Matéria Especial Hypeness

Quem são as pessoas que já estão usando o Minhocão como se fosse um parque

por: Daniel Boa Nova

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O Minhocão é um viaduto em São Paulo que liga a Zona Oeste à região central da cidade. Seus 3,4 quilômetros de extensão foram construídos e inaugurados durante a ditadura militar no Brasil. Não à toa, o anelídeo de concreto recebeu um nome de batismo oficial em homenagem a um general: Elevado Costa e Silva.

Em 25 de janeiro de 1971, a capital paulista completou 417 anos. Na festa de aniversário, ganhou esse presentão do prefeito na época, Paulo Maluf. Foram 14 meses em turnos ininterruptos de uma obra anunciada como meio para desafogar o trânsito paulistano. Porém, ironicamente, o Minhocão enfrentou o primeiro congestionamento de sua história no primeiro dia funcionando.

Nos capítulos seguintes, a região atravessada por ele sofreu um processo constante de degradação. Do lado de cima, a poluição sonora e atmosférica dos carros e motos passou a ser entregue em domicílio diariamente para os habitantes dos prédios vizinhos. Na parte de baixo, a sombra permanente do elevado se tornou abrigo para moradores de rua, permitindo também o desenvolvimento do setor de meretrício já existente nas noites das ruas Amaral Gurgel e Major Sertório. Foi um verdadeiro crime urbanístico contra São Paulo, típico de uma época em que contestar decisões do poder público podia resultar em prisão, tortura e sumiço do protestante.

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Inicialmente, o Minhocão funcionava 7 dias por semana, 24 horas por dia. Após inúmeras reclamações, em 1976 passou a ser fechado das 00h às 05h00. Já em 1989, a Prefeitura estendeu esse período para fechar às 21h30 e aos domingos durante o dia todo. Foi assim que, nos dias e horas em que não recebe automóveis, o Minhocão passou a receber pessoas. E foi querendo aprofundar essa forma de uso que surgiu o movimento pela transformação do espaço em um parque.

Mas, até pouco tempo atrás, a ocupação humana do viaduto ainda se dava de forma tímida. O Minhocão era visto como uma cicatriz indesejada causada por um pai ilegítimo e uma área do corpo urbano a ser evitada. Ou então, reconstituída. Foi com essa perspectiva que outro movimento civil deu a partida para seguir uma pista paralela em sentido oposto, em defesa da demolição do Minhocão.

Entre as duas frentes de reivindicação parece existir um consenso: o de que chegou a hora dos carros saírem daquela altitude, mas que a retirada deve ser feita sem que a cidade sofra ainda mais com o trânsito. Esse ponto de intersecção vem sendo endossado pelos atuais poderes executivo e legislativo do município, que em 2014 colocaram em vigor um novo Plano Diretor prevendo a desativação do Minhocão nos próximos anos. E, após realizar testes para avaliar o impacto no trânsito, em julho de 2015 a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) passou a interromper o tráfego na via às 15h00 do sábado. Para quem não está familiarizado com a região, é importante citar alguns coeficientes já sabidos nessa equação de segundo grau: a linha de metrô, o corredor de ônibus e a ciclovia prestes a ser inaugurada que passam por baixo do Minhocão. O trajeto conta com esses recursos.

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Enquanto o destino final do paquiderme viário não é selado, audiências públicas tomam a Câmara Municipal e discussões inundam as redes sociais. Recentemente, a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik se posicionou publicamente em favor da derrubada do viaduto. Ao mesmo tempo, uma porção cada vez maior de gente está utilizando o espaço para praticar esportes, assistir ou realizar performances artísticas e também para o simples lazer.

Diversas atividades criativas vêm sendo organizadas por lá. Só para citar algumas, tem teatro nas janelas de um prédio, projeção de filmes na fachada de outro, grafite e jardins verticais nas empenas, mercado de pulgas, encontros de cachorreiros e por aí vai. Fizemos um vídeo apenas para comparar a dinâmica do lugar aberto para os carros e aberto para as pessoas:

O Hypeness também esteve no Minhocão conversando com alguns dos seus frequentadores. O que temos não é uma pesquisa com metodologia científica e amostragens numerosas, mas um álbum de retratos de usuários do espaço.

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Felipe Morozini é fotógrafo, artista e cenógrafo. Nascido no bairro do Tatuapé, há 15 anos ele mora em frente ao Minhocão, no apartamento que pertenceu a sua bisavó: “Desde que me conheço por gente vinha visitar ela aqui. E sempre perguntava para minha mãe como que a minha bisavó escolheu terminar a vida na beira de uma estrada. Eu vi que ela colocou 8 trancas na porta, fechou a lareira e todas as amigas dela saíram do prédio. Quando esse apartamento ficou vazio, minha mãe ia vender ele por 52 mil reais. Aí eu vim”. E como era na época que chegou? “Há 15 anos ninguém queria vir pra esses lados, ninguém queria morar aqui, ninguém queria ver esse lugar. As pessoas só falavam mal. Hoje tem a turma que fala mal, mas é porque não frequenta. As pessoas que falam mal não frequentam o Minhocão.”

Em 2011, Felipe chamou um grupo de amigos para pintar o asfalto do elevado em uma iniciativa que até já foi pauta no Hypeness: o Jardim Suspenso da Babilônia. “Nunca pensei nas consequências do que ia acontecer. E aí, desde então as pessoas me vêem como uma pessoa que gosta do Minhocão”.

Feilpe hoje é membro da Associação Amigos do Parque Minhocão. Na sua visão, o parque já está sendo materializado: “Nunca vi tanta gente de outros bairros por aqui como agora. Pessoas ricas, pobres, é uma mistura. Eu vejo o aumento de bicicletas e de crianças. Teve um domingo em que, da janela da minha casa, vi 5 meninas chegando de bicicleta, estendendo uma toalha e fazendo um piquenique. Mais pra frente, um cara fazendo um churrasco. O outro leva uma piscina e permite que todas as crianças que passem ali usem. E o grande mérito disso tudo é ser espontâneo. As pessoas já ocupam esse espaço. É muito cruel pensar que elas podem ficar sem. Para onde vão? Esse é o meu pensamento. Se São Paulo é carente de espaços de lazer, aqui tem um. É só você vir e ver.”

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Em uma quarta-feira à noite conversei com Flávio, que tem 21 anos e nasceu no interior da Bahia. Ele está em São Paulo há cerca de um ano, trabalhando como pintor na construção civil e morando pertinho do elevado, na região da Avenida Francisco Matarazzo. Sua frequência no lugar tem sido menor do que gostaria: “Venho uma vez perdida. Hoje tava de boa, daí disse: vou ali dar uma volta. Tem um amigo meu que vinha dar uma passeada de skate, entendeu? Ele tá andando aí, só que não vi ele ainda não. Antes eu vinha correr aqui, mas aí parei por causa do serviço, que comecei a pegar pesado.”.

Quando questionei se estava ciente sobre as discussões em torno do lugar, Flávio me respondeu com perguntas: “Como assim? É mesmo? Sério? Isso aí eu não tava sabendo não. Mas aqui é bom pras pessoas vir andar, né? Olha o monte de gente que tem aí. Todo mundo caminhando sossegado, normal. O povo passeia com cachorro e tudo aí, bicicleta. Você vê muita criança também. Se fechar isso aqui, aí o que é que vai acontecer?.

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Um grupo praticava artes marciais usando espadas em pleno Minhocão no domingo de manhã. Me aproximei de um que estava apenas filmando o evento.

Francisco me contou que são de uma escola tradicional de kung fu: “Nós aproveitamos bem esse espaço aqui do Minhocão, que é uma oportunidade de encontrar lazer, cultura e esporte ao mesmo tempo. A gente costuma vir uma vez por mês aos domingos. O que a gente nota é que cada vez pára mais gente pra apreciar, demonstrando interesse e tal. A ideia daqui pra frente é manter uma regularidade e vir todo domingo. É um belíssimo espaço. Cabe muita coisa aqui.

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Reginaldo estava debaixo de uma sombra vendendo cocos e garrafinhas d’água. Ele trabalha ali apenas aos domingos. Chega por volta das 10 horas e fica até às 17h30, período no qual vende em média 40 cocos: “Tem um ano que eu venho aqui mais ou menos. Tá dando mais gente. Mais família, né? Antes era mais uma pessoa só, agora tá vindo mais família. Com crianças, passeando com skate, bicicleta. Tem bastante criança agora.”

Vendo um amontoado de cascas abertas à sua frente, perguntei como ele faz com a limpeza: “Eu já venho com um saco de nylon, né? Então, terminei de vender, recolho tudinho e varro pra não ficar nada de resíduo no chão. O lixo coloco no saco de nylon e lá embaixo depois das 18h tem um caminhão que passa. Daí já jogo tudo fora. Já que tô trazendo, também levo de volta.”

Antes que eu fosse embora, Reginaldo me deu sua opinião sobre uma possibilidade de transformação estética do espaço: “Se pintasse cada prédio desses de uma cor, aí ficava bonito”.

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Nesses últimos dias em que circulei pelo Minhocão tive também amostras dos encontros inesperados e bem-vindos que um espaço assim permite. O primeiro foi com o Vicente, ceramista amigo meu da época do colégio. Na quarta-feira à noite, sem ter combinado, cruzei ele correndo por ali. Me disse que vem fazendo isso eventualmente, já que não tem mais tanta paciência para correr na esteira da academia.

Mas Vicente tem uma certeza: a de que a cidade não deve priorizar nas políticas públicas o uso de transporte individual e privado: “Esse egoísmo é muito forte na nossa cultura e dá raiva. A gente vai continuar em Gotham City ou a gente quer Nova York?“. Já seu ponto de vista sobre o futuro do espaço é tão crítico quanto pragmático: “Vou ser sincero pra você: acho que estupraram o bairro com isso daqui. Mas já que é um negócio que está aí, tem que agora deixar e tentar fazer com que isso não agrida mais do que já agrediu a cidade.”

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No domingo foi a vez de encontrar por acaso pedalando outro amigo de tempos. Embora Anderson já more no Centro há mais tempo, faz 3 anos que o designer e diretor criativo online fixou residência na região da Vila Buarque: “Toda semana, pelo menos 2 a 3 vezes venho fazer minha caminhada noturna. Como antes eu andava de skate com uns amigos na área, sempre tive familiaridade com esse lugar. Mas eu nunca tinha visto o Minhocão assim. Realmente, a galera tá tomando o Minhocão com naturalidade, e não com preconceito.

Anderson vê com bons olhos as iniciativas das pessoas que vêm ocupando o local. Mas acha que ainda falta a participação da Prefeitura para que ele possa ser aproveitado como um parque: “Por exemplo, já que vêm uns caminhões e fazem limpeza, eles podiam vir e colocar uns parklets pré-moldados. Depois tira no fim do dia e já era.”

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Buscando a hashtag #minhocao nas redes sociais é possível encontrar mais retratos de como o Elevado Costa e Silva vem sendo ocupado e utilizado. Se você frequenta o espaço, que tal compartilhar sua experiência conosco nos comentários abaixo?

Talvez esse não seja o parque que mais gostaríamos de ver. Mas esse é um parque que já podemos ter. E, se não dá para apagar uma decisão lamentável do passado, é possível discutir o que queremos do espaço para as próximas décadas. Queremos desconstruir ou ressignificar? De que forma e a que custo? Impactando quem e como? O que já funcionou e o que não funcionou? Ou não queremos nada disso?

Ainda tem muita água para passar por essa ponte até chegarmos ao capítulo final da história. Enquanto isso, o convite está feito a quem quiser visitar esse parque imaginário e real. Está logo ali. É só chegar.

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Todas as fotos © Daniel Boa Nova Hypeness

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Daniel Boa Nova

Redator / Roteirista / Produtor de conteúdo

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