Guia Didático ensina a diferença entre paquera e assédio no Carnaval

Quem conhece a revista digital AzMina sabe que objetivo maior da publicação é contribuir para a redução das desigualdades de gênero no Brasil. Criada por uma equipe fundamentalmente feminina e diversa em todos os sentidos, a revista tem como missão mudar a comunicação jornalística e publicitária em questões relacionadas a discurso de gênero e representatividade.

Neste Carnaval, as meninas decidiram botar a mão na massa e abordar um tema bem presente no feriado mais esperado do país: o assédio. Muito “confundido” com a paquera que rola solta pelas ruas no período, o abuso que as mulheres sofrem nos blocos, festas e micaretas (principalmente nesse período) chegou a ser por muito tempo normalizado e tido como algo “legal” ou “normal”. “Nós não queremos mais dançar olhando pros lados para ver se alguém vai pegar na nossa bunda sem permissão”, explica Nana Queiroz, editora-executiva da revista.

Para que não reste dúvidas do que difere uma paquera de uma situação de assédio, a AzMina decidiu desenhar para quem ainda não entendeu e criou o Guia Didático da Diferença Entre Paquera e Assédio Pra Você Não Ser um Canalha no Carnaval”, que faz parte da campanha #carnavalsemassedio, uma parceria entre mulheres de vários grupos e coletivos que cansaram de ter que passar raiva e medo durante o Carnaval e decidiram agir.

“Não é uma tristeza que, em pleno século 21, a gente ainda tenha que ensinar marmanjo como brinca de conquistar?”, elas perguntam. É sim meninas, mas já que não nos resta escolha vamos lá:


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Hypeness (H) – Quando uma menina se vê numa situação de assédio. Qual a reação mais aconselhada?

Nana Queiroz (NQ) – A reação mais aconselhada é gritar, fazer escândalo, chamar atenção pra situação. A maioria das pessoas é, em geral, contrária ao assédio e deve te ajudar a escapar dessa situação, além de constranger o assediador. Técnicas de defesa pessoal também podem ser úteis em casos mais graves.

H – Se alguém realmente passar dos limites, existe alguma maneira de denunciar esse tipo de comportamento?

NQ – Sim, basta discar 180 e fazer a denúncia. Este é o número criado pelo governo federal especialmente para denúncias de violencia contra a mulher, na qual o assedio se enquadra.

Como tudo começou…

A História d’AzMina começou em 2014, quando Nana Queiroz, editora-executiva, conheceu os resultados da pesquisa do IPEA “Tolerância social à violência contra as mulheres” que dizia que, para 26% dos brasileiros, mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas.

Indignada, Nana foi até o Congresso Nacional, tirou a camisa e escreveu no corpo “Eu Não Mereço Ser Estuprada”, usando a nudez política para simbolizar que, mesmo sem roupa, as mulheres merecem dignidade e proteção contra a violência sexual.

null-899x674 Nana Queiroz, editora-executiva

O protesto repercutiu, cresceu e a Nana somaram-se centenas de milhares de mulheres no Brasil e no mundo. A campanha foi destaque em redes de televisão, jornais e revistas e chegou até veículos internacionais como The Washington Post, BBC, Cosmopolitan International e The New Internationalist.

Em 2015, Nana, ao lado de outras mulheres, decididas e empoderadas, oficializaram a Associação AzMina de Jornalismo Investigativo, Cultura e Empoderamento Feminino. A equipe foi formada tendo a diversidade como maior critério. Mulheres de diversas raças e orientações sexuais, com formação em jornalismo, direito, comunicação e psicologia se reuniram e hoje alimentam uma das publicações com mais propriedade no Brasil quando o assunto é feminismo.

*A Nana é autora do livro “Presos que Menstruam” e roteirista do filme de mesmo nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é colunista do Brasil Post e criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga. Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações Internacionais pela UnB. Tem três paixões na vida: o companheiro João, o cachorrinho Pequi e séries e filmes de zumbis.

Imagens: Revista AzMina