Desafio Hypeness

O que aconteceu quando passei uma semana encarando um medo por dia

por: Daniel Boa Nova

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Atire a primeira pedra quem não se apavora com nada. Ainda está para nascer um homo sapiens assim, destemido full time. Ser humano é ser imperfeito. É ter fraquezas emocionais, limitações físicas, lacunas de conhecimento e outras vulnerabilidades. Que, mesmo a gente não querendo assumir, resultam no mais puro e simples medo.

Quem não dá o braço a torcer e afirma não possuir temor algum pode acabar quebrando o braço. Como esse gajo aqui.  Porque todo super-homem tem uma criptonita. É um exercício de auto-conhecimento bastante revelador tentar entender qual é a sua. Faça o teste e você descobrirá que não tem apenas um, mas vários medos.

Esse foi meu ponto de partida no Desafio Hypeness da vez. Inspirado no projeto 100 Days Without Fear, realizado pela venezuelana Michelle Porter, o objetivo era passar uma semana lidando com um medo por dia. E o pontapé inicial foi dado olhando no espelho para me perguntar: você tem medo de quê?

Existem medos universais, relacionados à sua própria proteção ou a de alguém que você ama. Como o medo de sofrer um grave acidente, de contrair uma doença incurável ou de ser vítima de alguma brutalidade. Esses todos eu tenho, imagino que você também e não, não era a proposta aqui se colocar em perigo. Meus editores pediram para enfrentar medos do dia a dia, e não para brincar de morrer. Empinar a moto no meio da avenida sem capacete não era uma opção.

Falemos então dos medos mais subjetivos. Que podem ser físicos, psicológicos, podem ter origem em algum trauma, podem não ter explicação lógica. Alguns são bem pontuais, como medo de rato ou de altura. Outros são um pouco mais complexos. Medo de pedir a pessoa amada em casamento, medo de encarar uma terapia, medo de se demitir de um emprego insatisfatório para buscar algo melhor. Todos os medos citados nesse parágrafo eu tenho. Ou melhor: tinha. Porque os três últimos tratei de enfrentar e superar nos anos recentes. Já o do rato e o de altura, bem, deixa pra lá.

Fiz uma listinha com coisas que me apavoram e cheguei em pelo menos uns 15 itens. Aqui estão meus companheiros aterrorizantes dos últimos dias:

1. Descer para o litoral em véspera de feriado na hora do rush

Não é nem medo. É fobia mesmo. Certa vez levei 7 horas para uma viagem que deveria durar no máximo duas. Teve outra em que íamos a um casamento na Ilhabela e voltamos no meio do caminho porque, dado o congestionamento, ao chegarmos lá os noivos já estariam na lua-de-mel. Depois dessas, passei a ter calafrios só de ouvir falar em descer a serra num feriadão.

Mas em 2015 eu ainda não tinha entrado no mar. O convite para a casa na praia cheia de amigos foi uma benção. Só que quando fechamos as malas, já passavam das 18h00 na véspera do Corpus Christi. Era enfrentar o medo ou se render a ele para pegar a estrada de madrugada. Fomos em frente.

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Ligamos o rádio numa dessas estações que cobrem o trânsito e o cenário era catastrófico. Diziam os locutores que o trânsito na capital estava próximo de bater recordes históricos. E tivemos provas concretas disso em nosso trajeto. Comecei a ficar inquieto e querendo desistir.

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Mais de uma hora até conseguir sair de São Paulo. Depois disso e, para nossa surpresa, estrada livre o tempo todo. Um alívio.

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Não digo que a guerra contra esse medo terminou, mas pelo menos uma batalha foi vencida.

2. Assistir “O Exorcista”

Teve uma fase na adolescência em que praticamente zerei as prateleiras de terror da locadora do bairro. Era como um rito de passagem, de provar a mim mesmo que não tinha mais medo deles como na infância. Lá se foram horas do pesadelo, sextas-feiras 13 e massacres da serra elétrica.

Porém, O Exorcista permaneceu intacto. Nunca tinha assistido por motivos de: me borrar de medo. Até agora.

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Não tinha ninguém em casa além de mim e os cachorros. Já era noite e fiz questão de deixar algumas luzes acesas. Desculpa aí, no escuro não ia dar.

Mal o filme começou, alguém soltou um rojão na minha rua. Legal. Pulei do sofá antes mesmo do demônio entrar em cena. E isso viria a acontecer logo em seguida.

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Enfrentar esse medo teve um lado positivo. Porque achei o filme muito bom. Mexe com temas que tocam a todos, como a ciência, o amor, a lei, a fé e o sobrenatural. É muitíssimo bem dirigido, a maquiagem da garota impressiona e quem já assistiu sabe que o final passa longe de ser algo previsível como um terror hollywoodiano qualquer. E olha que O Exorcista está entre as maiores bilheterias da história do cinema.

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Dito isso e apesar das fotos engraçadinhas, o medo esteve lado a lado comigo durante as duas horas da sessão e mais algumas posteriores. Quando o filme acabou, fui ao banheiro me escorando nas paredes como se fosse o Capitão Nascimento em missão. Tudo para evitar ser pego de surpresa pelo capiroto escondido em algum ponto cego.

Se você nunca assistiu porque tem medo, não sou eu quem vai lhe dizer para assistir. Sim, dá medo. Medo pra caramba. Medo pra diabo. Céus.

3. Cozinhar com panela de pressão

Quando era pequeno, a panela de pressão vivia acesa lá em casa, seja para o feijão, seja para a sopa. E nunca tive problemas com ela. Até o dia em que explodiu uma do mesmo tipo em outro apartamento do prédio. Ninguém se feriu, mas a cozinha do 54 ficou arruinada.

Com certeza, aí está a gênese do meu medo em relação ao artefato. Alguém mais habituado ao fogão pode dizer que é besteira. E é, mas vou fazer o quê? Cada um com seus fantasmas. Quando a válvula da dita cuja começa a soprar vapor, não gosto nem de passar perto.

Pois chegou o dia de encarar esse trauma. Prestes a sair de casa, minha mulher me deixou com algumas instruções técnicas sobre como a coisa funciona. Logo em seguida, liguei a um amigo que gosta de cozinhar solicitando uma receita. Como esse pedido era meio inusitado na nossa relação de broder, tive que revelar o motivo da inciativa. E ouvi dele um sábio ensinamento: “Lembre-se que, depois que o homem pisou na Lua, a tecnologia da panela de pressão é brinquedo de criança”.

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O desfecho desse caso não é dos mais emocionantes. Foi tudo muito tranquilo. A panela se comportou bem, não mordeu e nem causou escândalo. Tirei até selfie com ela e, no final, almocei um prato de pulled pork saborosíssimo. Qualquer dia passo a receita para você testar em casa, sem medo de ser feliz.

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4. Comer ovo azul de boteco

Preciso começar dizendo que esse medo ainda não foi superado. Rodei todo o Centro da capital paulista à procura do famigerado ovo azul para comer e não o encontrei. Foram mais de 10 quilômetros caminhando pelos largos da Santa Cecília e do Arouche, Praça da República, ruas 7 de Abril, 24 de Maio, 25 de Março, Santa Ifigênia e Florêncio de Abreu.

Até vi de longe o ovo amarelo, mas ele eu não temo. O que me leva a crer que o petisco está em extinção. Ovo azul virou mosca branca na região central de São Paulo. E também uma questão de honra para mim. Se você avistá-lo nas redondezas, deixe um comentário logo abaixo dizendo onde, que irei atrás e farei aqui um update.

Sendo assim, tive que partir para um plano B: churrasco grego.

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O medo era menos do sabor e muito mais de como se daria a relação entre a iguaria e meu sistema digestivo. Para não deixar dúvidas, mandei logo dois em dois pontos diferentes do Centro. O primeiro se auto-intitulava o melhor da Praça da Sé.

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O gosto está longe de ser dos piores. O que pega é não saber a procedência, como se deu o manejo e também da onde tiraram a água utilizada no refresco químico.

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Já o segundo foi no Largo do Paissandu. Falei que o medo não era do sabor, mas mastigar essa gordurinha sobressalente aí me deu um frio na espinha.

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Não posso dizer que passei mal. Só que matei um litrão de água ao chegar em casa. Fora o sono que bateu pesado, provável reflexo da oleosidade ingerida. Não recomendo. Tenha medo. A não ser que seja uma questão de necessidade financeira. Porque o combo sanduíche+refresco varia entre R$ 2,00 e R$ 3,00.

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5. Tomar choque

Esse entra na categoria de medos mais triviais e unânimes. Não conheço ninguém que goste de levar choque. Se fosse da hora, a gente reuniria os amigos em casa para tomar cerveja e umas descarguinhas elétricas.

Tentei de duas maneiras, sendo que a segunda não deu muito certo. Mas, como é possível conferir no registro caseiro a seguir, se tivesse dado eu teria tomado:

Fica a dúvida para os eletricistas de plantão: tomada não dá mais choque? Porque chequei e estava funcionando. No mais, o Hypeness pede encarecidamente a você, leitor ou leitora, que não tente reproduzir isso em casa. Combinado?

6. Ir a um terreiro

Os cultos afro-brasileiros sempre foram mais distantes para mim. Nem por isso os considero menos dignos de respeito do que qualquer outra manifestação de fé. Cada um crê no que quiser e deve(ria) respeitar as crenças dos demais. Ler uma notícia como essa é revoltante. Seria medo a motivação para tamanha estupidez?

Talvez por não ter religião alguma, o sobrenatural e tudo aquilo que a ciência não explica me desconcertam. A ponto de eu ter um medo verdadeiro de espíritos, anjos, demônios e de suas manifestações em nosso plano. Medo que também se mistura com curiosidade. Aquela história de tapar os olhos com a mão deixando um espacinho entre os dedos para ver.

Tudo isso para dizer que eu não estava nada tranquilo quando me dirigi a um templo de quimbanda. Levava comigo o medo do que poderia testemunhar, escutar, sentir. Vai que um Exu desce em mim?

Não vou aqui citar nomes e endereços. Não sei nem se deveria colocar a foto a seguir, não pedi permissão para isso. Digo apenas que era uma casa como outra qualquer na zona sul de São Paulo, com pessoas absolutamente normais; trabalhadores e pais de família. Havia também crianças e todos com quem tive contato foram super acolhedores. Que fique registrado também que ninguém me pediu dinheiro.

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Ao invés de vinho e hóstia, aguardente e cachimbo. Ao invés de um coral, tambores e atabaques. Ao invés de um Cristo na cruz e uma Nossa Senhora, uma estátua do Belzebu e outra de Pombagira.

Com os cânticos e danças de roda conduzidos incessantemente, logo as entidades começaram a dar as caras. Quem os incorporava mudava na hora de expressão facial, corporal e de voz. Se saudavam, puxavam novos cânticos, dançavam, bebiam, fumavam. E nesse momento eu já não sentia mais medo. Apenas um respeito genuíno por algo que desconheço e não domino, mas que inegavelmente tem um grande poder. De forma semelhante à vez em que experimentei ayahuasca, não me senti ameaçado e nem vi o mal sendo feito a ninguém.

Após algumas horas, chegou meu momento de partir. Pedi licença a uma das entidades e fui embora. Sem medo. Depois de ficar frente a frente com Exu Caveira, atravessar a cidade de moto pela madrugada foi fichinha.

7. Escrever uma matéria ruim

Toda vez que vou entregar uma matéria para o Hypeness, tenho medo de que ela não fique à altura do conteúdo do site. É algo totalmente irracional e involuntário, que talvez seja causado pela ansiedade que me consome diariamente. Já até acordei no meio da noite por conta disso.

Esse medo se mantém mesmo quando recebo feedback positivo dos editores. Vai entender. Depois que a matéria é publicada, sempre volto para relê-la algumas vezes, procurando pelo em ovo. Fica aquela inquietação sobre ter faltado alguma informação importante ou sobrado alguma vírgula desnecessária.

Enfim, apenas para dizer que, se você está lendo esse texto, é porque de alguma maneira tive que lidar com esse medo. E ainda estou lidando.

Por isso, se não for pedir muito, gostaria de contar com sua ajuda. Deixe aqui um comentário dizendo o que achou ou faça você mesmo(a) o desafio usando as hashtags #desafiohypeness12 e #ummedopordia nas suas redes sociais. Aí sim vou poder dormir um pouco mais tranquilo até a próxima pauta chegar.

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Todas as fotos © Daniel Boa Nova | Hypeness

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Daniel Boa Nova
Redator / Roteirista / Produtor de conteúdo

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