Fotógrafa cria ensaio poderoso para lutar contra a cultura do estupro

Vivemos tempos de mudança. E como qualquer mudança, esta leva tempo. A cultura do estupro é algo tão entranhado na sociedade que faz com que atos da mais pura civilidade pareçam arrojados (ou, como alguns gostam de chamar, ‘mimi’ ou ‘vitimização’).

A fotógrafa Rory Banwell não se conformou quando, após ficar grávida de sua primeira filha, ouviu comentários como “agora Alex [o marido e pai da menina] precisa ‘comprar uma arma’” para proteger a menina. Banwell se questionava porque são as meninas que precisam se proteger e não a mentalidade que precisa mudar. “Nós ficamos tão desapontados com as reações iniciais das pessoas que diziam que deveríamos protegê-la simplesmente por causa de seu gênero” que a ideia ficou remoendo na cabeça da fotógrafa.

O ‘empurrão’ final para a série foi uma fotografia que a australiana viu em Chicago. Nela, uma menina nua, com apenas uma fita tapando seus seios, mostrava a frase “Still Not Asking For It” (“Ainda Não Estou Pedindo Por Isso”, em tradução livre). E assim nasceu a série com o mesmo nome, que retrata mulheres – e também alguns homens – com seus corpos nus exibindo frases que explicam o que muita gente parece ainda não ter entendido sobre consentimento e violência sexual.

StillNot1
Álcool não é desculpa

A fotógrafa dedica o projeto a todos os sobreviventes de violência doméstica e sexual, um problema que, ao contrário do que possamos pensar, não afeta apenas países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento. Banwell é australiana e lá o tema é preocupação central do governo, que não tem conseguido acabar com essa cultura e que chegou a declarar que a violência sexual é a vergonha da Austrália.

Os números no país são assustadores (não mais, nem menos, que os do Brasil): 63 mulheres foram assassinadas pelos parceiros só no último ano, e 1 em cada 4 é alvo de violência física ou sexual. Como se isso não fosse suficientemente preocupante, olha este número: 58% das mulheres nunca chega a denunciar a situação, seja por ineficácia da resposta, por dissuasão do agressor, medo de represálias ou por achar que sim, a agressão é consequência de um ato irrefletido da própria mulher.

A fotógrafa levanta o debate e desafia mais pessoas a denunciar, de todas as formas possíveis. Porque esses números não são uma vergonha apenas para a Austrália. São para o Brasil e são para cada um de nós.

StillNot2

Eu não quero que minha filha seja 1 em cada 4” [referência à estatística que deixamos no texto]

StillNot3

Eu educarei melhor meu filho

StillNot5

Seu corpo, sua escolha

StillNot6

Casamento não é consentimento

StillNot7

Culpe os estupradores, não as vítimas

StillNot8

Quebre o silêncio

StillNot9

Eu sou modelo e ainda não estou pedindo por isso

StillNot10

Apenas ‘sim’ significa ‘sim’

StillNot11

Nossa sexualidade não é um convite

StillNot12

Eu não quero que meu filho nasça em uma sociedade que aceita a violência sexual

StillNot13

Respeite minhas irmãs

StillNot14

Meus seios são para alimentar

A fotógrafa criou também um vídeo de apresentação do projeto, que você pode ver abaixo:

Para acompanhar as novidades do projeto, siga a página pessoal de Rory Banwell ou o Tumblr da série.

Todas as fotos © Rory Banwell