George Martin: o cara que disse um ‘sim’ para os Beatles e revolucionou a música mundial

Não fosse um ‘sim’ dito por George Martin em 9 de maio de 1962, e a música popular mundial não seria a mesma – assim como nossa alegria. Foi nesse dia que o produtor musical decidiu arriscar gravar aquela banda que não lhe pareceu musicalmente promissora, mas que, com seu carisma, humor e entusiasmo, parecia possuir algo de especial. Se a sorte sorriu para George Martin no dia em que ele aceitou gravar os Beatles, a sorte sorriu também para a banda – e para o mundo – pois, sem ele, todo aquele som que viria simplesmente não seria possível.

Photo of George Martin

George Martin morreu ontem, dia 8 de março de 2016, aos 90 anos, condecorado como Sir, após seis décadas de carreira, com mais de 700 gravações produzidas, 30 canções em primeiro lugar nas paradas inglesas e 23 nas paradas americanas. Ele foi o último produtor procurado pelo empresário Brian Epstein para tentar conseguir gravar aquela banda do interior da Inglaterra. E riu melhor quem enfim topou a empreitada.

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A revolução protagonizada pelos Beatles na década de sessenta se deu em praticamente todas as camadas pelas quais uma banda de Rock pode atravessar em sua carreira. E uma das mais importantes transformações dessa trajetória foi justamente onde Martin se fez essencial: na gravação e produção das musicas. Antes dos Beatles, tudo era rudimentar e pouco explorado em termos de gravação, que funcionava como somente um registro fixo daquilo que os artistas realizavam ao vivo – como um produto que pudesse ser vendido.

Foi com George Martin que os Beatles transformaram os discos em obras autônomas, com discurso próprio, estéticas específicas e possibilidades expandidas como obra de arte. O disco de rock enquanto instituição, essa entidade amada e elevada, foi forjada justamente nos estúdios da EMI em Abbey Road, e quem conduziu os quatro gênios de Liverpool nessa alquimia foi George Martin.

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Responsável por praticamente todos os arranjos de corda da banda e pela produção de todas as suas gravações, foi Martin quem soube traduzir e transformar em som os desejos irrefreáveis por novas sonoridades que John, Paul, George e Ringo lhe traziam a cada sessão. Ele aceitou o desafio de transformar a maior banda do mundo na melhor banda de todos os tempos.

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O que hoje é possivelmente resolvido em um clique, na época, em que os melhores estúdios do mundo ofereciam possibilidades de gravação menores do que qualquer notebook da Apple, esses sonhos sonoros tinham de ser resolvido na marra, muitas vezes fisicamente, cortando e colando fitas, tocando gravações ao contrário, explorando as posições dos instrumentos e microfones, criando harmonias inesperadas, arranjos inusitados, misturando o clássico com o popular (ou o indiano), transformando o estúdio de gravação em um verdadeiro laboratório.

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A quem quiser conhecer um pouco mais os processos revolucionários de gravação criados por Martin e os Beatles, principalmente no disco Sgt. Pepper’s, recomenda-se o livro Paz, Amor e Sgt. Pepper, de autoria do próprio Martin. Ou simplesmente ouvir com atenção as minúcias de gravações como Eleanor Rigby, Strawberry Fields Forever, A Day in the Life, Yesterday, In My Life ou Penny Lane.

George Martin ainda gravou com nomes como Ella Fitzgerald, America, Paul McCartney solo, Elton John, Jeff Beck, Stan Getz, Tom Jones, Stevie Wonder, Celine Dion e muitos outros – tendo recebido, ao longo de sua carreira, um Oscar, seis Grammys, diversos títulos de doutor em música, e de fazer parte do Hall da fama do Rock.

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E, como se não bastasse, George Martin era uma das figuras mais elegantes e amáveis da música pop. Seu significado como produtor foi tamanho, que é possível dizer que tal profissional hoje, com tantas facilidades e artificialidades oferecidas pelo digital (e tão distante do nível de excelência a que Martin se propunha) simplesmente não existe mais. Martin era um gênio raro em seu ofício, que perde uma de suas páginas mais bonitas. É, no entanto, uma vida e uma obra a ser comemorada – preferencialmente, ouvindo em alto volume algumas de suas produções.

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Imagens: arquivo