Especial David Bowie: o legado de um herói

Levantar um panorama objetivo e factual a respeito do impacto de David Bowie sobre o mundo seria impreciso, inócuo e, acima de tudo, necessariamente pouco. Para isso temos o Google e os milhares de artigos escritos desde que ele faleceu.

Ainda que tudo seja verdade, nada a respeito de David Bowie tem a ver com a banal objetividade – tudo nele transcende o próprio objeto, a obra, aquilo que esperaríamos de um cantor de rock. Tudo transborda sobre o mundo inteiro. Se há um artista dentro da música pop que anteviu a mistura de estilos, o fim das fronteiras nas artes, a simbiose absoluta entre o mundo da moda e da música, a questão dos gênero e a afirmação das diferentes sexualidades – e que ajudou a combater os insistentes preconceitos contra as identidades sexuais diversas – até o impacto gigantesco que a internet viria a ter sobre a indústria fonográfica, esse artista foi David Bowie.

BOWIEROSTO

Para os que chegaram há pouco no mundo, pode parecer descabido ou sem propósito os enormes adjetivos e tributos na direção de um cantor e compositor. As cenas nas ruas de Brixton, bairro de Londres onde nasceu – em que milhares de pessoas se reuniram na rua para cantar, beber e chorar em sua homenagem – no entanto, falam por si só.

Todo artista que se preze ofereceu palavras tributárias e comovidas para a falta que Bowie fará. E a razão para esse possível estranhamento por parte dos mais jovens (ou mais cínicos) é sintomática de nossa época. Segunda-feira passada morreu um raro exemplar de artista, que cada vez mais parece mesmo de outro planeta: o artista que importa de verdade, não só por vender milhões de discos ou servir de trilha sonora efêmera, mas por ter de fato transformado vidas, mundos e sonhos.

Bowie provavelmente é o artista mais “artístico” que já cantou em um microfone, e o legado de seu impacto sonoro, visual, político e comportamental é sem precedentes

Por anos durante a década de 1960, Bowie – nascido David Jones – tentou alçar voo com uma sonoridade calcada fundamentalmente no tipo de rock em voga na época. Não deu certo. Bowie chegou a desistir da carreira na música para se tornar mímico e ator – coisa que, direta ou indiretamente, jamais deixou de ser.

Contudo, seria preciso mais do que embarcar em uma onda já existente para trazer David Bowie à luz dos olhos do mundo – seria preciso inventar o próprio personagem David Bowie, para muito além do ser humano David Jones, que, dentro dele, traria ainda diversas outras personas.

O jovem David Jones e seu primeiro disco, já como David Bowie.
O jovem David Jones e seu primeiro disco, já como David Bowie.

Em 1969, Bowie lançou sua primeira canção de sucesso, dando início à tônica do que viria ser essa sua próxima vida: “Space Oddity“. A canção versa sobre um astronauta que corta comunicação com a Terra e sai a vagar pelo espaço, num melancólico suicídio estelar. Inspirada no filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço“, de Stanley Kubrick, e lançada somente cinco dias antes da decolagem da Apollo 11 (missão que levaria o homem pela primeira vez à lua), Space Oddity foi utilizada pelo canal inglês BBC como trilha para os primeiros passos de Neil Armstrong em solo lunar. A partir daí, o personagem David Bowie – e seu estranho humor, sua melancolia reveladora, seu generoso olhar sobre as estranhezas das pessoas – jamais deixaria de fazer parte do cenário artístico mundial.

Capa do disco Space Oddity
Capa do disco Space Oddity

Em seguida Bowie lançaria sua primeira obra prima, o disco Hunky Dory,  com clássicos como “Changes” e “Life on Mars”. É nele que Bowie começa a tocar nos temas que se tornariam caros e permanentes em sua obra, como o espaço, vidas alienígenas, o estranhamento diante da vida e a sensação de não pertencimento que trazemos dentro de nós.

Capa do disco Hunky Dory
Capa do disco Hunky Dory

Bowie, na época do Hunky Dory, antes de se tornar Ziggy Stardust
Bowie, na época do Hunky Dory, antes de se tornar Ziggy Stardust

O disco que enfim alçaria Bowie ao olimpo dos cantores de rock, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars, de 1972, foi lançado em um momento cultural árido e difícil. O sonho hippie do final dos anos 1960 havia se transformado em uma realidade muito mais dura do que florida. A continuidade da Guerra do Vietnã – e os milhares de mortos que se acumulavam nesse conflito sem sentido -, a vitória do conservador Richard Nixon para a presidência americana, a morte de ícones como Martin Luther King Jr. e Bob Kennedy, o assassinato de um jovem em um show dos Rolling Stones, o amargo fim dos Beatles, e muito mais, indicavam a contundência da famosa frase de John Lennon: o sonho havia acabado.

A utopia Flower Power de uma sociedade livre em comunhão se tornara então uma cinza desilusão juvenil. Sob o efeito dessa desilusão, os heróis do Rock da década anterior agora isolavam-se em mansões, nos frios concertos em estádio, e na empáfia dos cachês milionários. Foi nesse cenário que Ziggy Stardust pousou por aqui.

Capa do disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars
Capa do disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars

O disco conta a história de um rockstar alienígena e bissexual, que vem à Terra trazendo uma mensagem de esperança, paz e amor para a humanidade através das mais diversas liberdades: sexuais, de gênero, de comportamento. Andrógeno dos pés à cabeça, Ziggy é meio homem, meio mulher, com os cabelos vermelhos, o rosto coberto por maquiagem pesada, brincos nas orelhas, roupas femininas coladas ao corpo, ofertando também uma mensagem de libertação sobre as próprias estranhezas que todos nós carregamos. Tanto as mulheres quanto os homens desejavam ser e ter Ziggy. Segundo a narrativa do disco, ele, no entanto, acaba destruído pelos próprios fãs que inspirou.

No álbum encontram-se alguns dos maiores clássicos da carreira de Bowie, como “Ziggy Stardust”, “Starman”, “Moonage Daydream”, “Suffragete City” e “Rock n’ Roll Suicide”, e é até hoje considerado um dos grandes discos da história do Rock. Nele, Bowie canta com o coração na garganta, de forma visceral e impactante, e a sonoridade e a singularidade do estilo de composição até hoje se sobressaem.

Bowie "parindo" Ziggy Stardust
Bowie “parindo” Ziggy Stardust

Ziggy Stardust, já na Terra
Ziggy Stardust, já na Terra

Com seu enorme sucesso, Bowie passou então a se apresentar e se comportar como sendo de fato Ziggy Stardust. A chegada em cena do personagem é significada principalmente pela icônica apresentação da canção Starman no programa de TV Top Of The Pops. Tal qual a primeira vez dos Beatles na TV americana, ou Michael Jackson estreando “Billie Jean” e fazendo pela primeira vez seu moonwalk, depois daquela apresentação de Starman na TV tudo mudou. No dia seguinte os jovens queriam tingir seus cabelos, se libertar das amarras sociais e morais, para se tornarem um pouco Ziggy Stardust.

Do vazio brotava então um novo sentido para o Rock, mais dramático, teatral e ambíguo, e novamente profundo, libertador, acendendo aquilo que mantém até hoje esse estilo vivo: as entranhas em fúria da juventude, tenha essa juventude a idade que tiver.

Bowie ainda lançaria mais um disco como Ziggy, o incrível “Aladin Sane” (estampando em sua capa a icônica foto de Bowie, ou melhor, Ziggy, com um raio no rosto). No entanto, no meio de uma apresentação em Londres, ao fim da turnê, ele anunciou para a plateia que aquela era não só a última apresentação da turnê, como a última que fariam.

Muitos pensaram ser essa uma declaração de aposentadoria. Na realidade, Bowie estava simplesmente matando Ziggy Stardust ao vivo, na frente do público, como em um espetáculo teatral de fato. Seguir sugando o sucesso alcançado com sua persona extraterrena era uma opção segura, mas driblar as expectativas e não se acomodar se tornariam marcas registradas fundamentais de sua trajetória dali pra frente. Não seria mais possível jamais saber o que esperar de Bowie. Contrariar o que seu público poderia querer é o que faria esse mesmo público seguir o desejando por toda sua carreira.

Capa do disco Alladin Sane
Capa do disco “Alladin Sane”

Mas, principalmente, a missão de Ziggy Stardust (e de Bowie pelo resto da vida) foi a de provocar, driblar e expandir todas as barreiras de atuação de um artista, e consecutivamente tencionar os próprios limites que os sempre tão caretas padrões de comportamento e opinião impõem sobre nós. Não por acaso, a atuação de Bowie como artista se tornaria importante para os homossexuais, os transexuais, os negros, os marginalizados, os freaks e as mulheres.

E Bowie de fato foi muitos – segui-lo era tarefa árdua, por um labirinto sem mapas. Migrou do rock para o soul, para o funk e a música negra em geral – lançando, no disco “Young Americans”, sua primeira canção a alcançar o topo das paradas americanas, “Fame”, em parceria com ninguém menos que John Lennon.

Capa do disco Young Americans
Capa do disco Young Americans

Bowie, Yoko Ono e John Lennon
Bowie, Yoko Ono e John Lennon

Bowie anteviu também a temática punk, não só em sua aparência como no discurso de caos urbano e niilismo do disco “Diamond Dogs“.

Bowie na época do seu disco Hunky Dory
Bowie na época do disco Hunky Dory, antecipando a maneira como os punks viriam a se vestir somente anos depois.

Já no disco Station to Station, ele ganha nova vida, tornando-se o Thin White Duke, um personagem impecavelmente vestido, que cantava intensamente canções de amor mas não sentia nada por dentro – um “aristocrata louco, um zumbi amoral, gelo disfarçado de fogo”, como o definiu Bowie.

Bowie encarnando o Thin White Duke
Bowie encarnando o Thin White Duke Capa do disco Station to Station
Capa do disco Station to Station

Bowie migrou para a Alemanha, e lá trabalhou com Brian Eno e Iggy Pop em sonoridades abstratas e eletrônicas, lançando três discos que ficariam conhecidos como a Trilogia de Berlim: Low, Heroes e Lodger. Sua presença por lá acabou impactando até mesmo sobre a derrubado do muro de Berlim, muitos anos depois (como o próprio governo alemão reconheceu em sua mensagem de lamento por sua morte), através principalmente da canção “Heroes“, composta e gravada na Alemanha – que se tornaria espécie de hino do movimento pelo fim da separação no país.

A Trilogia de Berlim: Low, Heroes e Lodger
A Trilogia de Berlim: Low, Heroes e Lodger

Com Iggy Pop em Berlim. "A amizade de David foi a luz da minha vida. Nunca conheci ninguém tão brilhante. Ele foi o melhor", disse Iggy

Com Iggy Pop em Berlim. “A amizade de David foi a luz da minha vida. Nunca conheci ninguém tão brilhante. Ele foi o melhor“, disse Iggy.

"David Bowie. Você agora está entre heróis. Obrigado por ajudar a derrubar o muro"

“Adeus, David Bowie. Você agora está entre heróis. Obrigado por ajudar a derrubar o muro”

Nos anos 1980, retornando ao pop, migrou mais uma vez, agora para uma sonoridade dançante e vibrante, e com o disco Let’s Dance (o mais vendido de sua carreira), Bowie se tornaria enfim o mega astro que jamais deixaria de ser, alcançando também sucesso de vendas impressionante.

Capa do disco Let's Dance
Capa do disco Let’s Dance

Como se não bastasse, Bowie foi também revolucionário para o mundo da moda – basta olhar alguns de seus figurinos para compreender o porquê – derrubando de vez qualquer fronteira entre a música e o universo fashion. Não por acaso, Bowie tornaria-se paradigma para grande parte dos artistas de hoje, que utilizam figurinos como importante aspecto de sua performance.

Exemplos do impacto de Bowie sobre o mundo da moda
Exemplos do impacto de Bowie sobre o mundo da moda

Foi ator, e dos bons, foi pintor, era um grande cantor, e um compositor singular e incrivelmente versátil. Em 2002, Bowie mostrou que continuava a frente de seu tempo na maneira de ver o mundo: “A música será como água ou luz elétrica. Não sei nem se direitos autorais continuarão a existir. É incrivelmente excitante, mas tanto faz se você acha isso excitante; é o que vai acontecer”, ele disse, com toda razão.

Trabalhos de Bowie como ator. No alto, à esquerda: interpretando Andy Warhol no filme "Basquiat"; no alto, à direita: Bowie no filme "Labirinto"; embaixo, à esquerda: como um alienígena no filme "O homem que caiu na Terra"; embaixo, à direita: como Pôncio Pilatos no filme "A Última Tentação de Cristo", de Martin Scorcese
Trabalhos de Bowie como ator. No alto, à esquerda: interpretando Andy Warhol no filme “Basquiat”; no alto, à direita: Bowie no filme “Labirinto”; embaixo, à esquerda: como um alienígena no filme “O homem que caiu na Terra”; embaixo, à direita: como Pôncio Pilatos no filme “A Última Tentação de Cristo”, de Martin Scorcese

Pela diversidade de estilos que atravessou – e pelo enorme sucesso que obteve em quase todos eles – é virtualmente impossível encontrar hoje um artista que não tenha sido direta ou indiretamente influenciado por Bowie. Toda sua trajetória foi conduzida sem qualquer concessão comercial ou mercadológica, e sem abandonar o sentido desafiador que fez de seu legado um dos mais importantes da história da música. “O que Elvis foi para os Estados Unidos, Bowie foi para a Inglaterra e para a Irlanda. Uma completa mudança de consciência”, disse Bono Vox, do U2.

Bowie e seu sorriso inconfundível
Bowie e seu sorriso inconfundível

Sua morte pode ser vista como uma peça final da ópera que Bowie construiu para toda sua vida. A sincronia com que lançou seu último disco, “Blackstar”, no mesmo dia em que completou 69 anos, junto do impressionante e belo testemunho do clipe “Lazarus” (“Olhe aqui pra cima/ Estou no paraíso/ Eu me libertarei” canta Bowie) faz o fim de sua vida também parecer uma perfeita encenação metafórica – a plena afirmação de que artista ele foi.

Diante do que todos pensaram ser um retorno aos olhos do mundo, ele mais uma vez nos lembrou que não poderia jamais ser domado – que até o fim não faria o que dele poderíamos esperar. O disco e o clipe eram na verdade uma bela, elegante e cruelmente sincera despedida. Bowie jamais facilitou para seu público, sempre iluminando as sombras dos nossos sentimentos, nossas dores, nossos amores – mesmo se essa dor for o amargor de sua própria ausência. Como disse o grande diretor de teatro brasileiro Zé Celso Martinez Correa, David Bowie criou “o poema de sua própria morte.

LazarusE1

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Bowie no clipe de Lazarus

Pelas redes sociais, o que pode se ver entre os fãs foi a sensação de um hiato não só no cenário artístico, mas na vida das pessoas (feito como perdessem de fato um amigo pessoal). Pois talvez tenha sido Bowie quem melhor ofertou o sentido mais nobre que o rock, a canção, o pop e, por quê não dizer, a arte pode ter: tornar nosso estranhamento (atávico, profundo, inevitável e incontornável) diante da vida – e da vida diante de nós – em algo afirmativo, suculento, sexy, denso e voraz. Fazer daquilo que de fato somos algo forte e vivo, em oposição proposital àquilo que “deveríamos” ser (e a todos os horrores do mundo), dando voz aos aos que não se encaixam, que se sentem estrangeiros (alienígenas) diante dos opressores padrões morais, sexuais, comportamentais. Em Bowie, o não pertencimento se tornou uma joia, algo especial.

É uma história que vai se acabando, desses heróis, e Bowie talvez fosse o mais elegante e, ao mesmo tempo, contundente e feroz, com uma integridade da qual cada vez mais estamos órfãos. Para além da falta, ainda bem que o tivemos, pairando acima de qualquer mediocridade sempre, feito uma bússola. O clichê se faz inevitável: somos melhores, em um lugar melhor (apesar de tudo) por causa dele.

PIRATA

Em reportagem recente, o Hypeness mostrou homenagens de diversos artistas pelo mundo a David Bowie. Relembre aqui.

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