Desafio Hypeness

O que aprendi depois de 30 dias lutando contra o bloqueio criativo

por: Redação Hypeness

Publicidade Anuncie


Pra quem trabalha com criatividade, o bloqueio criativo é um dos maiores fantasmas. Não existe nada mais desesperador do que uma folha em branco e um relógio que teima em correr mais rápido do que as ideias surgem. Para testar meus limites, resolvi passar um mês escrevendo e publicando um conto por dia – ou melhor, por noite – como uma forma de combater o bloqueio criativo e desenvolver a escrita.

O resultado foi uma porção de insights, descobertas e possibilidades em tudo quanto é campo envolvido com criatividade. Eu sobrevivi e o pessoal do Hypeness me convidou para contar melhor como foi essa experiência.

—> Acompanhe a Revista Farfalhódromo.

EUREKA!

CaueContos1Imagem: Shutterstock

Usualmente associado a escritores, o bloqueio criativo pode acometer qualquer um que depende de “inspiração” para realizar seu trabalho.

Certa vez Steve Jobs disse, em uma entrevista à revista Wired, que criatividade é sobre conectar coisas. Quando você pergunta a pessoas criativas como elas alcançaram determinado feito, elas se sentem culpadas por não acreditarem serem responsáveis pela ideia, pois na verdade apenas notaram algo que pareceu óbvio depois de um tempo.

A questão, abordada pelo escritor Steven Johnson em sua TED Talk sobre o assunto, é que frequentemente associamos o surgimento de grandes ideias a um simples momento de inspiração, uma epifania, em que, EUREKA, a lâmpada se acende em nossas cabeças e a criatividade simplesmente aflora. Surge em um momento de iluminação, quase espiritual, em que jorramos produtividade e qualidade de uma vez só, sem esforço.

A realidade, no entanto, não é bem assim.

Uma grande ideia, na verdade, viria a partir da formação de uma nova rede de neurônios, estabelecendo uma sincronia específica que gera novas configurações. Dessa forma, criatividade não é talento, epifania. É exercício. Podemos acessá-la, como uma ferramenta disponível quando necessária.

Assim, se não estivermos treinados, dispostos e sob algumas condições-chave há uma chance da ideia simplesmente não vir, da criatividade falhar. Porque ela é frágil quando não treinada.

Vale lembrar, no entanto, que a criatividade não é sobre ter boas ideias. Uma pessoa criativa muito provavelmente terá dezenas de ideias péssimas antes de ter uma ótima. Criatividade é o ato de ligar os pontos, de estabelecer conexões em lugares que aparentemente não são conectáveis. E justamente por isso há situações em que as pessoas não se prendem, não se interligam, nada. É como tentar enfiar um cubo no buraco triangular.

É a temida folha em branco.

O bloqueio não é apenas a ausência de uma ideia inicial. As vezes são muitas ideias disponíveis e nenhuma que conseguimos nos comprometer de fato. Ou temos uma grande ideia e não sabemos como desenvolver, como começar. Ou pior, quando percebemos no meio do caminho que há um equívoco e não sabemos como consertar. Ainda mais complicado quando, depois de pronto e finalizado, percebemos que o resultado final ficou ruim e precisamos rever boa parte do processo. E há, claro, a autocrítica e o perfeccionismo que nos impedem de seguir com o projeto.

RESOLVI TESTAR NA PRÁTICA

CaueContos3
Imagem: Shutterstock

Antes de mais nada, olá, tudo bem? Me chamo Cauê e dependo da criatividade para viver. Trabalho em agência e tirar uma certa quantidade de boas ideias do papel todo mês é parte do meu dia a dia. Mesmo sob pressão, mesmo meio de saco cheio, mesmo quando o cliente é muito chato, mesmo quando estou meio pra baixo. Travar no bloqueio criativo não é incomum, faz parte do trabalho.

Paralelo a isso, sempre toquei projetos pessoais, no estilo “meta anual”. Nos últimos dois anos, por exemplo, me comprometi a desenhar todos os dias. Deu certo, foi super legal e pude notar avanços por sinergia no trabalho e na vida pessoal. Subitamente tudo virava motivo para um desenho, um mind-mapping, um rascunho. E isso me ajudou a ser mais criativo, a expor melhor minhas ideias e adotar um modus operandi mais organizado ao mesmo tempo.

Com a chegada do terceiro ano, decidi fazer algo diferente. Queria aprimorar minha escrita.

Veja, eu sempre escrevi direitinho, me gabava do repertório cultural e mesmo do repértorio da própria língua. Tinha na gaveta projetos de romance e umas três vezes por ano eu me permitia escrever um conto, um depoimento, um ensaio. Muito cá entre nós, e espero que você não saia contando isso por aí, eu sempre tive um sonho secreto de ser escritor e ganhar a vida com isso. Eu já sabia que seria difícil, mas praticando quase nunca aí sim seria impossível. SPOILER: ainda não consegui.

Eu escrevia sem compromisso, sem técnica, sem habilidade. E por decorrência disso, escrevia sem estilo, sem continuidade, com preguiça. E dependia de condições ideais de produção para que desse certo. Isolamento, escuro, internet desligada, fone no ouvido, bebida gelada e uma boa ideia, normalmente mastigada na cabeça e no aplicativo de Notas do celular por dias.

Eu tinha um palpite: se eu exercitasse a escrita sempre, poderia lidar melhor com o processo, teria melhores ferramentas no dia a dia e arrumaria menos desculpas para escrever. Projeto é comprometimento, afinal de contas. Assim, decidi que escreveria ao menos uma página de Word toda noite (fonte Cambria, tamanho 12, espaçamento e bordas padronizados). Mas era apenas pra mim. Não havia uma orientação editorial ou compromisso em publicar ou finalizar os textos. Era o puro e simples ato de escrever.

Veja, a prática talvez não forme um escritor, mas um escritor definitivamente não existe sem prática.

MÉTODO, PLANO, E A LIBERDADE DE JOGAR TUDO PRO ALTO QUANDO PRECISAR

CaueContos4

Stephen King, em seu livro Sobre a Escrita, ressalta a importância de deixar uma criação literária “descansar” na gaveta durante um tempo para que possa ser revisada por olhos sem vícios. Acabou que meu projeto ia totalmente contra isso. Mas era como uma terapia de choque. O comprometimento ia muito além da meta de produtividade. Minha ideia era pensar, criar e finalizar um conto ou história curta ficcional no decorrer de 24 horas por um mês. Ao fim eu teria 30 contos em mãos.

O primeiro desafio era o principal: como eu faria para ter uma ideia nova por noite? Não tinha como saber. O que eu fiz foi preparar o terreno com cinco soluções.

Para começar, revivi um pequeno caderno de ideias antigas. Aquela ideia para um romance que nunca saiu, uma frase que anotei na rua, uma premissa mirabolante. Eu tinha pelo menos dez engavetadas e sabia que se não fosse agora elas nunca veriam a luz do dia. Era chegado o momento de desová-las de vez. Foi minha primeira solução.

Em segundo lugar vinham os clichês. Com esse projeto eu finalmente poderia botar para fora o desejo de escrever um conto de terror, uma história infantil, uma história de amor, todos com clichês deliciosos que eu não teria à disposição caso me propusesse a criar um projeto mais longo, planejado e detalhado.

A terceira fonte de ideias eu aprendi com Ray Bradbury em seu livro O Zen e a Arte da Escrita. Em um dos artigos que compõem a obra, ele sugere que se faça uma lista repleta de títulos simples: a porta, o pote, o potro, o outro, o louro, o abatedouro, o bebedouro, o bebê. Tenho uma lista com mais de 500 variações e quando estivesse totalmente sem ideias, um título simples como esses poderiam servir como fagulha para a criação de algo muito maior.

Uma coisa que percebi é que, além do ego e da auto-crítica exacerbada, muitas vezes o que me impedia de avançar era a falta de um ponto de partida. Acostumado a olhar ao redor do meu próprio escritório fica difícil criar alguma coisa sem uma matéria bruta. Se você tentar e exercitar, verá como enredos complexos e originais podem sair de uma única e simples palavra.

Meu quarto input eram dois livros que ganhei e nunca usei para nada. Tinha até um pouco de preconceito, mas em uma última situação de desespero eles poderiam servir como coringa. O primeiro era o “642 things to write about“: centenas de mini-desafios e propostas para escrever. Acabou que eu não usei na íntegra nenhuma das ideias, mas pelo menos em duas oportunidades eu parti do livro para acabar desenvolvendo uma história totalmente diferente. Mas tudo começou ali. O segundo livro era o “Amazing Story Generator“, que é um flipbook voltado para escritores com ideias relativamente simples, quase infantis, em que é possível combinar um personagem, um cenário e um plot, gerando milhares de premissas. Eu já havia partido dele uma vez, antes do projeto, quando escrevi o conto sobre o homem mais velho do mundo. A verdade é que dificilmente você acaba usando a ideia que surgiu ali. Em todas as vezes que utilizei acabei com uma versão diferente, mais lapidada e até distante da ideia original.

CaueContos2

Vocês acham que é roubar no jogo?

Em minha defesa, quero alegar que o recurso de criação de ideia que acabou sendo o mais recorrente foi o quinto: o caos. Ideias que vieram a surgir no próprio dia em que comecei a escrever.

Tenho uma pasta de rascunhos com mais de 60 páginas não utilizadas durante o último mês. Todos os dias eu comecei pelo menos dois textos diferentes até chegar à versão que seria finalizada. Teve um dia, se não me engano o sexto, que comecei cinco histórias diferentes.

PEQUENA GRANDE LISTA DE APRENDIZADOS

Imagem: Shutterstock

Mesmo munido de tanta estratégia e boa vontade não foi fácil concluir o projeto. Alguns dias eu achei que não conseguiria, outros em uma hora já tinha o texto pronto. Quase desisti mais de uma vez e me contentei com algo que não gostei em várias ocasições. Mas aprendi um monte. Pequenas lições e macetes que levo pra vida. Listo algumas aqui.

1. LIKES SÃO MUITO LAST WEEK
Aprendi a não me apegar à quantidade de leituras e potencial de cliques e viralização. Os textos em que mais me preocupei com isso foram os de menor repercussão. Os que eu escrevi mais livre, leve e solto foram os mais lidos.

2. O PONTO FINAL
Não tem problema começar uma, duas ou três vezes. Mas depois de passar do terceiro parágrafo de uma história, é muito importante terminar, chegar ao ponto final. Algo que parece sem rumo e perdido pode ser editado e revisto depois do ponto final. Em várias ocasiões reescrevi contos quase por completo depois de uma primeira versão. Tudo no mesmo dia.

3. CONFIE NO SEU TACO
Confie na sua criatividade, mas cuidado com a insegurança. Quase deixei de publicar algo por achar ruim, mas depois vi que era uma história legal. É praticamente impossível ter um olhar imparcial sobre algo que você acabou de escrever.

4. ANSIEDADE É A MAIOR INIMIGA
Muitas vezes a cabeça funciona mais rápido que os dedos digitando. Algumas vezes senti que a coisa não fluía por eu estar ansioso, com vontade de botar tudo pra fora antes de esquecer. Dar uma pausa, tomar um banho ou esfriar a cabeça (lendo alguma coisa, por exemplo) me ajudou a organizar as ideias.

5. O VALOR DO TEMPO
Tenho duas filhas, trabalho muito e tempo se tornou algo muito precioso em minha vida. Quando eu era mais jovem e sem tantos compromissos, não valorizava. Hoje cada hora disponível para criar é aproveitada intensamente, de forma muito produtiva. Dê valor ao tempo que você tem.

6. NÃO PARE
Escrever, escrever e escrever pode resultar em muitos textos ruins, mas sem dúvida você será um escritor um pouco melhor a cada ponto final.

7. ABRINDO ESPAÇO NO HD MENTAL
Poder desovar ideias antigas e gastar todos os clichês que eu sempre quis descrever na vida foi muito libertador e libertou minha mente para muitas ideias novas.

8. SINERGIA
Criar e escrever essas histórias me tornou mais criativo no trabalho. Me sinto menos travado para desenvolver ideias por texto, com mais repertório, agilidade e menos auto-julgamento para botar o que penso no papel.

9. FOCO
Muitas vezes o projeto me ajudou a focar no trabalho. Salvo meus arquivos no Google Drive, acesso de qualquer lugar. As vezes ficamos sobrecarregados e perdidos, sem saber o que fazer no trabalho. Abrir o texto do dia e escrever por dez minutos me ajudou a voltar ao foco original e finalizar minhas tarefas com menos sofrimento.

10. POTENCIAL CRIATIVO
Parece que virei uma chave após trinta dias perseguindo boas histórias desesperadamente. A maneira de ver o mundo muda, pois de repente tudo é fonte para uma história. As pessoas discutindo no café em que estou sentado agora. A discussão dos vizinhos em plena madrugada. A briga do motorista de ônibus com o cobrador.

11. TOME NOTA
Óbvio. Eu uso um caderno, mas a melhor ferramenta para mim continua sendo o aplicativo de Notas do celular. Algumas vezes eu escrevi o primeiro rascunho da história no ônibua mesmo.

12. NENHUMA HISTÓRIA É MELHOR DO QUE A SUA PRÓPRIA
Cada um dos 30 textos que escrevi, mesmo os mais non-sense de todos, contava com algum aspecto da minha vivência pessoal. Algum medo, algum causo, alguma situação constrangedora. Essas são as fontes de histórias mais ricas em detalhes que podemos ter acesso. E são elas que trazem uma credibilidade inquestionável ao que queremos contar.

Quer ler os textos do projeto? Os links estão, abaixo. Escolha um, escolhe vários ou escolha todos. Divirta-se 🙂

1. Melhor não falar sobre mamãe
2. Hoje não te encontrei em casa
3. Monstro Monstrinho
4. Cinco portas para o inferno
5. Notas sobre um desastre urbano
6. O amor da sua vida pode passar por você nesta tarde
7. P de Pederasta
8. Bunda Kid
9. Você não é mulher pro Laion
10. O insólito encontro de Ênio com a Cigarra Farfalhante
11. Amado não quis abraçar
12. Menina de Barro
13. Final feliz a beira-vômito
14. O pé
15. Peixeira no bucho de Belzebu
16. Amputem meu coração também
17. Amâncio comeu os lábios
18. O jornalista incompetente
19. Raiz de Cabreúva
20. Nunca encare seu reflexo
21. O último suspiro da dragoa-mãe
22. Todos os cadáveres da minha vida
23. Narinas Sensíveis
24. Horizonte Profanado
25. Como nascem as grandes ideias
26. A mesma roupa de Gerson
27. Existe vida social depois da paternidade
28. Sociedade Secreta dos Homens Brancos
29. Amaranta contra o gigante Alberto
30. Fim de mundo para Felícia

faixa-desafio-hypeness


Redação Hypeness
Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.