai mudando.

O intuito aqui é apenas mostrar que tem algo errado, muito errado, acontecendo por causa disso e que as coisas precisam mudar, os alertas precisam ser maiores, os médicos mais atenciosos, as farmacêuticas mais preocupadas com a qualidade e procedência do que estão vendendo no balcão. Ou vamos esperar mais casos acontecerem mundo afora? Não temos como estar de acordo com algo que tem, comprovadamente, mexido com a saúde de milhares de meninas e mulheres no Brasil há mais de 50 anos.

Fotos: 1. wikipedia; 2. MSN 3. meuanticoncepcional; 4. e 5. reprodução; 6. cruzeirodosul; 7, 8, 9, 10. reprodução; 11. Da fecundação ao Nascimento/Youtube

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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