Mulheres se reuniram nesse sábado pelo mundo todo para produzir cerveja; veja como foi em SP

Por Clara Caldeira e Stephanie Bevilaqua

Afinal, quem foi que disse que cerveja não é coisa de mulher? Para começar essa conversa vale a pena informar que a bebida não existiria sem a mulherada, pois foram elas que começaram a produção há uns bons séculos.

Centenas de anos atrás, eram os homens que colhiam os grãos, mas já eram as mulheres que produziam a cerveja. Já no século XVI (veja bem), na região norte da Alemanha, os utensílios para produção da bebida faziam até parte do enxoval das noivas. E ainda assim tem gente que ainda acha que a boa e velha gelada é coisa para “macho”.

Esse vídeo aqui, por exemplo, mostra que muitas meninas quando pedem cerveja acompanhadas de um cara que pede um drinque, ainda têm o pedido trocado. Um esteriótipo ridículo que já está pronto para ser quebrado, e essa iniciativa aqui surgiu pra ajudar.

Pink Boots Brew Day

No final de semana mais próximo ao Dia Internacional de Luta das Mulheres, centenas de minas se reúnem pelo mundo todo para fazer cerveja, no Pink Boots Brew Day. Tudo começou na Inglaterra, em 2014, quando Sophie de Ronde decidiu incentivar mulheres a produzirem sua própria bebida preferida e a doarem parte da arrecadação para um grupo feminista.

Neste ano não foi diferente, e aqui no Brasil também teve Big Boots Brew. As quatro deusas cervejeiras que participaram do projeto em São Paulo, fizeram um relato especialíssimo para o Hypeness contando como foi essa experiência. Vem ver:

Sailors 38 Da esquerda pra direita: Bárbara Fonseca, Caroline Yamasaki, Maíra Laranjeira e Lúcia Lima

Somos quatro. Quatro mulheres diferentes, com vidas e profissões diferentes, mas com uma paixão em comum: beber uma boa cerveja. E foi assim que acabamos reunidas, convidadas a participar de um projeto bem bacana da Pink Boots Society, no qual a ideia é fazer uma ação coletiva onde mulheres cervejeiras, profissionais ou não, façam a mesma receita (esse ano foi o tipo Gose), em um mesmo dia, com a intenção de mandar para o mundo um recado do tipo: “Ei, caras, mulher também gosta (e muito) de cerveja e podemos muito bem fazer a nossa!”. Esse é o Pink Boots Brew Day, que acontece sempre no sábado mais próximo do dia 08 de março, “Dia Internacional da Mulher”.

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Contamos com a ajuda dos grandes amigos da Van der Ale, que nos ensinaram os segredos da alquimia, ajudaram com insumos, emprestaram equipamentos e abriram a cozinha para a mulherada brassar, sem contar a bela aula que tivemos com o Dona Lurdes (<3), com todos os toques, truques e macetes que poderíamos querer!

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Foi muito legal ver e sentir o compartilhamento que aqueles caras estavam tendo conosco, dividindo o conhecimento para abrirmos os nossos próprios caminhos e tomarmos as rédeas desse processo longo, braçal, e que demanda muita atenção e precisão. Manas, pensem com cuidado nos comentários contestadores que podem surgir aqui: é claro que mulheres não precisam de homens para abrir caminhos, mas me diz, negar ajuda e compartilhamento de aprendizados de forma generosa é mesmo algo que estamos dispostas a fazer?

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Foi assim que sentimos aquele gostinho do tão falado empoderamento. Vimos processos químicos e biológicos, pensamos na nossa receita (por mais difícil que seja quando não se tem ainda o conhecimento necessário, e mais uma vez a Van der Ale nos ajudou), experimentamos sabores, pensamos em nomes… tudo! Estávamos à par e prontas para prosseguir! Decidimos que nossa brassaria seria a Sailor’s Ruin, em referência às figuras tão inspiradoras e temidas (pelos homens): as sereias, ruína dos marinheiros que se afogam hipnotizados por seus cantos.

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O tipo da cerveja que o movimento nos propôs, a Gose, tem uma brassagem mais complexa que as demais, além de ser composta por ingredientes um tanto quanto não usuais: sal (sim, sal!) e semente de coentro. Não podia ser diferente: mais um desafio para as minas, assim como o nosso dia a dia nesse mundão. E isso, minha gente, é o que mais gostamos: superar os desafios e brilhar nas conquistas!

O tal do empoderamento não foi só por que estávamos cientes dos processos e da receita, mas também por estarmos pisando em um terreno dito exclusivamente masculino e, ainda, por estarmos tomando o controle das nossas decisões de forma autônoma, sem nenhum macho alfa ou a indústria capitalista para nos dizer o que e como fazer ou consumir. Sim, quebramos um paradigma. E isso, mulherada, foi demais!

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Fomos em busca de produzir um bem que gostamos (demais) de consumir pelo simples motivo de que é extremamente mais interessante e gratificante na vida saber exatamente o que estamos ingerindo, sem falar do amor imenso que vai para dentro daquelas panelas. A cada remada, mais amor. Daqui em diante, é seguir aprendendo e testando outras receitas, exercendo nossa autonomia cervejeira.

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Lidamos com imprevistos, medos, indecisões e mandamos ver! Decidimos tudo em conjunto, em um processo lindo de compartilhamento e coletivismo, apoiadas pelos meninos da Van der Ale, que em momento algum nos tiraram o poder de escolha sobre a nossa produção. Tiramos dúvidas, até pedimos palpites, mas a decisão foi sempre NOSSA. E foi lindo! Do começo ao fim, todas empenhadas e ansiosas, extremamente empolgadas e felizes. Juntas. Ainda faltam 20 dias até o processo todo terminar e podermos, finalmente, degustar a NOSSA breja, mas já ficamos imaginando o sentimento incrível que vai ser abrir a primeira garrafa e encher os copos de amor, sororidade e respeito – ingredientes (quase) secretos dessa cerveja. E foi assim que já estabelecemos mais um elo de ligação: a Sailor’s Ruin. E a primeira de muitas homebrews: a Afoga, marinheiro! Nada contra os marinheiros, mas, caras, se não souberem navegar, vocês vão se afogar!

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Todas as imagens: Raphael Sanz