Entrevista Hypeness

Entrevista Hypeness: fomos conversar sobre arte urbana com o mestre do graffiti Zezão

por: João Diogo Correia

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Quem acompanha o Hypeness, certamente já cruzou com diversos exemplos de que a arte transforma a cidade, que transforma a vida. E se hoje a arte urbana nas metrópoles brasileiras, como São Paulo, é reconhecida internacionalmente, muito deve aos precursores da transgressão que, lá atrás, ousaram fazer das tintas e dos sprays uma forma de expressão. Zezão é uma das maiores referências desses tempos.

Mais do que expressão, a arte foi terapia para o artista que, na década de 90 do século passado, lidava com a depressão e com os problemas que encontrava na periferia de São Paulo. Hoje, diz, as coisas não melhoraram na cidade, mas a arte ainda é um escape para muitos.

Zezão na primeira pessoa:

Hypeness (H) – Como é que a vida na periferia de SP te levou até o graffiti?

Zezão (Z) – O graffiti surgiu da cultura underground nos bairros periféricos de Nova York. Durante muitos anos, eu morei na região central de São Paulo, nos bairros do Brás, Pari e Canindé, que por sinal são bairros que, na época, tinham muitos moradores de rua, pelo motivo de ter dois albergues próximos a minha antiga residência.

Além dos albergues, havia uma pequena favela, na qual eu convivi durante muitos anos com a violência, crime e pessoas muito pobres que moravam por ali. Estes foram os principais fatores que me motivaram a pintar nas favelas, becos e periferias da minha cidade, pois eu também nasci de uma família humilde e tive uma vida muito simples.

H – O que você procurava nessa época? Pintando em lugares sujos, abandonados e alguns até inacessíveis, o objetivo era se isolar do resto da cidade, das pessoas ao redor?

Z – Quando comecei a fazer graffiti, no ano de 1995, o principal objetivo era espalhar a minha marca e meu nome pelos quatro cantos da cidade.

Passado algum tempo, senti a necessidade e importância de me expressar em lugares de regiões mais degradadas, inacessíveis e abandonadas por todos, pois ali eu estava me descobrindo e acreditando que a minha arte poderia transformar aqueles lugares e a energia das pessoas que frequentavam e moravam nesses lugares.

Além de todas essas questões, havia também a repressão e preconceito à arte de rua. Eu também sofria de depressão e por isso decidi, na época, me isolar e usar a arte como terapia e meio de reflexão para todos os problemas que eu enfrentava.

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Foto © Simone Handa

H – Quando você começou a sentir que estava ganhando um espaço próprio e a ser conhecido através do desconhecido?

Z – Demorou muitos anos para eu sentir esta mudança em minha vida e carreira. Em 2003, através da internet, comecei a utilizar as redes sociais para divulgar a minha arte e expressar meus sentimentos por lugares abandonados que eu passava e ninguém conhecia. Eu sentia uma necessidade muito grande de manifestar a minha tristeza ao ver pessoas sem moradia e indignação pelo abandono de muitos lugares importantes da minha cidade.

Meu blog pessoal começou a ter visibilidade, muitas pessoas começaram a ter interesse pelo meu graffiti e consequentemente começaram a surgir oportunidades para eu contar sobre meu trabalho em jornais, programas de TV e revistas.

Através deste pequeno reconhecimento, que eu considero um grande passo em minha carreira, surgiram os primeiros convites para eu expor em galerias de arte e museus.

H – Então já na época a internet teve um papel fundamental. Qual a sua relação hoje em dia com as redes sociais e com o mundo virtual?

Z – Com certeza a internet teve um papel fundamental na minha arte, pois através dela consegui divulgar o meu trabalho, que não era visível a todas as pessoas da cidade. Hoje, eu ainda pinto em lugares abandonados e acredito que a internet continua sendo uma ferramenta muito importante para podermos divulgar e expandir a nossa arte para o mundo todo.

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Foto © Arquivo Pessoal/Zezão

H – Como é que alguém que sempre sentiu a pulsação da rua, a desorganização de recantos esquecidos, lida hoje com o ambiente neo-chic, cool das galerias de street art e com esse novo olhar sobre o graffiti?

Z – Isso é uma coisa simples de explicar e fácil de entender: a rua sempre continuará sendo a rua, com os seus princípios ideológicos de transgressão, de ocupação do espaço público e liberdade de expressão.

Já os ambientes neo-chic e cool das galerias de street art foram adaptações que serviram de ponte entre a arte contemporânea e a arte urbana, revelando um novo cenário e tornando-se um novo mercado. Aprender a circular entre esses dois mundos foi fácil, pois tenho certeza que mantenho as minhas raízes. Além disso, hoje eu desenvolvo outros trabalhos com técnicas e mídias diferentes que vão além do spray que utilizo nas ruas.

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Foto © Arquivo Pessoal/Zezão

H – Considera que hoje o graffiti não é mais uma arte marginal? O que isso tem de melhor?

Z – Eu ainda considero o graffiti como uma arte marginal, porém isto pode ser relativo, pois a essência do graffiti está no fato de ser ilegal. Porém hoje há muitos projetos de graffiti em espaços públicos autorizados, como o caso dos projetos da Avenida Vinte e Três de Maio, realizado no ano passado e o MAAU – Museu Aberto de Arte Urbana, realizado nas pilastras do metrô da Avenida Cruzeiro do Sul, ambos com apoio da Prefeitura de São Paulo.

H – A periferia de SP que você conheceu quando começou a grafitar, na década de 90, é muito diferente da que você vê hoje?

Z – Sim, é diferente, pois hoje está pior do que na década de 90, com muito mais favelas, pobreza e situações muito críticas na cidade de São Paulo.

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Foto © Zé Carlos Barretta/ Flickr

H – Sente que suas obras melhoram os lugares de alguma forma? As pessoas passam a ter mais noção de que eles existem?

Z – Sim, porque é inevitável. Se existe algum lugar sujo, abandonado ou com muros cinza, naturalmente as pessoas passam a notar que alguém esteve ali, deixando uma arte ou colorindo o espaço. Eu sempre pensei que minha arte pudesse transformar os lugares e mudar as pessoas (o modo como elas os enxergam) e noto que isso acontece frequentemente nos lugares onde eu pinto.

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Foto © Simone Handa

H – O graffiti em lugares rejeitados pela sociedade é o seu contributo pra transformar o espaço urbano? O que podem as pessoas fazer pra ajudar também nessa transformação?

Z – Sim, sempre gostei de pintar em lugares inóspitos e rejeitados pela sociedade, e por isso sempre fui considerado uma pessoa que anda na “contra-mão”, e desde então, acredito que pude e posso contribuir para que a sociedade olhe com atenção aos lugares emergentes, como as galerias subterrâneas, periferias, patrimônios históricos que estão em total estado de abandono, viadutos, ruas sujas, entre outros lugares. Acredito que levar a minha arte para este lugar é uma maneira de chamar a atenção de todos e contribuir para que estes espaços fiquem mais alegres e vivos.

As pessoas também podem contribuir com suas artes ou convocando a imprensa para denunciar estes lugares de maus-tratos e “esquecidos” pelo Governo.

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Foto © Simone Handa

H – Qual a importância da arte ser tão autobiográfica como é a sua? Ela acaba sendo mais verdadeira?

Z – Desde que descobri a arte, tive diversas fases e transformações pelo meu trabalho. Testei inúmeras formas, cores, traços, até chegar ao que é hoje. Em 1998, assisti ao filme do Basquiat, que me motivou a ter o meu próprio estilo. Sempre em busca de uma assinatura, porém sempre muito autêntico, me identifiquei com a cor azul, que se destaca nas paredes escuras, onde eu costumo pintar.

Foi aí que comecei a desenvolver estas formas abstratas, porém com a minha caligrafia, utilizando a palavra “vício” em todos os graffiti, utilizando o azul claro para preenchimento e azul escuro para o contorno da arte.

Mas eu também desenvolvo outros tipos de desenhos, como alguns bem coloridos, outros monocromáticos, fotografias autorais, instalações, todos estes autênticos e únicos.

H – A cena artística em SP é cada vez mais agitada e pulsante. Que influência pode ter para um jovem artista viver no seio desses grandes centros urbanos? É mais fácil, ele tem mais referências?

Z – Com certeza. Hoje o que mais vemos é graffiti, informações na internet, fotos compartilhadas e digitais, está tudo muito mais fácil e acessível.

H – Como surgiu o seu grande símbolo, o FLOP? Que significado ele tem, no que toca às cores e formas?

Z – O flop surgiu no ano de 2000, devido a um estudo de caligrafia. Ele consiste na palavra “vício”, que vem da minha antiga pichação.

Embora eu não seja mais um pichador, senti a necessidade de manter esta assinatura em meus graffiti e depois de um grande estudo de caligrafias e cores, batizei o flop com estas letras e cores utilizadas hoje, porém tentando aperfeiçoar os traços cada vez mais, pois a minha arte é abstrata e livre, criada e desenvolvida na hora.

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Foto © Simone Handa

H – Convidou Índio, um ex-morador de rua e viciado, pra trabalhar com você. É uma forma de dar um rosto ao invisível? É também uma lembrança da infância difícil que atravessam muitos jovens brasileiros?

Z – Minha história com o Índio começou no ano de 2012, quando construí o meu estúdio na região da Cracolândia de SP, que foi onde nos conhecemos. Ele me ajudou na reforma do estúdio, e desde então, nos aproximamos e criamos um laço de amizade muito grande. Chamá-lo para trabalhar comigo foi a forma que eu vi para ajudar um ser humano a se resgatar das drogas, incentivá-lo e apoiá-lo a gostar de artes, ocupando a cabeça com coisas boas e do bem.

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Foto © Fernanda Hinke

H – Muito do seu trabalho envolve o reaproveitamento de lixo. Como é que isso começou? O que precisamos fazer pra olhar de forma diferente para o lixo e combater essa cultura de descarte?

Z – Andando nas ruas, percebi que eu podia reaproveitar muitos destes materiais descartados pela sociedade, pois eu sempre pintei em lugares onde havia muito acúmulo de sujeiras, materiais, desmanches e sucatas.

Acredito que se as pessoas perceberem que muitos dos materiais que não servem mais para elas, podem servir para outras pessoas, e vice-versa, teremos mais reaproveitamento e menos desperdício de materiais.

H – Não é curioso que olhemos com desdém para o lixo, mas depois compremos obras com materiais reaproveitados por milhares de reais? O que estamos fazendo errado?

Z – Este é um grande exemplo de como a arte se transforma. No início as pessoas não dão importância ou valor para o material jogado no lixo, mas depois de diversos cuidados com o mesmo, ele passa a se tornar uma obra de arte, com outro aspecto e outra aparência. Acho que devemos olhar esta transformação e aplicá-la no dia a dia, reciclar e recriar é um possível caminho para esta mudança.

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Foto © Simone Handa

H – Onde serão suas próximas exposições?

Z – Estou em negociação para exposições coletivas e individuais para o próximo ano, porém não tenho datas definidas ainda.

H – E o que vem em primeiro no seu coração – a rua ou o atelier?

Z – A rua. Eu cresci e vivi na rua e não há nenhum espaço semelhante ao que ela me proporciona, desde o barulho de automóveis, contato com o público, aproximação de pessoas desconhecidas, receber o sorriso de uma criança ao me ver pintando, tudo isso é incomparável ao atelier, que apesar de fundamental para o desenvolvimento de novas obras, é totalmente diferente da rua.

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Foto © Simone Handa

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Foto © Simone Handa

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Foto © Simone Handa

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Foto: Divulgação

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Foto © Simone Handa

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Foto © Arquivo Pessoal/Zezão

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Foto © Simone Handa

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João Diogo Correia
É português, viveu no Brasil, Itália e Espanha. Fez a melhor viagem da sua vida pela África e agora está de volta a Portugal. Há mais de três anos, começou a trabalhar remotamente, a partir de casa ou em qualquer lugar com wi-fi, e por isso agradece todos os dias à internet.

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