Matéria Especial Hypeness

A geração que está ficando doente por causa do excesso de trabalho

por: Daniel Boa Nova

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Com o que você sonha na vida? Ter uma casa espaçosa com piscina e churrasqueira? Recheá-la com gadgets tecnológicos de última geração? Se possível, ter duas vezes essa casa, uma na cidade onde mora e outra numa praia paradisíaca? E ainda ter na garagem um carrão do ano para poder ir de uma casa à outra confortavelmente?

Se você respondeu que sim às perguntas acima, então seus maiores sonhos envolvem uma coleção de conjugações do verbo “ter” na primeira pessoa. E ninguém está aqui para julgar suas aspirações pessoais. Em maior ou menor preço, sonhos de consumo fazem parte da vida de qualquer um.

Porém, a não ser que tire um bilhete premiado na loteria ou já tenha nascido em berço de ouro, o mais provável é que você só disponha de um meio para buscar tudo que deseja ter: o trabalho. Abro um parêntese para dizer que não desconsidero a existência de uma porção de gente que sonha apenas em ter o que comer. Mas parto da suposição de que não é o caso do leitor e leitora do Hypeness. Fechou parêntese.

Pois bem, o trabalho. Você certamente já ouviu dizer que ele enobrece o homem e tal, uma frase infeliz que muitos repetem sem levar em consideração a labuta das mulheres e o uso persistente de mão-de-obra infantil ainda hoje. O que você talvez não tenha ouvido antes é que a palavra “trabalho” tem origem em um instrumento ancestral de tortura. Está lá na Wikipedia para quem quiser ler.

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Sabendo disso, como vai o seu trabalho? Está mais para experiência enobrecedora ou para tortura? Você faz aquilo que ama muito, sempre aprende algo novo ou, pelo menos, está enchendo o baú de dinheiro? E, se é que está faturando bem, sobra tempo para gastá-lo desconectado do trabalho? Ou o preço de ver a conta no banco engordando é não ter mais tempo livre? Tipo quem, mesmo nos momentos de lazer, pensa, fala e responde a e-mails de trabalho. Não custa nada? Até que ponto isso é saudável?

Virou algo corriqueiro ouvir histórias de gente próxima que precisou pedir licença no emprego por motivos de saúde. Gastrite, pressão alta, colesterol no talo, crises de ansiedade, depressão, síndrome do pânico, síndrome de burnout. Entre o choro escondido no banheiro do escritório e a receita médica é um pulo.

Se essas manifestações de doenças associadas à atividade laboral sempre ocorreram e antes ninguém dava nome, fato é que hoje existe diagnóstico. E o tratamento muitas vezes nem envolve remédio: tem mais a ver com mudança de vida. Quando ela se resume ao trabalho, bingo, o caminho para a cura já está traçado de saída.

Conversei com algumas pessoas que enfrentaram problemas dessa ordem. A primeira delas foi a Marucia, amiga dos tempos de faculdade que, aos 31 anos, descobriu estar vivendo uma Síndrome de Burnout. Por e-mail, ela me contou que na época trabalhava na área de Marketing e seu dia a dia era estressante, com projetos concomitantes em diferentes fusos, uma equipe de 4 pessoas para assistir e muita pressão desnecessária por parte da chefia: “Tudo foi acontecendo gradualmente até o momento em que ficou impraticável (literalmente) levar os trabalhos adiante”.

O cabelo caía além do normal. Seu peso baixara apesar de todas as bobagens ingeridas de forma autoindulgente para aliviar o estresse. Começaram também as crises de insônia, com noites em que só conseguia dormir por 3 horas. Vendo que a coisa podia se agravar, Marucia foi atrás de ajuda: “Os amigos do trabalho entendiam o que eu sentia, mas não tinham muito como ajudar. A família, que estava longe, pedia para que eu fosse ao médico. Quando me peguei sentada, chorando ‘do nada’, totalmente exausta, sabia que aquilo não era passageiro. A médica me disse que eu estava com ‘burnout’ e não soou estranho. Afinal, era isso mesmo: o estresse tinha me ‘queimado’ e já não tinha mais energia”.

No curto prazo, o tratamento passou por antidepressivos em baixa dosagem, higiene do sono (nada de computador na cama, televisão antes de dormir e nem cafeína após o meio-dia) e soníferos para situações extremas. Já no longo prazo veio a mudança fundamental: “Passei a não fazer mais hora-extra e a ser verbalmente clara com as pessoas do meu trabalho a respeito do que estaria disposta a fazer ou não pela equipe. Muitos se chocaram com minha atitude, mas o fato é que nenhum deles podia garantir minha saúde. Só eu podia”.

Após a tempestade, tem alguma recomendação para quem já percebe os sintomas e não sabe bem como agir? “Sugiro que faça uma consulta com um profissional da área médica que seja de confiança. Essa pessoa saberá indicar os próximos passos. Minha experiência é de que o ‘burnout’ é algo totalmente circunstancial, que vem maioritariamente de fatores externos. Quando estes fatores podem ser controlados, se ameniza. O problema é quando entra em uma espiral e tudo passa a afetar emocionalmente. A vida vira um calvário. Assim que os sintomas forem tratados e a pessoa começar a ‘sair do buraco’, sugiro avaliar bem o que a colocou na situação e tentar mudar o ambiente”.

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Se você assistiu ao MasterChef Brasil, então conhece da TV o entrevistado seguinte. Raul Lemos foi finalista na segunda edição do programa. Em um dos episódios, falou sobre como decidiu partir para a carreira na cozinha após anos de experiência no mercado publicitário. O estopim para a mudança? Uma crise de estresse.

Através de um amigo em comum cheguei ao contato dele e combinamos de nos encontrar em uma padaria na Pompeia, zona oeste de São Paulo. Era uma quinta-feira de manhã.

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Raul contou que saiu de Santos com 18 anos para estudar Propaganda na capital paulista. No mesmo ano, começou a trabalhar como Atendimento no mercado de produtoras e agências, só parando ao sofrer um piripaque: “Antes de pintar qualquer possibilidade de rolar o MasterChef já fazia um tempão que eu tava de saco cheio. Sabe aquelas briguinhas de criança? Você sentava com a galera e combinava: vamos fazer dessa forma. Chegava um dia antes de apresentar e não tinha entrega. Parecia que era de propósito”.

Por ter trabalhado uns tantos anos em agência de publicidade, ser casado com uma mulher que trabalhou com isso e ter uma porção de amigos no meio, posso afirmar que o tipo de situação insalubre relatada por Raul é recorrente. É comum departamentos da mesma empresa criarem picuinhas desgastantes alheias ao negócio. Assim como não é raro o dono do negócio olhar somente números e ter ouvidos apenas para notícias positivas sem se preocupar com as relações humanas problemáticas acontecendo debaixo do seu teto: “Aí você sai de uma agência e vai pra outra em que o cliente não sabe fazer briefing, não tem dinheiro mas quer fazer tudo… e a agência não pode perder o cliente. Sobra para o Atendimento surtar, entendeu?”. Infelizmente, sim.

Com turnos que chegavam a 18 horas por dia, Raul começou a ter crises de ansiedade, falta de ar, insônia e sinusite. Semana sim, semana não, ficava resfriado. Foi em meio a uma reunião com cliente que a casa caiu de vez: “Era uma criação de caso desnecessária. Meu dia era coletar evidências para poder dizer ‘desculpa, não fui eu quem fez a cagada’. Uma paranoia. Aí numa reunião comecei a passar mal. Travei”.

Raul saiu no meio da reunião e foi direto para o hospital. Ficou cerca de 5 horas por lá realizando exames e sendo amparado pela equipe de enfermagem: “A rigor, tive uma crise de pressão alta. Foi isso, ansiedade. Aí veio uma médica e falou ‘olha, acho que você devia procurar um psicólogo’. Eles viram que eu estava num estresse totalmente psicossomático.

Passado o susto, Raul acabou se desligando da empresa e tratou de cuidar da saúde. Por indicação de uma amiga, foi se consultar com uma cardiologista conhecida como a “médica dos publicitários”, pois trata de inúmeros casos envolvendo profissionais desse meio: “Cara, a gente tem todo mundo o mesmo problema. Isso é muito louco: todo mundo fica doente igual. Mas é também um erro nosso, porque a gente entra nessa pelo fato de ganhar bem. A coisa do status, isso mexe muito. A gente a todo momento fica preocupado em não perder essa imagem que garante que você vai poder ir no melhor restaurante, viajar pra Europa, que você só pode comprar roupa num lugar foda. Você fica meio prisioneiro e não percebe.

Tirando os remédios que tomou pontualmente para controlar a pressão, Raul não precisou se medicar mais. Seu tratamento foi principalmente à base de exercícios físicos, que lhe permitiram enxugar cerca de 20 quilos. Sem ter um plano concreto e nem estar com a vida ganha, calculou por quantos meses poderia se sustentar com o dinheiro que já tinha. Passou a consumir menos e ainda realizou alguns trabalhos pontuais como consultor de comunicação em home office. Ao mesmo tempo, mergulhou de cabeça nos estudos gastronômicos que possibilitaram sua mudança de carreira. O resto da história pôde ser acompanhada no MasterChef e segue hoje pelo seu canal no YouTube.

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Trabalhar na cozinha está bem longe de ser tranquilo. Talvez a chave no caso do Raul gire em torno de passar a fazer o que ama. O mercado corporativo é cheio de gente que preferiria estar fazendo outra coisa e que só bate ponto ali porque precisa do emprego. Uma pergunta que ajuda bastante a identificar se você faz o que gosta é: você faria mesmo que ninguém pagasse? O exemplo seria um cozinheiro profissional que chama os amigos e prepara algo no seu dia de folga.

Porém, os casos de estresse crônico relacionado ao trabalho não se esgotam apenas nos escritórios. Podem atingir mesmo quem trabalha com aquilo que escolheu na vida e que sempre acreditou ter vocação e propósito para fazer. Nessa semana conversei também por e-mail com a Renata*, que se formou em Enfermagem no ano de 2004 e atua na área desde lá.

Aos 25 anos, Renata trabalhava no pronto-socorro de 2 hospitais, um particular e um público. Somava até 80 horas de trabalho semanais, dormia em noites alternadas e tinha vezes em que, mesmo estando há mais de 30 horas acordada, chegava em casa e não conseguia dormir: “No início, o tesão e a adrenalina em participar do atendimento das emergências disfarçaram os sinais de que algo não estava bem. Mas comecei a me sentir sobrecarregada e cansada constantemente. Era desesperador. Meu corpo estava moído e a cabeça não desligava. Com o passar dos meses, me percebi infinitamente mais irritada, menos paciente, mais agressiva. Atribuía tudo ao fato de dormir menos do que dormia antes”.

Fora os expedientes redobrados, Renata também sofria com as próprias condições de trabalho: “Os plantões no hospital público eram pesados. Em média eu respondia por aproximadamente 60 pacientes. As salas de emergência não eram suficientes para atender a demanda: fazíamos um verdadeiro malabarismo para prestar uma assistência adequada. Poucas noites não tínhamos óbitos”.

Como era de se imaginar, encontrar a morte diariamente no emprego não facilitava em nada o quadro: “Perder um paciente nunca é fácil. Com o tempo e a frequência, aprendemos a lidar. Mas percebi que estava me distanciando de tudo, era como se eu estivesse me despersonalizando. Passei a achar “normal” perder 3 ou 4 pacientes em uma única noite. Essa insensibilidade me confundia pois, ao mesmo tempo que havia estudado e escolhido ser enfermeira para cuidar do outro de forma holística, me culpava por não dar conta de fazer tudo o que eu sabia por todos. Me sentia absolutamente incompetente. Passei a ter crises de choro todos os dias, antes de ir para os plantões”.

Pouco mais de um ano depois de perceber os primeiros sintomas, Renata foi diagnosticada com Síndrome de Burnout pelo médico do trabalho. Para esse médico que cuida de outros profissionais de saúde, deve ser algo fácil de identificar. Como ela me contou, muitos enfrentam crises de estresse. Renata já vivenciou inclusive o suicídio de um colega.

Após pedir demissão do hospital público, ela continuou no particular e começou a fazer terapia. Chegou até a tomar antidepressivo por alguns meses, mas talvez o mais difícil tenha sido aceitar os fatos. Em um comportamento bastante comum a um monte de gente, Renata não conversava com pessoas próximas sobre como estava se sentindo: “Achava que eu poderia suportar sozinha. Me senti péssima por achar que eu não tinha equilíbrio emocional suficiente para lidar com as situações adversas do meu trabalho. Foi difícil eu aceitar que a doença era uma consequência, e não uma escolha.

Com o tratamento que enfrentou e uma série de mudanças nos hábitos e prioridades, Renata se considera curada. Entretanto, permanece atenta a qualquer sintoma. Para ela, o principal é não ignorar os sinais do corpo: O cansaço e a tristeza que nunca passam não são normais. No processo de cura acredito que seja necessário uma mudança na rotina e na forma de agir frente ao trabalho, além de priorizar atividades particulares (hobbies, exercícios,etc)”.

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Já dizia Seu Madruga: “não existe trabalho ruim, ruim é ter que trabalhar”. Tem um fundo de verdade nisso aí. Mas vai explicar ao Sr. Barriga no final do mês. Não existe almoço grátis.

Por outro lado, desequilíbrio faz a gente cair de cara. Trabalhando sem limites talvez seja possível conseguir o suficiente para pagar o aluguel e ainda frequentar áreas VIP, comprar mais roupas do que cabe no armário, dar check-in em restaurantes premiados e pedir o menu degustação para instagramar cada etapa. Já saúde e tempo de vida não se pode comprar.

Surtar é humano. Como o Raul me disse ao final da entrevista, “Com certeza não fui o primeiro e nem serei o último a passar pelo que passei”. Quando o corpo começa a acusar que não aguenta o preço do trabalho, é recomendável procurar ajuda e mudar algum vetor. Até porque, se você ganhar muito dinheiro e não sobrar tempo para gastar, terá valido a pena?

Sempre dá para viver com um pouquinho menos. Quem sabe, grande parte do que você possa querer e sonhar já esteja em suas mãos. Pessoas que te amam, prazer nas pequenas coisas e um cantinho onde se sinta confortável. Como afirmava a máxima grega, “conhece-te a ti mesmo”. Isso sim enobrece qualquer um.

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* Nome fictício

Foto destaque via; Imagem 01 via; Imagem 02 ©Andressa Hillesheim Schell via; Imagem 03 ©Maíra Carvalho via; Imagem 04 Daniel Boa Nova Hypeness; Imagem 05 via; Imagem 06 via; Imagem 07 ©Sara Soderholm via; Imagens 08, 09 e 10 ©Eiko Ojala via; Imagem 11 ©Shadow Viking via; Imagem 12 via


Daniel Boa Nova

Redator / Roteirista / Produtor de conteúdo

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