Economia Colaborativa: ela quer te ajudar a economizar, faturar e restaurar sua fé na humanidade

O carro fica cerca de 22 horas por dia parado na garagem e é utilizado basicamente para ir e vir do trabalho. O apartamento tem um quarto vazio, usado apenas para guardar objetos que não fazem parte do dia a dia: uma furadeira, ferramentas, violão, prancha de surfe, patins, vestidos de festa e equipamentos de fotografia. Se você não se encaixa nesse cenário, com certeza conhece um monte de gente que vive assim. Mas aí vai a pergunta: faz sentido deixar tudo isso juntando pó?

E se alguém dissesse que você poderia ganhar uma boa grana alugando tudo o que é seu e está ocioso, ajudar vizinhos, conhecer pessoas e ter boas histórias para contar? A esmola não é demais e o santo não precisa desconfiar: o nome disso é economia colaborativa (também conhecida como economia compartilhada), uma forma de usar a tecnologia para fazer negócios entre pessoas, economizar, promover a sustentabilidade e renovar a sua fé na humanidade – afinal, diferente do que as notícias na TV e os comentários em portais nos mostram, a maioria das pessoas são boas, honestas e não querem roubar sua carteira ou o seu rim.

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Imagem © Tony Magro/HireRight

Na economia colaborativa, você pode alugar uma bike para passear, conseguir um vestido de uma grife chiquérrima para ir a um casamento, emprestar uma batedeira para fazer o bolo do seu aniversário e até arranjar alguém que fique com o seu cachorro enquanto você viaja. Nessa nova proposta, o acesso é mais importante que a posse (ora, já não é assim com os filmes no Netflix?) e todo mundo pode ser fornecedor e consumidor ao mesmo tempo, garantindo uma autonomia financeira maior e descentralizando o fluxo entre clientes e empresas – há quem diga que a economia colaborativa promove a “oficialização do bico”.

Mas não é só a possibilidade de fazer uma graninha extra que chama a atenção nesse modelo de economia. No compartilhamento, o que faz a diferença é a experiência. E sabe o que a ciência diz sobre isso? Segundo um estudo sobre o qual já falamos aqui no Hypeness, a compra de um objeto pode até nos deixar contentes por algum tempo, mas é das experiências que vivenciamos que vem a verdadeira felicidade. E aí temos um convite para repensar a cultura da posse e a percepção de objetos como status social. Afinal, como questiona Rachel Botsman, especialista em consumo colaborativo, você precisa de uma furadeira ou do furo?

the-sharing-economy2 Imagem © Derek Bacon/ShutterstockTradução e adaptação: Hypeness

Há 5 anos, a redatora curitibana Bruna de Freitas Castro, 27, começou a hospedar pessoas em seu apartamento por meio do serviço CouchSurfing. Sem receber nem um centavo por isso, ela acolhia em seu sofá viajantes de todas as partes do mundo pelo simples prazer de conhecer gente, trocar ideias, ouvir histórias e ter experiências que, de outra forma, jamais teria. Hoje, ela abriu seu apartamento para que duas pessoas usem o espaço como local de trabalho enquanto ela está no escritório em que trabalha, permite que uma cozinheira transforme o apartamento em uma espécie de restaurante e ofereça jantares, além de continuar recebendo gente de toda a parte. Esse tipo de economia se tornou um estilo de vida para mim, trouxe mais flexibilidade, criatividade, desapego e muito mais amizades”, afirmou em entrevista ao Hypeness.

Para ela, serviços de compartilhamento permitem consumir de forma mais inteligente e humana, gerando conexões e benefícios que a vida “na bolha” não permitiria. “Imagina, neste momento estou hospedando chilenos que tocam instrumentos ancestrais. Terça-feira era meu aniversário e, na segunda, eles estavam esperando chegar meia-noite para abrir uma champagne comigo, me deram presentes muito sensíveis e ainda fizeram uma das minhas tortas favoritas. É demais!”, conta.

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bruna-castro2 Fotos © Guilherme Meneghelli

Segundo uma pesquisa realizada pela consultoria Nielsen em 2013, 70% das pessoas na América Latina estariam dispostas a participar de serviços de compartilhamento, contra 52% na América do Norte. O Airbnb, um dos serviços que Bruna usa para oferecer hospedagem em seu apartamento, e o Uber, uma plataforma de tecnologia que conecta motoristas particulares a passageiros – ambas norte-americanas – a servir de meio campo para as negociações entre pessoas. O sucesso é inquestionável: se em 2010 o Airbnb contava com 50 mil quartos ou apartamentos disponíveis, em 2014 já eram mais de 550 mil. No Uber, o fundo de investimento da empresa aumentou monstruosos 6.000% em 5 anos.

Apesar das polêmicas envolvendo o Uber (a justiça chegou a proibir o app no Brasil mas a liminar foi derrubada e eles conseguiram novamente o direito de operar aqui no Brasil), o aplicativo já é um grande sucesso por aqui. “Desde a primeira vez em que usei o Uber, nunca mais peguei taxis. Há algum tempo vinha sentindo uma qualidade baixa no serviço dos taxistas. Várias vezes já peguei taxis com carros sujos, sem GPS, que não aceitam cartão – dentre outros – e o Uber nesse quesito é muito superior. Os motoristas são mais preocupados com os clientes, o conforto é maior já que os carros são sempre novos, ar-condicionado ligado é mandatório, água disponível e já via até wifi para o passageiro poder trabalhar no carro.”, afirma Rafael Rosa, empresário e cliente fiel do Uber, em entrevista para o Hypeness. “É quase como ter um motorista particular sob demanda.”

Uber_Ex Foto © Uber

(Ao entrarmos em contato com o Uber para pegar mais informações sobre a matéria, eles mostraram mais uma vez que vieram determinados a ganhar os consumidores brasileiros. Eles ofereceram um bônus para os leitores do Hypeness que desejarem conhecer o serviço: uma viagem promocional de R$30 para novos usuários Uber que inserirem o código “HYPENESS30 ao solicitar o serviço pelo aplicativo).

É também nesse caminho de sucesso que aposta a startup Fleety, a primeira do Brasil a viabilizar o compartilhamento de veículos (carsharing) entre pessoas. “Quando a gente fala de compartilhar, aumentamos nosso leque de opções. Hoje, pelo Fleety, eu posso ter acesso a uma caminhonete pra fazer minha mudança, um carro de luxo pra um casamento ou um carro simples pra viajar. Eu posso ter qualquer carro, sem necessariamente ter um”, explicou ao Hypeness Guilherme Nagüeva, designer de usabilidade da startup.

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André Marim, um dos fundadores do Fleety.

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Imagens © Fleety

No Fleety, proprietários de veículos podem ter uma renda extra ao alugar carros que passam o dia no estacionamento do escritório, por exemplo. Ao conectar donos de veículos a motoristas que precisam de um carro, a startup se propõe a garantir a segurança da transação. Isso é feito com a verificação de documentos como a CNH do motorista e o RENAVAM do veículo, além do seguro automático de todos os carros durante o período da locação. “O receio existia até da nossa parte. Não é a toa que resolvemos isso oferecendo um seguro que cobre qualquer problema e zera os riscos para todos os envolvidos. Hoje não temos receio algum”, afirma.

Sabe aquela história do dono que passa a tarde inteira limpando e lustrando o veículo e cuida dele como um verdadeiro filho? Essa geração de apaixonados por carros pode estar com os dias contados. “A cultura da posse acabou faz tempo, o que temos é um resquício de uma geração passada”, comenta Nagüeva, ao defender que as pessoas hoje, cada vez mais, encaram o carro como um mero meio de transporte e estariam dispostas não só a compartilhá-lo, como também a utilizar transportes alternativos, como , metrô e ônibus, em favor da mobilidade urbana.

De olho nas tendências colaborativas da Europa, a carioca Camila Carvalho, de 25 anos, sentia a necessidade de uma plataforma em que pudesse emprestar objetos de amigos e vizinhos. Imagine que você precise instalar uma prateleira e não tenha uma furadeira em casa. Por que comprar uma se você precisa só de um par de buracos? Assim nasceu o Tem Açúcar, uma plataforma de compartilhamento de objetos que, em 5 meses, já conta com mais de 46 mil pessoas cadastradas.

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Foto © Bárbara Lopes/Agência Globo

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Imagem © Tem Açúcar

Além de evitar o gasto financeiro da compra de um produto e aproximar amigos e vizinhos, Camila aponta os benefícios da sustentabilidade gerada pelo compartilhamento: “Eu enxergo a economia de compartilhamento como um processo inteligente, divertido, natural e necessário para um planeta que tem recursos finitos. Para a criação de novos bens, recursos naturais são extraídos de forma não renovável, gasta-se energia com transporte e produção,  lixo é gerado e isso impacta socialmente trabalhadores que ganham cada vez menos – ou muitas vezes nada, o trabalho escravo – para dar conta de uma demanda sempre crescente”, explica.

O conceito de economia colaborativa, contudo, vai muito além do empréstimo de objetos. É o caso da DogHero, uma empresa também brasileira que está transformando pessoas que gostam de cachorros em uma alternativa mais humanizada aos famosos hotéis de animais. “Um dos principais pontos em que os canis deixam a desejar é no atendimento às necessidades psicológicas do animal (carinho, afeto e brincadeiras) e isso ele recebe de sobra em nosso serviço. Nossos anfitriões são, de fato, apaixonados por cachorros”, explica Eduardo Baer, cofundador da empresa.

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Eduardo Baer e Fernando Gadotti, fundadores da DogHero, também são anfitriões. Imagens © DogHero

Lançado em 2014, o serviço já conta com mais de 700 “anfitriões” habilitados. Segundo Baer, a triagem consiste na checagem de dados e em uma entrevista, sendo que apenas 15% das pessoas que se candidatam são aprovadas para prestar o serviço. Além dessa verificação feita pela própria empresa, os animais têm direito a suporte e garantia veterinária durante toda a hospedagem. “Mesmo assim,  às vezes, a reação inicial de alguns clientes é de estranhamento e desconfiança. Mas, ao longo do tempo, temos visto que com as avaliações no site e a recomendação dos amigos, as pessoas vão se acostumando com a ideia e acabam preferindo essa opção”, afirma.

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A Jaque e o Eme, criadores do Hypeness, também usam o DogHero quando vão viajar. A Manchinha, mascote do time, sempre fica em boas mãos. Imagem © DogHero

Quando se fala em economia do compartilhamento, a primeira reação da maioria das pessoas é uma desconfiança imensa. Ora, se empresas sacaneiam seus clientes o tempo todo, o que uma pessoa física não pode fazer? Principalmente no Brasil, o receio é uma das principais barreiras para o crescimento desse modelo. Contudo, dar uma chance ao compartilhamento pode ser uma oportunidade para comprovar que a maioria das pessoas são honestas.

Quando questionada sobre suas experiências com a economia colaborativa, a Bruna, que está nessa onda há 5 anos, respondeu: “Sempre me perguntam por primeiro ‘Já aconteceu algo ruim?’ Nunca alguém chegou e perguntou ‘Qual foi a melhor coisa que te aconteceu?’ E te garanto que tenho 100 histórias legais para 1 mais ou menos.” Já Camila, do Tem Açúcar, nos dá um “tapa na cara” bem apropriado: “Uma coisa que acho engraçado: quando se fala em compartilhar bens ou em economia de compartilhamento, a primeira coisa que se pergunta é sobre a confiança. Mas quando alguém fala que vai encontrar com um estranho com quem falou no Tinder, por exemplo, ninguém parece se importar tanto. Isso nos faz pensar sobre o tipo de coisas a que damos valor.

Como mediadoras das negociações colaborativas, empresas como o Fleety, o Tem Açúcar, o DogHero, o Uber, o Airbnb, entre várias outras, desenvolvem seus próprios mecanismos de confiabilidade, seja na forma da verificação de um documento ou de uma entrevista. Mas é a reputação dos usuários o grande truque para garantir o sucesso e mostrar credibilidade dentro de serviços como estes.

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Toda vez que você empresta um objeto no Tem Açúcar, recebe hóspedes na sua casa pelo Airbnb, aluga um carro no Fleety, ou recebe um cãozinho no DogHero, você será avaliado. A pessoa com quem você fez negócio deixará um depoimento falando sobre a experiência e, se houve algum problema, ele será marcado em sua “ficha”. Como esses serviços têm seus dados pessoais e muitas vezes estão conectados às suas redes sociais, aplicar golpes fica muito mais difícil. Afinal, se lá está escrito que você devolveu um carro três horas depois do combinado, queimou o banco com cigarro e foi um babaca, as chances de alguém deixar que você alugue outro carro diminuem drasticamente.

A reputação é a medida de quanto uma comunidade confia em você”, afirma Rachel Botsman em uma palestra que deu no TED. Segundo ela, essa avaliação das experiências em serviços de compartilhamento é tão fundamental para a economia colaborativa que tem o potencial de se tornar uma espécie de nova moeda. “O capital de reputação poderia criar uma enorme ruptura positiva para quem tem poder, confiança e influência(…)De fato, a reputação é uma moeda que eu acredito que se tornará mais poderosa do que o nosso histórico de crédito no século XXI. A reputação será a moeda que diz que você pode confiar em mim”, explica. Assista à palestra completa abaixo:

Se para os usuários a principal barreira é o receio, as startups de compartilhamento ainda têm alguns gigantes para domar. A regulamentação tem sido uma luta constante de empresas como o Uber, que já foi alvo de protestos por parte de taxistas em todo o mundo. Outro caso semelhante são startups como o norte-americano Zopa, que querem levar o empréstimo de dinheiro para o nível colaborativo, outra prática que esbarra na lei de vários países, incluindo o Brasil.

Embora algumas empresas façam duras críticas à economia de compartilhamento, há quem já entre na dança. A Mercedes Benz, por exemplo, respondeu aos serviços de carsharing nos EUA com o Cars2Go, que permite alugar SmartCars por 38 centavos de dólar o minuto, com combustível, seguro e estacionamento inclusos. É bastante certo que o modelo de economia compartilhada vai mudar as nossas vidas e alguns setores do mercado, mas até que ponto esse “neoliberalismo em esteroides”, termo usado pelo pesquisador bielorusso Evgeny Morozov, será positivo? Vamos acompanhar.

Illustrative image of people standing in arrow shape representing development and teamwork

Imagem © Huffington Post

Redes sociais, crowdfunding, Airbnb e o celular conectado o tempo todo: a economia colaborativa não é o futuro, ela é o agora. Tudo isso já está acontecendo e eis aí uma grande oportunidade para dar chance ao novo, economizar uns trocados e recuperar a conexão com estranhos, o “bom dia” ao vizinho e todo aquele senso de humanidade que, nas últimas décadas, acabou se perdendo. Para o fundador do Airbnb, Brian Chesky, “Tudo vai ser pequeno; você não vai ter grandes redes de restaurantes. Nós estamos começando a ver que existem mercados locais, pequenos restaurantes e food trucks. Mas em breve, restaurantes estarão na sala de jantar das pessoas.” E se isso lhe parece completamente maluco, vale lembrar que já acontece na casa da Bruna. “As pessoas estão cansadas de impessoalidade”, diz ela.

No projeto Nômades Digitais, Eme Viegas e Jaque Barbosa – também criadores do Hypeness – viajam o mundo se hospedando em casas pelo Airbnb. 

Serviços de compartilhamento no Brasil

O que você pensa sobre a economia colaborativa? Se você estiver disposto a tentar, separamos uma lista com alguns dos principais serviços de compartilhamento disponíveis no Brasil. Dá uma olhada:

Hospedagem

  • CouchSurfing – sofás para viajantes no mundo inteiro;
  • Airbnb – alugue um quarto ou apartamento em mais de 30 mil cidades no mundo;
  • Warm Shower – comunidade para hospedar cicloviajantes.

Transporte

spinlister Imagem © Spinlister

  • Spinlister – alugue bicicletas e pranchas de surfe de outras pessoas.
  • Uber – qualquer motorista pode cobrar por caronas. (Eles ofereceram um bônus para os leitores do Hypeness que desejarem conhecer o serviço: uma viagem promocional de R$40 para novos usuários Uber que inserirem o código “HYPENESS ao solicitar o serviço pelo aplicativo).
  • Fleety – a primeira rede de carsharing do Brasil;
  • BoraJunto – app para dividir táxis e rachar a corrida;

Objetos e serviços

  • Bliive – troque seu tempo, ensine e aprenda;
  • Tem Açúcar – compartilhe objetos com vizinhos e amigos;
  • DogHero – transformando em pessoas apaixonadas por animais em uma alternativa aos hotéis de pets;
  • Cabe na Mala – encontre espaço na mala alheia para trazer um produto do exterior.

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