Matéria Especial Hypeness

Como foi passar uma noite entregando pizzas de moto em São Paulo

por: Daniel Boa Nova

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Embora andar de moto seja um prazer adquirido, não sou um motoqueiro por vocação. Tirei carta há 3 anos, após uma vida pegando ônibus. E, desde que tomei essa iniciativa e mais umas boas doses de desilusão profissional, a possibilidade de me tornar motoboy se nada desse certo passou a ser um comentário constante proferido por mim.

Não me entenda mal: é uma profissão que respeito e importantíssima na economia de São Paulo. Apenas não seria minha primeira resposta à pergunta o que você quer ser quando crescer?

Nada melhor do que experimentar aperitivos do cotidiano alheio para desenvolver um paladar mais apurado sobre nossa existência. Essa possível carreira sobre duas rodas sugerida da boca pra fora e o fato de morar em uma cidade que consome 1 milhão de pizzas por dia foram as grandes motivações da matéria que você lê aqui e agora no Hypeness. Pois é, passei uma noite trabalhando como entregador de pizza.

O passo inicial era encontrar um estabelecimento que topasse a experiência. Antes de sair batendo de porta em porta no meu bairro, recorri ao Facebook.

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Recebi um bom número de indicações, seja com amigos prestativos marcando outras pessoas no post ou me chamando por mensagem direta. Descobri assim que um camarada da minha própria lista de conexões é coproprietário de uma pizzaria há 2 anos. Entrei em contato com ele, que topou a ideia, e marcamos de nos encontrar para acertar os detalhes.

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Já faz uns 4 ou 5 anos que trabalhei com o Claudio em uma agência de publicidade. Na época, era bastante comum dividirmos jobs, almoços e papos sobre sons. Ao encontrá-lo nessa conversa prévia acompanhada por uma brotinho e uma cerveja na conta da casa, fiquei feliz em saber que sua banda segue na ativa e que ele agora também é pai. Sua ocupação atual engloba essas funções, o trabalho do dia a dia em agência e mais a pizzaria, que abriu com outros dois parceiros.

Tirando as segundas-feiras, quando as portas do lugar permanecem fechadas, cada sócio dá expediente duas noites por semana, das 19h às 23h00 (23h30 em finais de semana). O staff enxuto conta ainda com o pizzaiolo e uma pessoa que atende ligações, mesas e ajuda a montar os pedidos. Além do motoboy, que cuida sozinho das entregas nas terças e quartas e em dupla de quinta a domingo. No último sábado, esse pelotão de frente se tornou um trio com o reforço do correspondente aqui.

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Apesar de abrigar cada vez mais prédios subindo para o alto e avante, a Vila Romana ainda é um bairro do centro expandido paulistano predominantemente constituído por casas. Como você pode imaginar, a pizzaria onde trabalhei ocupa o espaço de uma delas, reformada para comportar um forno a lenha ao fundo e algumas mesas na parte da frente.

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Cheguei pontualmente às 19h00 e um dos meus pares estava dando a partida na moto para levar o primeiro pedido da noite. As entregas seguem a ordem de chegada dos seus encarregados e a política da casa é evitar ao máximo que as viagens incluam mais de um pedido. Dessa forma, cada pizza percorre a menor distância possível do forno ao cliente. Como os motoqueiros recebem uma taxa de R$ 3,00 por entrega realizada (mais possíveis caixinhas, salário em torno de R$ 700,00 e um valor mensal pelo aluguel da moto), é do seu próprio interesse retornar à sede o quanto antes para já levar a próxima.

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Com exceção do pizzaiolo que trabalha em silêncio e incessantemente, o clima em geral é quase festivo. Enquanto não chega nossa vez de subir na moto, converso com o Gilmar, entregador do time. Ele me diz que trabalha ali há dois anos, desde que os atuais donos assumiram o ponto. “E o chefe não quer aumentar pra mim não, bicho”, reivindica em tom bem humorado ao perceber a aproximação do patrão. A queixa é levada na esportiva.

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Morador da Zona Norte, Gilmar também trabalha com entregas durante o dia, na Vila Leopoldina. Pergunto se ele gosta do que faz: “Mano, te falo uma coisa: eu já trabalhei como ele trabalha. Com design, né? Já tive minha própria empresa, fali, já trabalhei em vários outros serviços. Mas esse ramo de motoqueiro é um vício desgraçado. Você xinga, xinga e xinga, mas não consegue sair não. Sabe por quê? Porque você tem sua liberdade. Você não trabalha em uma empresa fechada com o patrão enchendo o saco. Você trabalha na rua, mano, e conhece várias coisas. Você aprende muito. Prefiro ficar nisso aí do que ficar de frente pra uma tela. Por mais que eu xingue, prefiro ficar numa moto”.

O papo está bom, mas o telefone tocou e toca novamente. Hora de acelerar.

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Vestir a mochila em forma de cubo até que é tranquilo. Porém, como minha moto – que é de um modelo “de rico”, segundo Gilmar – tem um baú acoplado que não seria tão fácil de retirar, sentei bem na ponta dianteira do banco, com os joelhos quase batendo no guidão. Os desníveis na pavimentação da rua também representaram um desafio, me obrigando a guiar em uma postura bastante artificial para mim. Era isso ou correr o risco de chegar com uma caixa de papelão contendo massa de um lado e queijo do outro, meu maior medo ali na hora.

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Ainda bem que a primeira entrega foi em uma rua próxima que conheço bem, a Raul Pompeia. Abrindo um parêntese: o prédio onde moro ainda é daqueles em que o entregador pega o elevador até a porta de cada um. Fechando o parêntese: esse não era o caso aqui e nem seria pelo resto da noite. Embora as histórias de assaltantes que chegam fantasiados de entregador de pizza estejam mais para lenda urbana do que para notícia, fato é que nenhum dos prédios onde toquei me mandou subir. Por conta disso, não tirei fotos do senhor que veio junto com um menino pegar aquela pizza. E nem dos demais clientes para quem me dirigiria naquela noite. Se as pessoas vivem com medo de um entregador, o que dizer de um entregador que tira fotos e pergunta sobre a sua vida?

Acionei a maquininha, crédito ou débito?, não precisa da minha via!, e entreguei a pizza. Tudo através das grades da jaula que compõe a portaria de grande parte dos condomínios paulistanos modernos. Bom apetite e boa noite.

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De volta à pizzaria, os outros dois entregadores estavam fora. Minha segunda missão não demoraria a chegar. Meia margherita, meia escarola e pagamento metade no cartão, metade com cupons de desconto. Que, naquele estabelecimento de nome Tomateria, assumem a forma de uma rodela de tomate.

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O destino ficava a apenas 4 quadras de distância, o que não impediu um carro de quase me atropelar ao invadir uma rotatória onde eu já estava. Ossos do ofício ou psicopatia do condutor?

Segui em frente até o predinho simples onde pedi ao porteiro que interfonasse no 71. Não, não era uma bruxa de nome Clotilde pedindo pizza, mas sim uma mulher muito simpática. Me embananei na hora de operar a maquininha e aproveitei para lhe contar sobre a matéria. Ela achou divertido e me desejou boa sorte. Como tinha esquecido de trazer os cupons-tomates, combinamos que eu retornaria mais tarde para pegá-los com o porteiro. Atendemos bem para atender sempre.

Na volta comentei sobre o carro que quase me derrubou com pizza e tudo. E ouvi do outro entregador, que agora estava por ali, uma história bem mais sinistra.

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Vânio trabalha durante a semana com essências para produtos de limpeza e antes usava o veículo apenas como meio de transporte. Convidado pelo Gilmar, há 8 meses começou a fazer entregas nas noites de quinta a domingo. E foi exatamente no seu primeiro dia de trabalho na pizzaria que o caso aconteceu: “Cheguei eram umas 9 horas da noite. Encostei a moto e veio um louco lá, bêbado, pegou minha moto e mais uns 3 carros que tinham aqui. A hora que eu tava descendo ele bateu e tirou a moto de baixo da minha perna. Eu nem caí. A moto foi parar embaixo de um carro e eu fiquei em pé, com a perna levantada. Fiquei olhando e ele saiu batendo nos outros carros. Tentou fugir, mas o carro dele tinha arrebentado toda a frente, começou a vazar óleo, começou a vazar água, e não conseguiu ir mais. Foi um acidente feio, cara. Foi coisa de louco”.

O entrevero foi resolvido sem polícia ou linchamento, com o valor de R$ 600 pagos na hora. E o culpado ainda achou caro e acusou o motoboy de exploração, sendo que Vânio teve que colocar pelo menos mais R$ 100 do seu bolso para arrumar a moto: “Eu nunca tinha trabalhado de motoboy. Era meu primeiro dia, cara. Aquilo ali foi um teste. Falei ‘Nossa, será que é pra eu desistir? Não vou desistir não, bora, vamos ver no que é que dá!’.

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Minha próxima entrega seria em uma rua que não conheço. Joguei no GPS do celular e, ao ver o caminho indicado, o Gilmar me deu a letra de um atalho providencial. Ao chegar, cumprimentei o colega de profissão que também esperava ali na calçada em nome de um outro estabelecimento.

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Duas pizzas, um refrigerante de 2 litros e um senhor muito gente fina que me estendeu uma nota de R$ 2,00 após passar o cartão. A primeira gorjeta a gente nunca esquece.

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Voltei todo pimpão com minha caixinha e no caminho parei novamente naquele prédio da segunda entrega, onde um punhado de cupons em forma de tomate deveria me aguardar na portaria. Como já era de se imaginar, a moça não se lembrara de deixá-los. Contei isso ao Claudio quando cheguei e ele disse para não me preocupar, pois anotaria no sistema e eles avisariam à cliente no seu próximo pedido.

Ok, pausa para um lanchinho. Ali nos fundos, na copa, entre a máquina que prepara a massa, o moedor de ingredientes e a fritadeira cheia de bacons cheirosos e crocantes. Servido? Servida?

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Minha quarta entrega foi a mais distante da noite, em uma ruela no meio da Vila Ipojuca. Não teve jeito: precisei parar a moto umas três vezes para me orientar com o GPS e fiquei com medo da pizza esfriar. Quando finalmente encontrei o lugar, o porteiro me informou que o interfone chamava, chamava e ninguém atendia. Céus. Liguei do meu celular para a pizzaria reportando a ocorrência. Enquanto esperava, reparei que tinha um food truck vendendo a mesma iguaria na outra calçada. Agradecemos pela preferência.

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Alguns minutos se passaram até o porteiro avisar que o dono daquela pizza de alcachofra estava descendo. Ao se aproximar da grade, não deu boa noite e nem olhou no olho. Tudo bem, ninguém é obrigado a ser simpático e muitas vezes acionamos o piloto automático para certas tarefas corriqueiras. Mas, pessoalmente, tenho uma crença profunda de que a digestão da vida fica mais leve quando a gente leva um ao outro em consideração. Seja o motoboy ou a rainha da Inglaterra.

Antes que o expediente acabasse ainda fiz uma última viagem, no percurso que ganhou o Troféu Lombadas & Paralelepípedos da noite. Foi a única entrega para uma casa que realizei. Não era de se estranhar os latidos encorpados que escutei ao tocar o porteiro eletrônico com câmera. Um adolescente e seu gorro enterrado na cabeça muito semelhante aos que eu usava quando pedia pizza na larica há uns 15 anos abriu metade do vão, dispensou a segunda via do comprovante e agradeceu antes de bater a porta atrás de si. Fim de jogo.

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No saldo total, fiz 5 viagens, entreguei umas 8 pizzas e ganhei 2 reais de gorjeta, além da cortesia em forma das 3 fatias de pizza que lanchei. Em contrapartida, gastei meio tanque de gasolina. E, obviamente, não cobrei da pizzaria o valor da diária que os outros entregadores recebem, pois estava ali a serviço do Hypeness para relatar essa experiência.

Pelo que me disseram, aquela foi uma noite tranquila. Em um sábado normal o volume de pedidos costuma ser maior, com o telefone tocando incessantemente e os motoqueiros sem parar. Além disso, o tempo estava bem agradável. Quem anda de moto sabe como a parte legal dessa atividade deixa de existir quando é preciso vestir roupa impermeável, a viseira fica embaçada e o medo de cair é muito maior.

Nas condições de temperatura e pressão em que trabalhei, entregar pizzas de moto à noite é até divertido. Ainda mais quando comparado a outras profissões que pagam melhor cobrando o preço de sugar sua alma até o caroço. Acredito que agora posso dizer com um conhecimento de causa um pouquinho maior que, se preciso for, minha carreira terminará em pizza.

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Todas as fotos por Daniel Boa Nova Hypeness  (com ajuda do Gilmar e do Claudio =)

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Daniel Boa Nova

Redator / Roteirista / Produtor de conteúdo

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