Entrevista Hypeness

Entrevista Hypeness: fomos conversar com o casal que está navegando pelo mundo com as duas filhas

por: João Diogo Correia

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It’s a Necessity” (“É uma Necessidade”) é o nome do projeto de EbenGenevieve Stolz, um casal canadense que assim deixa bem claro o papel das viagens em suas vidas – imprescindível.

Juntos eles sonhavam navegar pelas águas do Caribe, fazer amigos marinhos e deixar que a vida tomasse o rumo que os ventos quisessem. Mas, há 5 anos, Genevieve engravidou e a decisão precisou ser tomada: ou assentar, ter um emprego fixo no Canadá e seguir o padrão daquilo a que chamamos de “vida normal” ou encarar a aventura como uma oportunidade para a criança que estava prestes a nascer. Uma delas soa bem mais entusiasmante que a outra e eles não hesitaram.

Nunca são tempos fáceis para os que ousam fazer diferente e, por isso, quisemos ouvir (ou, no caso, ler, já que a entrevista foi feita por e-mail) o que o casal tinha para dizer sobre o rumo que escolheu há 5 anos e que o tem levado por diferentes mares. Eles, hoje com duas filhas, respondem abaixo:

Hypeness (H) – Quando e como vocês tomaram a decisão de desistir de “uma vida normal”?

Eben e Genevieve (EG) – Antes de a gente casar, o Eben tinha terminado seu verão em um trabalho bastante lucrativo, mas que ele odiava. Ele estava procurando a “aventura seguinte” e pensou: por que não dar uma chance para navegar? Ele nunca tinha colocado um pé num barco! Foi para Miami com um amigo, viram um par de barcos, leram uns livros sobre navegar, e partiram. Eles planejaram navegar por 2 anos mas ficaram sem dinheiro ao fim de 6 meses! (Navegar pode ser caro se você tiver que fazer muitas reparações). Deixaram o barco num ancoradouro nas Bahamas e voltaram para “o mundo real”.

Avançando 3 anos, a gente se casou, e já tínhamos pago mais pelas taxas de armazenamento do nosso barco do que o que pagamos para o comprar. Então percebemos que ou o vendíamos ou o usávamos. Arrumamos nossas coisas, com a nossa filha de 9 meses, e saímos no que seria uma viagem de 1 ano – e agora estamos há mais de 5 anos navegando!

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H – Qual foi a reação de seus amigos e família e qual a melhor forma de lidar com isso? O que devemos dizer para quem nos ama, mas não entende nossas escolhas?

EG – A parte mais difícil para nossas famílias é que não era só eu e o Eben viajando, eram também os bebês. Foi essa a primeira razão para criarmos um blog e uma página de Facebook. Percebemos que, já que estávamos levando os netos para climas mais quentes, o mínimo que poderíamos fazer era compensar com novidades das nossas aventuras.

A gente também tem a sorte de conseguir ver nossa família pelo menos uma vez por ano. A gente meio que virou hot spot de férias, como que você rejeita alojamento gratuito no mar do Caribe?

Nossas famílias entendem que a gente tem um grande amor pela viagem, que é parte do que a gente é, e uma grande parte do que nos faz feliz. Tirar a viagem da gente seria tirar uma parte muito importante daquilo que somos.

H – Onde já estiveram com as crianças nesses 5 anos?

No barco a gente passou por: Miami, Florida, Bahamas, muitas das ilhas. República Dominicana, Porto Rico, as Ilhas Virgens Espanholas e as Americanas. Mas também fazemos viagens comuns, sem o barco, como levar nossas filhas ao Canadá pra visitar a família, ao Havaí, Haiti, ou Equador.

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H – Como é a rotina de vocês (se é que existe uma)?

EG – Com crianças pequenas, rotina significa muito. De manhã, a gente toma o café da manhã e fazemos trabalhos escolares. Eu me sento com cada uma delas e trabalhamos durante cerca de 30 minutos. Depois a gente vai brincar no barco ou fazer artesanato até elas pararem para uma sestinha de 2 horas. Depois vem o almoço e, de seguida, está liberada a brincadeira ao ar livre. Isso normalmente significa algumas horas brincando na praia, fazendo snorkeling, nadando, e por aí vai. Pelas 17h a gente volta para o barco e começa preparando o jantar. Nossas noites ainda incluem mais diversão, por vezes um filme, uma história, e depois preparar as garotas para dormir perto das 20h. Depois disso, eu e o Eben ainda assistimos um filme, passamos algum tempo online, ou ficamos conversando no barco e aproveitando o ar livre.

Claro que isto pode variar se tivermos que ir na cidade fazer compras, ou se tiver barcos perto com outras crianças, para que todas possam brincar juntas.

H – Vocês planejam navegar até que as suas filhas se tornem adultas ou pousar em um lugar? Temem a adaptação delas a um outro lugar mais convencional?

EG – Eu acho que por já termos viajado tanto, basicamente suas vidas inteiras, elas são as pessoas mais adaptáveis que eu conheço. Elas estão acostumadas a acordar de uma sesta e estar numa nova ilha. Ou chegar em um país onde a língua é nova e precisam aprender os costumes e cultura. Elas aprenderam que não precisam de uma casa gigante para serem felizes, e que podem encontrar essa felicidade em qualquer lugar que vão.

Eu não sei quanto tempo mais a gente vai ficar navegando. A gente sempre foi viajante, não só em barcos, e estamos sempre abertos a novas possibilidades e aventuras. Se algo interessante aparecer, em terra, vamos considerar também. Nossas filhas passaram 6 meses vivendo em terra na República Dominicana. A gente as matriculou na escola, e depois das atividades escolares, elas nunca tiveram problemas para se adaptar.

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H – O que é que uma criança aprende estudando em casa, em família, que não aprende na escola? E viajando?

EG – Educação em casa deu a nossas meninas a vantagem de aprenderem em seu próprio ritmo. Elas enxergaram que se sentarem e se concentrarem, conseguem andar bem rápido, e eu não as freio. É por isso que nossa filha de 5 anos já quase terminou a educação básica.

Fora da parte escolar, nossas meninas aprendem a abrir a mente. Elas são garotas fortes e confiantes, que eu sei que terão suas próprias aventuras um dia.

H – O que é mais entusiasmante para as meninas?

EG – Elas amam nadar, fazer snorkel, kiteboard, pescar com o pai, subir árvores, e achar animais inusitados no mar.

H – Elas têm noção de quão diferente é o dia a dia delas comparado ao das crianças no Canadá, por exemplo?

EG – Elas não sentem que a vida delas seja muito única. E também não sabem muito sobre como é o cotidiano de uma criança num lugar mais convencional. Pelos filmes, ela já perceberam que não sabem algumas coisas, como andar de bicicleta ou de patins no gelo, mas explicamos para elas que, em compensação, elas sabem pescar e fazer snorkel.

H – E é fácil para elas fazer amigos na estrada?

EG – Nós nos cruzamos com muitos outros barcos de famílias. E quando isso acontece, tentamos passar um tempo com essas pessoas. Quando não, elas sempre arrumam um jeito, nem que seja brincando com filhos de turistas na praia.

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H – Vocês precisam de muito dinheiro para continuar viajando? Qual a diferença financeira caso estivessem no Canadá?

Uma das razões pelas quais a gente está velejando no sul é o fato de nosso dinheiro valer mais aqui. No Canadá, a gente precisaria trabalhar constantemente para aguentar os custos. Ficar num barco pode ser caro se você tiver muitas reparações para fazer, mas uma vez que você completa essa parte, as únicas coisas que sobram para pagar são comida e água

Começamos a viagem com nossas economias, depois elas começaram a acabar e vendemos nossa casa no Canadá para continuar velejando por aí. O Eben também fez uns bicos, ajudando outros velejadores, só para ter uma renda extra.

H – Existem formas de continuar ganhando dinheiro vivendo num barco? Que papel pode ter a internet nisso?

Sim, existem muitas formas de o fazer. Você pode fazer trabalhos no barco, como reparações, ou pode trabalhar em terra, como garçom, barman, qualquer coisa. Ou se você tiver licença de marinheiro ou conhecimento sobre barcos, também existem opções nessa área.

Eu conheço algumas pessoas que fizeram algum dinheiro através de blogs e da internet, mas é um trabalho full time também. Se você quer fazer dinheiro com isso, precisa passar muito tempo na frente do computador. Com duas crianças, eu não tenho muito tempo para isso.

H – E quais são os maiores desafios e recompensas de viajar com elas?

Uma das mais difíceis é que sua rede de contatos fica muito menor. Esqueça ligar para uma babá ou deixar as crianças com os avós, você está por sua conta. As pausas são muito menos.

Mas isso também é a melhor parte. Não são muitos pais que conseguem passer 24 horas por dia, 7 dias por semana, com seus filhos. A gente tem estado com elas o tempo inteiro, desde os 0 aos 5 anos de idade. Isso cria uma ligação que ficará para sempre.

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H – Consegue lembrar de um momento especial que ilustre estes 5 anos?

Certo dia um amigo nosso chegou no nosso barco e perguntou se a Arias (nossa filha de 5 anos) estaria interessada em experimentar seu hookah (um tubo acoplado a um regulador que empurra o ar – você coloca na sua boca e pode nadar sem precisar vir a superfície para respirar). Muitos adultos têm dificuldade para usar o hookah, é difícil acreditar na ideia de respirar debaixo d’água sem um reservatório, mas a Arias colocou o regulador e começou nadando como uma sereia.

Isso foi uma prova de que viver a vida como nós fazemos, mostrando novas possibilidades para as nossas filhas, é a coisa certa a fazer.

H – E momentos assustadores e divertidos, tiveram muitos?

Quando começamos navegando, eramos muito inexperientes. Na minha primeira viagem das Bahamas para Miami, tentamos manter um horário, então precisávamos estar em Miami em uma certa data. Isso nunca é boa ideia. Tivemos um problema atrás do outro e nos colocamos em situações complicadas. Por conta dessa viagem horrível, aprendemos que uma das regras é “nunca navegar com um horário ou data fixa”.

As experiências divertidas são quando as pessoas nos perguntam quais são nossos planos e a gente fala que NÃO TEMOS NEM IDEIA! Isto acontece uma e outra vez e sempre me faz rir, porque a gente parece completamente louco para a maioria das pessoas. Mas para nós só faz sentido fazer planos uns meses antes.

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H – A história de vocês tem inspirado muita gente. O que diriam para alguém com medo do desconhecido?

Faça já! Não deixe seus medos te travarem, porque por mais assustador que pareça, você nunca sabe o que te espera e não vai querer viver com arrependimentos.

A navegação é um mundo bem incompreendido para muitas pessoas. Eu gostaria de deixar claro que a gente não está sozinhos no meio do oceano, sendo egoístas ou privando nossas filhas de um crescimento normal. Nossas filhas têm muito contato com outras crianças, e, por cima disso, a oportunidade de viver aventuras que muitos adultos nunca viverão. Estamos oferecendo a elas um pedaço do mundo.

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Você pode acompanhar as aventuras dessa família inspiradora no site, Facebook e Instagram do projeto “It’s a Necessity”.

Todas as fotos © It’s a Necessity


João Diogo Correia

É português, viveu no Brasil, Itália e Espanha. Fez a melhor viagem da sua vida pela África e agora está de volta a Portugal. Há mais de três anos, começou a trabalhar remotamente, a partir de casa ou em qualquer lugar com wi-fi, e por isso agradece todos os dias à internet.

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