Contra a cultura do estupro, alunas brasileiras se mobilizam pelo direito de usar shorts na escola

Estamos cansados de ver situações em que a vítima é vista como culpada em nosso dia-a-dia. E, embora grande parte das mulheres já tenha se acostumado a engolir a seco as indiretas em relação às suas roupas, um grupo de estudantes brasileiras está dando uma lição de cidadania em muita gente grande. O motivo? Elas querem o direito de usar shortinhos na escola.

Já ouvi de alguns coordenadores de que é desconfortável que a gente use shorts porque os meninos ficam olhando. Mas isso é um pensamento machista, sustenta Giulia Morschbacher, de 15 anos, aluna do 2º ano do ensino médio do Colégio Anchieta, um dos mais tradicionais de Porto Alegre. Além de estudante, Giulia também é autora do texto de um abaixo-assinado que reivindica uma mudanças nas regras de vestuário e na postura machista perpetuada da escola.

Em entrevista ao G1, ela explica que os diretores do colégio estão com uma ideia equivocada do movimento por pensarem que o desejo de usar short é apenas para se “igualar” aos meninos, quando na verdade, o objetivo é introduzir na sala de aula discussões sobre feminismo e questões de gênero.

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O documento, criado através da plataforma Change.org, já conta com mais de 13 mil apoiadores. Um dos trechos do texto pede que “a instituição deixe no passado o machismo, a objetificação e sexualização dos corpos das alunas; exigimos que deixe no passado a mentalidade de que cabe às mulheres a prevenção de assédios, abusos e estupros; exigimos que, ao invés de ditar o que as meninas podem vestir, ditem o respeito”. Em outro trecho, o documento reforça: “Nós somos adolescentes de 13-17 anos de idade. Se você está sexualizando o nosso corpo, você é o problema“.

A carta, destinada aos coordenadores e diretores da escola, foi lida em voz alta no intervalo das aulas da manhã, nesta quarta-feira, 24, quando as meninas se reuniram no pátio do colégio vestindo blusas pretas e shorts. Segundo as estudantes, a cartilha da escola indica que as alunas devem vestir blusa de manga, calça, bermuda no joelho, vestido ou saia.

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Fotos: © Julia Townsend/Arquivo pessoal

Em São Paulo

No início do mês, outro movimento semelhante havia surgido no Colégio Rio Branco, em São Paulo, quando as alunas criaram o abaixo-assinado Liberdade aos Shortinhos, que já reúne mais de 900 assinaturas. Segundo as estudantes, as meninas da escola são as únicas a sofrer represálias em relação à sua vestimenta. “É claro que, para eles [administração da escola], é bem mais sensato nos fazer passar calor, do que culpar os meninos que não querem controlar seus hormônios, nem quando estamos usando calças. Porque convenhamos, não é por causa do shorts que eles não nos respeitam“, diz o documento.

Tudo indica que as manifestações surgiram após a conquista das estudantes do Colégio Etapa, em São Paulo. Em outubro do ano passado, elas criaram um abaixo-assinado online que reuniu mais de 4 mil assinaturas pelo direito das meninas da escola de usar shortinho. Na época, a campanha ganhou até mesmo uma página no Facebook, intitulada Vai ter shortinhos sim. Em menos de um mês, as estudantes conquistaram o direito de usar as roupas que queriam nas dependências da escola.

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Foto via

Estas pequenas ações são as que constroem uma escola mais aberta. Eu não esperava tanto apoio. O mais legal foi que muitos meninos também deram força e assinaram a petição”, conta a estudante Luana Pantaleoni, de 16 anos, uma das idealizadoras do abaixo-assinado.

Em Bauru, as estudantes do Colégio Criativo também foram responsáveis por um abaixo-assinado intitulado Não preciso me dar ao respeito porque ele é meu por direito, que reuniu mais de 1 assinaturas. Apesar disso, ainda não há informações sobre a repercussão da iniciativa nas normas da escola.