Matéria Especial Hypeness

Vira-latas: porque eles são os cachorros do momento

por: Mari Dutra

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No dia 20 de março de 1966, a taça Jules Rimet foi roubada em Londres. Mais do que uma simples taça, ela havia sido criada para homenagear os ganhadores das Copas do Mundo, desde sua primeira edição. Por sorte, a investigação contou com uma ajuda muito especial: Pickles, um vira-lata, encontrou a taça enrolada em jornais durante um passeio com seu dono. Como recompensa, recebeu comida de graça para o resto da vida – e começou a mudar a imagem dos cachorrinhos que não tem raça definida.

Mais famosa do que a de Pickles é a história da cadelinha Laika, também vira-lata, o primeiro ser vivo a orbitar a terra, a bordo do Sputnik 2. Pode ter sido um grande passo para a humanidade, mas a história sugere que ela tenha morrido apenas algumas horas após a decolagem – tempo suficiente para que a cadelinha russa que foi resgatada das ruas aos dois anos de idade entrasse para a história.

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Talvez estas duas histórias protagonizadas por vira-latas não sejam apenas uma coincidência. Há indícios de que cães sem raça definida (SRD), como Pickles ou Laika, não entraram para a história por acaso: uma pesquisa realizada pelo Departamento de Ciências Animais da Universidade de Aberdeen chegou à conclusão de que estes animais tendem a ser mais inteligentes do que os “puro-sangue”. Se não bastasse, eles costumam também ser mais saudáveis do que os cachorros de raça. 

Essas características se devem, em parte, ao fato de que os vira-latas estão sujeitos à seleção natural e só os mais espertos acabam se dando bem nessa jogada, enquanto cães de raça costumam ser o resultado de anos e anos de cruzas pensadas para preservar algumas características específicas. Para conservar a aparência ideal, os criadores costumam realizar acasalamentos entre animais consanguíneos e isso faz com que eles tenham uma maior predisposição a desenvolver doenças genéticas. Com isso, é tão natural que um Yorkshire seja pequeno e dócil quanto que ele desenvolva problemas de dentição dupla ou de luxação da patela. Ou seja, pesquisas indicam que quanto mais puro é o seu bichinho, mais problemas à vista.

E os animais são realmente as maiores vítimas destas cruzas. O blog Science and Dogs reuniu algumas imagens retiradas do livro Dogs of All Nations, de 1915, e comparou as fotos com as dos animais da mesma raça que conhecemos hoje. O resultado é assustador e mostra como um século de seleção genética artificial afetou a aparência e a saúde de nossos cãezinhos.

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Da mesma maneira que o formato da cabeça do Bull Terrier se modificou, problemas como a hiperdontia se tornaram comuns na raça. 

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Com o alongamento de seu corpo, o Dachshund tem hoje um alto risco de desenvolver a doença do disco intervertebral, que pode resultar em paralisia, sendo também propenso a diversas patologias relacionadas ao nanismo.

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O Bulldog Inglês é praticamente incapaz de acasalar ou parir sem intervenção médica e uma pesquisa realizada em 2004 pelo Kennel Club descobriu que cães da raça vivem em média apenas 6,25 anos.  

Isso não quer dizer que você não possa encontrar um animal de raça cheio de saúde, mas apenas que eles estão mais predispostos a ter doenças genéticas do que os vira-latas. E, com um olhar mais a fundo, nós vemos que não são apenas as doenças genéticas o problema: os filhotes  que você vê expostos na pet shop podem ter passado maus bocados antes de chegar até a sua casa.

O problema está justamente na origem: a partir do momento em que os cachorros são vendidos em uma loja, eles também passam a ser vistos como mercadoria.

Como resultado, muitos criadores irresponsáveis exploram fêmeas para reprodução, geralmente em condições precárias. Em 2013, um resgate feito em um canil na cidade de Piedade, no interior de São Paulo, expôs ainda mais o problema. 10 cadelas fêmeas foram resgatadas famintas, doentes e à beira da morte no local. Durante toda a vida, elas haviam sido exploradas como reprodutoras, com um único objetivo: aumentar os lucros dos donos do canil.

O caso de Piedade não é isolado: uma rápida busca pelo termo fábrica de filhotes no Google é capaz de denunciar problemas semelhantes ocorridos em diversas regiões do Brasil e do mundo. Esses locais não oferecem condições adequadas aos animais e exploram fêmeas, que são obrigadas a procriar em todos os cios – e, quando já não podem mais ter bebês, são expostas a situações de sofrimento, sendo deixadas sem água ou comida por dias, à espera da morte. Graças à falta de condições, os filhotes provenientes das fábricas de animais costumam estar predispostos a uma série de doenças, sejam elas genéticas, como a displasia do quadril, que pode ser ocasionada por uma cruza descuidada entre dois animais que possuam o problema, ou adquiridas, como a parvovirose, doença altamente contagiosa que pode causar a morte em até 80% dos casos.

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Foi o que aconteceu com a gaúcha Laura, que comprou um filhote da raça Pinscher para fazer companhia ao seu cachorro adulto, de seis anos. Em menos de uma semana o novo cão faleceu vítima da parvovirose, colocando em risco a vida do outro mascote da família. Espaços como o que vendeu o filhote doente a Laura existem por toda parte e costumam ser locais em que os animais sofrem maus-tratos frequentes e são expostos a péssimas condições de alimentação e higiene.

O vídeo abaixo, que já mostramos aqui no Hypeness, criado pela ONG australiana Oscar’s Law alerta para o problema:

O risco de alimentar essa indústria aumenta muito se você comprar um filhote em pet shops ou feiras. E esse risco não está exatamente no fato de que você poderá receber um “cãozinho com defeito”, mas sim de que você estará alimentando um sistema que oferece sofrimento a milhares de outros animais e vê estes cães como nada mais do que uma fonte de renda. O problema de ver os filhotes como produto é justamente esse: para aumentar os lucros, vale tudo, até mesmo o roubo de animais.

Como fugir? A adoção é a saída. E os vira-latas estão aí para isso! A Organização Mundial de Saúde estima que existam cerca de 20 milhões de cães abandonados no Brasil, apenas esperando para serem adotados.

Quem não pode levar (mais) um destes bichanos para casa, ajuda como consegue. Lembra que já falamos aqui sobre alguns fotógrafos que estão se engajando na causa para mostrar a verdadeira beleza dos vira-latas e ajudá-los a conseguir um lar cheio de amor? É o caso do projeto Cativa, que retrata os animais de forma divertida ou desta série que mostra a beleza que há por trás dos cachorros pretos.

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Já dá para perceber que não é por acaso que os vira-latas conquistam corações e ganharam até mesmo destaque nas redes sociais. Eles já são tendência por aqui. É o caso da simpática Estopinha, que já angariou mais de 2 milhões de fãs em sua página no Facebook. Toda essa gente acompanha quase que diariamente suas travessuras, narradas sempre em primeira pessoa e muitas vezes na companhia de seu irmão canino – e também vira-lata adotado – Barthô.

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Se antes era preciso ter raça e, de preferência, pedigree para que um cachorro chamasse a atenção, hoje em dia os donos estão em busca de personalidade, o que os vira-latas têm de sobra. Ao contrário dos cães de raça, eles têm uma aparência única, tendem a não ficar doentes com frequência e costumam se adaptar muito bem aos mais diversos espaços.

Porém, antes de levar um novo amigo para casa, quem vive em apartamento ou em uma casa sem pátio, deve ficar atento ao tamanho do animal. Será que ele vai se adaptar bem ao espaço que você oferece? Na dúvida, vale a pena optar pela adoção de animais adultos, que se adaptam rapidamente ao ambiente e às pessoas e não correm o risco de crescer além do esperado. Pode ter certeza que um cão adulto será capaz de oferecer tanto amor quanto um filhotinho.

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Quem pretende optar pela adoção mas não sabe por onde começar ou onde encontrar um vira-latas para chamar de seu, pode conferir esta lista de locais que oferecem um amigo de quatro patas para adoção feita pelo site Adote Não Compre. E, se você está pensando em aderir à ideia, mas ainda não sabe se vai se adaptar bem à rotina de “pai/mãe de cachorro”, pode começar oferecendo sua casa como um lar temporário para animais que aguardam adoção – o que, de quebra, também é uma ótima ajuda para os bichinhos que estão na rua. Para se ter uma ideia do desafio enfrentado por ONGs de apoio aos animais, a Associação Sociedade União Internacional Protetora dos Animais recebe cerca de 15 registros de adoção por mês, mas os registros de abandono chegam a 50 por dia.

Algumas iniciativas já tentam dar uma forcinha para aqueles que pretendem adotar. É o caso da cidade de Araquari, que oferece aos moradores que resgatarem um bichano das ruas entre 25% e 50% de desconto no IPTU – e a prefeitura promete fiscalizar os novos donos para impedir que os animais sejam negligenciados.

Mas, com ou sem desconto, quem adota um vira-latas sabe que não há recompensa maior do que ser recebido com gratidão pelo seu melhor amigo ao chegar em casa. Então fica a questão: para que pagar caro em padrões de raça, se você pode ter tantos cães únicos de graça?

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ps: O Hypeness apoia totalmente a adoção de animais. Nós recentemente adotamos uma cachorrinha que tinha sido abandonada nas ruas, e ela agora virou a estrela do QG. Manchinha trouxe muitas alegrias para nossas vidas! E você, também adotou algum amigo de quatro patas e tem certeza que foi a melhor decisão que poderia ter tomado? Poste uma foto dele(a) nas redes sociais com a hashtag: #MeuAmigoViraLataNoHypeness e sua foto pode vir parar aqui no site!

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Foto 1: Rolls Press/Popperfoto/Getty Images; Foto 2: OFF/AFP/Getty Images; Fotos 3-5: Sploid; Fotos 6-8: Reprodução Youtube; Fotos 9, 10: Projeto Cativa; Foto 11: © Guinnevere Shuster; Foto 12, 13: Estopinha; Foto 14: Chicken Smoothie; Foto 15: Apelo Canino; Foto 16: Fotos de Cachorro.

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Mari Dutra

Depois de viver na Argentina, na Irlanda e na Romênia, percebeu que poderia carimbar o passaporte mais vezes caso trabalhasse remotamente. Hoje escreve para o Hypeness e mantém um blog de viagens, o Quase Nômade, em que conta mais de suas experiências pelo mundo.

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