Desafio Hypeness

Desafio Hypeness: como me senti quando passei 9 dias em silêncio

por: Daniel Boa Nova

Publicidade Anuncie

Foi em meados de julho que a ideia surgiu. Me perguntaram se tinha alguma pauta que gostaria de fazer e imaginei que ficar sem falar seria algo interessante. Ao comentar com minha esposa, ela falou do Vipassana. De uma maneira impulsiva e quase inconsequente, sugeri viver a experiência e escrever a respeito. Pauta aprovada. Agora cabia a mim encarar o desafio.

No site da associação que organiza o retiro me inscrevi para participar entre os dias 19 e 30 de agosto. Logo veio um e-mail de confirmação com instruções mais detalhadas. Foi quando a Jaque, editora do Hypeness, fez algumas ponderações. Você está tranquilo com isso? Essa duração não vai te prejudicar? Que tal um retiro mais curto?

Naquele momento, a motivação já deixara de ser somente profissional. Achava que passar por isso seria bastante revelador em minha vida. Depois de mais de ano e meio frequentando sessões semanais de terapia, alguns temas começavam a entrar em loop. Desconfiava que uma imersão mais profunda poderia desatar uns tantos nós que me mantinham ancorado. Agradeci à Jaque pela preocupação e mantive a pauta de pé.

Talvez agora seja o momento de explicar do que se trata o Vipassana. Você tem 1 minuto? Para começar, não é uma prática religiosa. A grosso modo, está mais próximo do terreno da medicina terapêutica do que da fé. Seus mestres inclusive o classificam como uma cirurgia na mente. Qualquer um pode fazer, cristão, judeu, muçulmano ou ateu.

Vipassana é uma técnica ancestral de meditação. Conta-se que foi o próprio Sidarta Gautama, também conhecido como Buda, quem a redescobriu e disseminou pela Índia. Coisa de 2.500 anos atrás.

vipassana_buda

via

O principal objetivo do Vipassana é diminuir o sofrimento humano. Afinal, todos sofremos, não? Sofre quem está duro e sofre quem é rico. Sofremos com a ausência e na presença de familiares. Sofremos com as escolhas profissionais que fazemos e também quando permanecemos indecisos. Sofremos com nós mesmos.

A técnica propõe uma observação intensiva sobre as sensações que experimentamos em cada parte do corpo. Das mais grosseiras às mais sutis. Identificando essas sensações, conseguimos discernir o que é dor física do que é sofrimento mental. E, depois de horas e horas praticando isso, começamos a perceber como qualquer sensação é passageira. Como, no fundo, sofremos porque queremos. Reduzindo nossa repulsa à dor e nossos desejos por prazer não atendidos, a vida fica mais leve e bem vivida. Menos sofrida, portanto.

vipassana_fotoIlustrativa

Foto © Duc Anh via

Para manter o foco no propósito, não seriam apenas dias de mudez. Seriam dias completamente offline. Sem ligações, sem What’s App, sem e-mail, sem Facebook, sem escrever, ler, sem mandar carta ou pombo-correio. Ficaria incomunicável para quem não estivesse lá. E, mesmo entre os presentes, qualquer contato físico, visual ou gestual devia ser evitado. Apenas meditação o dia inteiro, todos juntos sem se misturar.

A esse isolamento somavam-se outros compromissos: não roubar, não mentir, não beber, usar drogas e medicamentos. Não fazer sexo de nenhuma modalidade durante o período e não matar qualquer ser vivo. Nem mosquito? Nem. Concordei com tudo isso ao me inscrever. E, quando faltava pouco mais de uma semana, me peguei morrendo de medo. Medo do desconforto físico de passar horas e dias seguidos meditando. De não receber notícias de casa durante a estadia. De não poder registrar minhas impressões nem com caneta e papel. Medo dos demônios ocultos que poderiam sair da toca nesse processo.

No fim de semana derradeiro antes de partir, me imaginava indo para uma prisão. Ou para o exército. Ficar recluso, obedecer comandos, comer o que servirem, manter a disciplina. Fiz refeições como se fossem minhas últimas e me alimentei de uma maneira completamente infantil, apenas atendendo aos desejos mais irracionais do estômago. Hot dog, feijoada, sorvete. Manja?

Na quarta-feira, 19 de agosto, acordei cedo, paguei umas contas que venceriam enquanto estivesse fora, tomei banho, fechei a mala e me despedi. Caminhei até o metrô, fiz baldeação na e desci no Terminal Tietê. A passagem já tinha sido comprada, apenas imprimi o bilhete em um totem da companhia rodoviária. Faltavam 30 minutos para o ônibus sair quando cheguei na plataforma. O destino final seria um sítio próximo à cidade de Monteiro Lobato, a cerca de 130 km de São Paulo. Do terminal na capital eu iria para São José dos Campos e lá tomaria um circular para a cidadezinha, de onde deveria pegar um táxi ou van até o sítio. Assim o fiz, em um percurso sem percalços.

vipassana01

vipassana03

vipassana07

vipassana14

vipassana17

Devia ser por volta das 15h30 quando finalmente cheguei ao lugar. Muito bonito, por sinal. Cheio de verde por todos os lados e com um pacífico laguinho logo em frente.

vipassana18

vipassana23

vipassana29

Não é cobrada taxa de admissão. Quem completa o retiro é incentivado no final a colaborar com a quantia que quiser e puder. Se desistir antes, eles não aceitam sua doação. Os custos são arcados com as contribuições de participantes antigos e todas as pessoas que trabalham na organização fazem isso de forma voluntária. É um dos preceitos do Vipassana que, se você completou o curso, quando possível retribua não apenas financeiramente, mas servindo.

Me identifiquei para um dos voluntários e fui orientado a me instalar no alojamento. O dormitório coletivo era subdividido em três alas. Fiquei na ala do meio, colado em uma parede e ocupando a parte de cima do beliche. Minha cama era a 15-A.

vipassana31

Em seguida, deveria retornar para preencher uma ficha, onde concordava com as regras do retiro e contava um pouco sobre minha experiência prévia com processos terapêuticos. Nesse momento deixei sob a guarda deles meus pertences mais tentadores. Adeus, celular, carteira e bloquinho para anotações. Até daqui a 10 dias.

Naquela tarde ainda podíamos conversar e nos misturar com as mulheres do grupo. Durante o resto dos dias ficaríamos separados por gênero, cada um em um pedaço do sítio e ocupando o mesmo recinto apenas nas sessões de meditação. Conheci gente muito bacana. Um era enfermeiro, outra farmacêutica, um designer, outro guia turístico. Um vinha do Pará, outro do litoral paulista, outra do interior, quatro vinham da Colômbia, a maioria de São Paulo. Todos um pouco ansiosos com o que viveriam.

Mais à noite tivemos uma reunião onde foram repassadas as regras e esclarecidas as dúvidas. Um dos estudantes antigos, que estava repetindo a experiência, ficou encarregado de tocar o sino todas as manhãs para acordar o povo. Em seguida, houve a sessão inaugural na sala de meditação. Um salão espaçoso e arejado com várias esteiras acolchoadas dispostas em fila. Três fileiras para os homens de um lado e três fileiras para as mulheres do outro. As posições são fixas. Fosse a armação de um time de futebol, eu seria o lateral-esquerdo, bem ao lado da parede. Na parte da frente, um tablado de madeira com uma espécie de pufe onde se senta a professora. Em torno dela ficam os servidores voluntários.

As orientações para meditação são passadas através de uma gravação de áudio que traz ao espaço a voz de S.N. Goenka, talvez o mais renomado difusor do Vipassana em tempos modernos. Essa dinâmica de ocupar sua esteira e ouvir instruções pelo sistema de som conduziria todas as sessões de meditação que viveríamos naquela sala. A professora complementa apenas com questões mais práticas (como por exemplo liberar a todos para descansar) e, vez ou outra, chamando as pessoas ao tablado para perguntar como estão se saindo e meditar próximo a ela. Todos os dias, das 12h às 13h e das 21h às 21h30, a professora também ficava à disposição para responder dúvidas.

vipassana32

Terminada aquela sessão inaugural, fomos dispensados. E, a partir dali, o silêncio estava decretado. Pelos 9 dias seguintes, não falaria com ninguém. No máximo, pedi desculpas algumas vezes. Uma porque meu cobertor escorreu pelo beliche, atrapalhando a passagem do vizinho de baixo. Outra porque, ao encerrar uma sessão com a perna dormente, me desequilibrei na hora de levantar e quase caí em cima do companheiro sentado atrás de mim. Aquelas pessoas que conheci na tarde da chegada eu fingia que não via. Ao cruzá-las, desviava o olhar. Nem mais um A, nenhum pio.

vipassana27

E ficar sem falar no meio de um monte de gente gera perspectivas e situações curiosas. Primeiro que seus outros sentidos se aguçam. Da sala de meditação, várias vezes senti aromas que vinham da cozinha. Cheiro de mamão sendo cortado para o café da manhã. Cheiro de mel também. Cada vez que abria os olhos após uma sessão e saía da sala para aproveitar os minutos de descanso, minha visão enxergava uma porção de detalhes. Desde pássaros nas copas das árvores até formigas carregando mantimentos em fila no meio da grama. Inicialmente, meus ouvidos se incomodavam bastante com as várias tosses, espirros e fungadas de outras pessoas durante a meditação. Depois fui relevando, ao passo que os sons das aves no amanhecer e dos sapos e grilos no cair da noite se tornaram muito mais presentes. Ainda falando sobre sons corporais, na ausência de música e conversa, eram uma trilha ambiente constante. Teve um dia em que, pelos ruídos, podia jurar que havia um javali fazendo sua higiene no banheiro.

Em algumas ocasiões, me senti impotente. Teve um almoço em que serviram algo feito de abóbora (ah, sim, todas as refeições eram vegetarianas). Ao passar por mim, um dos colegas deixou pingar do seu prato um pouco da iguaria. Bem no meu pé. Se é que ele viu, ficou sem pedir desculpas. E eu sem reclamar. Também não reclamei quando certa vez um camarada furou a fila do café da manhã. Nem quando vi ele repetir a dose alguns dias depois. No início, esse tipo de situação me fervia por dentro. Já no final, bastante influenciado pelo que estava praticando ali, apenas observava sem me deixar afetar. Para chegar a esse ponto, deve estar sendo muito mais difícil para ele do que para mim, eu pensava.

vipassana21

vipassana24

vipassana25

A rotina era de monge. Acordávamos às 4h com o soar do sino. Sem snooze, sem chance. Das 4h30 às 6h30 acontecia a primeira sessão de meditação. Nessas posso dizer que meu desempenho foi pífio. Só o fato de vencer o sono e enfrentar o frio para estar presente na sala já significavam muito para mim. Um farto café da manhã era servido às 6h30 e ficávamos livres até às 8h. Muitos aproveitavam esse período para dormir. Das 8h às 9h, sessão coletiva de meditação onde todos deviam estar na sala. Das 9h às 11h, a meditação podia ser na sala ou no quarto, como preferíssemos. Às 11h o almoço era servido e a próxima sessão seria apenas às 13h. Costumava tomar banho e tirar um cochilo nesse meio-tempo. Das 13 às 14h30, meditação livre para ser feita na sala ou no quarto. Das 14h30 às 15h30, nova sessão coletiva na sala. Alguns minutos de descanso depois, mais meditação até as 17h, quando tínhamos a última refeição do dia, composta por chá, leite e frutas. Das 18h às 19h, sessão coletiva novamente. A palestra que escutávamos diariamente entre 19h e 20h15 era um respiro, momento em que podia me distrair com algum conteúdo diferente e que explicava bastante sobre o que estávamos praticando. Das 20h15 às 21h acontecia a última sessão do dia e, depois dela, quem quisesse podia ficar e tirar dúvidas com a professora. Eu ia direto pra cama.

Na segunda noite, fui despertado repentinamente pelos berros de alguém no quarto: “Não! Nããããããão!!!“. Assustado, meu primeiro pensamento foi que um maníaco psicopata havia revelado suas verdadeiras intenções naquele lugar. Mas era apenas o pesadelo de alguém que fala dormindo e nem sequer acordou com isso. Então ficamos assim: todos ao redor acordados e sem dizer nada. E o protagonista do incidente dormindo e falando. Nas noites seguintes outras pessoas também se pronunciariam durante o sono. Tinha um que inclusive sonhava em inglês.

vipassana49

vipassana51

O ser humano tem uma capacidade incrível de se adaptar. Talvez esteja aí a principal característica que nos diferencia dos demais primatas. Conseguimos sobreviver nos climas mais inóspitos, nas regiões mais inacessíveis e nos alimentamos de tudo. Os exemplos de superação de pessoas com deficiência são mais uma prova disso. Daí que, conforme os dias foram passando, acabei me acostumando a essa rotina austera. Madrugar, meditar, não comer carne, ficar sem falar. Mesmo não trocando uma palavra com os caras ao redor, de certa forma já conhecia a todos. Sabia como se comportavam e desenvolvi uma empatia por eles.

O que começou a me preocupar mais foi como escreveria essa matéria. A qualquer momento surgiam novos insights e não era possível anotar. Lá pelo oitavo dia, achando que perderia muitas passagens, tomei a liberdade de escrever algumas palavras-chave para depois me lembrar. Sem meu caderninho, cheguei a cogitar o papel higiênico como bloco de notas, mas acabei usando o verso de uma cartela de pilhas.

vipassana58

Às 10h do décimo dia, a fala foi legalizada. E uma onda de compaixão pareceu inundar aquele sítio. Era como se fôssemos amigos de infância nos reencontrando depois de tempos. Amigos que já se conheciam tão bem e que tinham absoluta confiança uns nos outros pelas adversidades superadas conjuntamente. Isso embora fosse preciso perguntar o nome da maioria antes de começar qualquer diálogo. Falamos à beça. Parecia que tinham servido uma bandeja de cocaína ao invés do café da manhã, de tanto que as pessoas queriam se expressar, demonstrar afeto, compartilhar impressões. Ainda tivemos sessões meditativas em silêncio, mas o foco já tinha dado adeus. Seguir aquele roteiro em isolamento é bem diferente de estar no meio de uma roda de amigos e parar para isso. Desculpe, não rola.

Foram 9 dias praticando uma média de 10 horas de meditação. Somando as sessões do dia da chegada, da partida e do décimo dia, o total se aproximou das 100 horas. Isso meditando, porque de silêncio foram 24 horas diárias – exceção feita aos momentos em que eram passadas instruções. Deviam ser em torno de 70 praticantes. Apenas 2 homens desistiram e creio que o número foi parecido entre as mulheres.

Tinha pré-aprovado no Hypeness uma contribuição de R$ 150, valor ao qual acrescentei mais R$ 100 de meus próprios recursos. Perdi pouco mais de 2 kg nessa experiência, que credito totalmente aos exercícios mentais, pois não pratiquei qualquer atividade física no período. Apenas para encerrar esse momento cheio de números com um contraponto, ao retomar o sinal do celular na volta à vida falada, contabilizei nada menos do que 1.366 mensagens de What’s App não lidas.

vipassana59

Antes de partir para o retiro, eu tinha o site e endereço do lugar. Tinha passagens de ônibus compradas, a data de chegada e de partida. Também estava ciente das regras do jogo. Só que não fazia muita ideia de onde estava indo. Onde, nesse caso, no sentido mais sublime e menos geográfico. Talvez esteja aí um dos maiores temores das pessoas quando se trata de buscar autoconhecimento. Não é como um curso de Excel, em que você sabe de início que no final sairá montando planilhas. Quando mergulhamos dentro de nós mesmos procurando entender por que agimos e reagimos assim e não assado, sabemos apenas onde e quando começa. Mas não podemos prever como e se termina.

Foram dias em que não cavei nenhum trabalho novo. Dias em que deixei de acompanhar meu time de futebol no campeonato. Em que não ouvi música, não assisti filmes e nem pude ler textões como esse aqui. Se saiu minha restituição do Imposto de Renda, não fiquei sabendo (update: não, não saiu). Foram dias em que não recebi qualquer notícia das pessoas que mais amo. Ao mesmo tempo, nesses dias percebi com muita clareza quanto amor existe dentro de mim. E também como é possível percorrer essa avenida que é a vida sem jogar o carro no pedestre, avançar o sinal vermelho ou deixar o motor morrer. Não faltaram obstáculos no caminho. Dor, frio, frustração, medo e outros desconfortos, além de uma porção de lembranças empoeiradas que surgiram no retrovisor. Em alguns momentos tive muita vontade de pegar o primeiro retorno e, por isso mesmo, a determinação é um dos mandamentos da prática.

Enquanto escrevo essas palavras, ainda estou processando todas as sensações e sentimentos que vivenciei por lá. Se nas vésperas do retiro imaginava estar indo para a prisão ou exército, depois da experiência parece mais que estive em um colégio interno ou rehab. Adquiri conhecimentos libertadores e fiz uma faxina em uns tantos venenos incubados.

Por ora, tenho pelo menos duas certezas. A primeira é de que vou sentir saudades daquelas pessoas cujo nome eu mal sabia e com quem estabeleci uma conexão tão forte.

vipassana_grupo

A segunda é de que existe um lugar onde posso estar sempre em paz, com conforto e me sentindo livre. Esse lugar não fica a 130 km e sei lá quantas baldeações de distância. Está sempre aqui comigo, onde quer que eu vá. Basta fechar os olhos, focar na respiração e observar as sensações.

vipassana37

vipassana34

vipassana28

Caso queira saber mais sobre o Vipassana, seguem algumas dicas. No Netflix, assista ao documentário “The Dhamma Brothers”, que mostra o que aconteceu quando levaram a técnica para um presídio norte-americano. Você também pode ver essa palestra do TED (com legendas em inglês) ou dar uma lida no relato que a incrível Eliane Brum fez há alguns anos sobre seus dias de retiro. E, caso se interesse mais, dê uma passadinha no site da própria organização.

Todas as outras fotos por Daniel Boa Nova Hypeness  (menos a do grupo, que agora não lembro quem tirou por nós =)

faixa-desafio-hypeness


Daniel Boa Nova

Redator / Roteirista / Produtor de conteúdo

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Bebê com deficiência auditiva ouve mãe pela primeira vez e cai no riso