Matéria Especial Hypeness

Disco de Vinil: de velharia a queridinho, descobrimos que ele não só está vivo como é imortal

por: Vitor Paiva

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Não é possível explicar objetivamente uma paixão. Trata-se de uma força inexata, tonta, movida a outros combustíveis que não a razão – seja por uma pessoa, um animal, uma causa, uma canção, ou um objeto. Portanto, por mais que possam existir argumentos e conclusões inequívocas em favor ou contra um determinado amor, a paixão se move na exceção, para além desse ou daquele argumento. Senti-la, porém, é sempre possível.

© Foto: Reprodução (Catraca Livre) © Foto: Reprodução

Esse não é um texto sobre a ciência do amor, ou o fundo psicanalítico que move as pessoas a se juntarem ao redor de outros corpos. Esse é um texto sobre música, e mais ainda, um suporte: sobre o amor que manteve vivo o disco de vinil, mesmo após sua condenação ao ostracismo, à morte, ao exílio dos colecionadores.

A volta dos que não foram

O vinil está vivo e ganhando força, não só por oferecer um áudio de melhor qualidade ou uma arte mais atraente, sedutora e bem acabada (ainda que tudo isso seja verdade). Os LPs não morreram com a chegada do CD e a tomada de poder dos formatos digitais por conta principalmente da paixão – pela música, pelo artista, pela liturgia que o disco oferece, pelo álbum enquanto uma obra completa, reunindo a arte gráfica com o repertório selecionado e disposto em uma certa ordem, formando uma discurso maior do que os minutos de uma canção executada em shuffle.

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Pois é claro que a praticidade de se carregar milhões de músicas no bolso é indiscutível, mas a facilidade oferecida pelos dispositivos de MP3 – que antes era também agregada ao CD – não melhora em nada a experiência em si de se ouvir música. E nem por isso esse texto é um ataque aos novos formatos, que oferecem sim qualidades interessantes e relevantes.

Mas praticidade e facilidade não a ver com o prazer de se ouvir um LP, e se conectar com a aura simbólica de um período em que a música importava mais do que tudo. Pegar carona nessa máquina do tempo e ter em mãos um objeto que oferece sentido tátil ao amor que resiste em nós pela música, pelos artistas e pelas gravações é uma experiência imbatível.

Zero Freitas, o brasileiro dono de uma das maiores coleções do mundo Zero Freitas, o brasileiro dono de uma das maiores coleções do mundo © Divulgação

O ímpeto irrefreável de aderir a qualquer novidade tecnológica de maneira quase irrestrita – como se algo fosse necessariamente melhor somente por ser novo – e a propaganda apocalíptica que decretou o ostracismo dos LPs em meados dos anos 1990 (e que serviu de combustível para a venda dos CDs que chegavam no mercado) criou uma falsa máxima: a de que o vinil havia morrido.

A verdade é que, ainda que obviamente tenha perdido o domínio mercadológico por um tempo, o vinil jamais morreu e jamais morrerá. Algumas notícias recentes mostram como o vinil voltou a competir de fato por fatias de mercado – superando alguns dos líderes de venda dentro da já tão surrada indústria fonográfica -, se tornado novamente elemento relevante enquanto produto.

Considerado o disco mais raro do mundo, a cópia única da primeira gravação dos Beatles (quando ainda se chamavam Quarrymen) é avaliada em quase um milhão de reais Considerado o disco mais raro do mundo, a cópia única da primeira gravação dos Beatles (quando ainda se chamavam Quarrymen) é avaliada em quase um milhão de reais

Vinil x Streaming

Mesmo diante da crise absoluta que paira sobre a indústria fonográfica, em 2015 a venda de vinis no mundo aumentou 30%, representando 10% das vendas de discos físicos no total. De acordo com relatório da RIAA (Associação de gravadoras dos EUA), em 2015 a venda de LPs superou, em valores brutos, o rendimento de quatro dos maiores serviços de streaming do mundo reunidos. Enquanto o lucro do Youtube, SoundCloud, VEVO e Spotify levantaram, somados, em torno de 163 milhões de dólares, a venda de LPs bateu a casa dos 220 milhões de dólares.

TABELA

Curiosamente, ainda que dentre os ’10 mais’ (LPs) do ano passado nomes históricos como Pink Floyd, Beatles e Miles David resistam em terceiro, quarto e quinto lugar respectivamente (com os clássicos Dark Side of The Moon, Abbey Road e Kind of Blue), grande parte da lista é formada por artistas contemporâneos, inclusive o primeiro e segundo colocados: Adele e seu 25 (116.000 cópias vendidas) e Taylor Swift e o disco 1989 (74.000). Não por acaso, Adele e Taylor Swift foram também os dois CDs mais vendidos e baixados do mundo.

Para além de qualquer opinião sobre a qualidade desses discos, ter a juventude alinhada à demanda por vinis é sinal de frescor para um mercado supostamente moribundo – é uma boa notícia. O vinil vem deixando de ser vendido somente como relíquia e voltou a estar na moda. Não é incomum hoje em dia, nos EUA e na Europa, encontrar sessões de venda de discos dentro de descoladas lojas de roupa e acessórios.

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Os dois LPs mais vendidos de 2015 - Adele e Taylor Swift Os dois LPs mais vendidos de 2015 – Adele e Taylor Swift

O Brasil dos Bolachões

Por aqui, a insurreição da bolacha é mais lenta e menos impactante, porém não menos relevante. Uma novidade que pode trazer frescor importante para esse mercado no Brasil é a abertura de uma nova fábrica de vinis em São Paulo. Batizada de Vinil Brasil, a fábrica surgirá enfim como uma saudável concorrência à Polysom, que por quase duas décadas sobreviveu no bairro de Belford Roxo, no Rio de Janeiro, como a única fábrica de vinis da América Latina.

Fundada em 1999, utilizando equipamentos de gravadoras como Polygram e Copacabana – que, com o domínio dos CDs foram desativando seus departamentos de LPs -, por oito anos a Polysom sobreviveu solitária com a ajuda da alta demanda das igrejas evangélicas, e de artistas independentes e gravadoras de pequeno porte.

POLYSOM Equipamentos de prensagem da Polysom

Em 2007, seus proprietários se viram na situação de ter de fechar a última fábrica de vinil da América Latina. Por sorte e tino comercial, a gravadora Deck Discos, enxergando no crescimento da venda de LPs nos EUA e na Europa uma oportunidade de mercado no Brasil, decidiu por comprar e recolocar a Polysom em funcionamento. Desde 2008 até hoje a fábrica carioca permaneceu como única responsável pela fabricação de quase todos os vinis nacionais em mercado – inclusive as populares reedições de clássicos da música brasileira.

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As reedições de clássicos brasileiros são produtos importantes no mercado nacional © Divulgação/Polysom As reedições de clássicos brasileiros são produtos importantes no mercado nacional © Divulgação/Polysom

O surgimento da Vinil Brasil traz novos ares a esse cenário, prometendo aumentar a produção e baratear os preços, a fim de facilitar o acesso à mídia para artistas e gravadoras em geral. Foi no final de 2014 que um amigo do músico Michel Nath, fundador da fábrica, lhe informou que haviam quatro prensas da antiga gravadora Continental em um ferro velho.

De lá pra cá, Michel restaurou o equipamento, alugou um galpão no bairro da Barra Funda, em São Paulo, e vem resolvendo outros diversos aspectos técnicos da fabricação de discos. A ideia é que a fábrica entre em funcionamento ainda no primeiro semestre de 2016. Segundo Michel, a fábrica tem a finalidade de enriquecer a cultura brasileira. Para ele, a Vinil Brasil será como uma fábrica de sonhos, aproximando os novos artistas da possibilidade de ouvirem suas músicas rodando sob a agulha de uma vitrola.

Os garimpeiros

Se para muitos o vinil é como uma novidade antiga, outros simplesmente seguem alimentando suas coleções sem interrupção, como se o vinil jamais tivesse deixado de ser o principal suporte para nosso deleite auditivo. O baterista carioca Marcelo Callado, defensor das baquetas de nove entre dez projetos musicais do Rio de Janeiro (incluindo, entre muitos outros, Do Amor e a Banda Cê de Caetano Veloso) criou uma relação emocional com sua coleção de quase três mil LPs.

“Descobri recentemente que nos períodos em que estou mais feliz, vou sempre assaltar minha coleção. Quando estou mais triste, me separo um pouco dela”, ele diz. Para Callado, a permanência do vinil é uma questão de classe. Enquanto o CD possui um aspecto descartável, o LP é como “aquelas bacias antigas do tempo da vovó, para se lavar roupa, diante das bacias de plástico de hoje em dia. Vinil tem a mesma classe das bacias de latão”. O conselho de Marcelo para quem tiver começando sua coleção é aproveitar qualquer viagem para garimpar os sebos locais.

O baterista Marcelo Callado e sua coleção © Foto: Juliana Rezende O baterista Marcelo Callado e sua coleção © Foto: Juliana Rezende

Outra figura icônica da cena carioca, o músico e professor Marcelo de Sá – o famoso Marcelão – admite que perdeu a conta do tamanho de sua coleção, entre 11 e 12 mil exemplares. Os discos são uma parte fundamental de sua vida. “Ouvir, curtir, pesquisar, limpar, tudo isso faz parte do meu amor por eles”, ele diz. Da mesma forma, toda a liturgia do LP é determinante nessa paixão. “Ouvir um lado inteiro, virar o disco, olhar a capa, ler a ficha técnica, se aproximar de fato da obra e do artista”, afirma Marcelão.

Marcelão diante de uma parte somente de sua coleção Marcelão diante de somente uma parte de sua coleção

Para conquistar uma coleção desse naipe, Marcelão conta que já cometeu alguns esforços especiais, como vender seu Atari aos 13 anos para comprar um disco importado do King Crimson, ou trabalhar uma semana como telefonista de uma rádio em troca de um LP do Captain Beefheart. Em compensação, sua coleção é referencia em raridades e qualidade – esta lá, por exemplo, o disco mais raro do Brasil: Louco por você, a estreia de Roberto Carlos, cantando Bossa Nova – que há décadas o rei tenta retirar de mercado. O disco está avaliado em alguns bons milhares de reais.

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Tanto Callado quanto Marcelão enxergam com bons olhos a retomada do interesse pelo vinil, que aquece e movimenta o mercado, fomentando feiras e novos pontos de venda (hoje já existem feiras online, onde se pode anunciar LPs e garimpar raridades, como a Roda de Vitrola e a Prefiro Vinil, espécies de Estante Virtual dos discos). Ambos são uníssonos em apontar o único porém: o aumento dos preços. Da mesma forma, os dois colecionadores concordam que as tais reedições de LPs originais podem valer a pena, mas são taxativos quanto a melhor qualidade dos originais.

Uma das várias feiras de vinil que surgiram recentemente pelo Brasil Uma das várias feiras de vinil que surgiram recentemente pelo Brasil

Para além de questões técnica, o que parece mover essa nova moda do LP é o que sempre definiu sua especialidade: o vinil é um suporte simbolicamente perfeito para o exercício amoroso de se ouvir um disco, seja uma novidade ou um clássico. Um objeto apaixonante para um hábito apaixonado – nos oferecendo assim uma alternativa ao desapego funcional e prático imposto pelo MP3, à altura dos anseios mais intensos de nossos ouvidos e corações.

E aí? Vamos botar essa vitrola pra girar? 🙂

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Vitor Paiva

Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta e Só o Sol Sabe Sair de Cena.

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