O adeus a Naná Vasconcelos e seu coração percussivo

Se o ritmo é algo intrínseco ao ser humano, e as batidas do nosso coração nos fazem lembrar o quanto a música está de fato dentro de nós, o coração do músico pernambucano Naná Vasconcelos era realmente um instrumento de percussão. E esse instrumento parou de tocar hoje, dia 09 de março de 2016, após 71 anos marcando os compassos do maior percussionista de todos os tempos.

15.10.2010. Recife. crédito: Otavio de Souza. Quarto ensaio-geral dos Maracatus da abertura do carnaval de 2010 com Naná Vasconcelos, na rua da Moeda.

A música e a vida de Naná Vasconcelos foi gerada e construída ao redor dos tambores dos maracatus de Recife, onde nasceu. O pai de Juvenal de Holanda Vasconcelos, nome de batismo de Naná, era também músico; Pierre tocava manola, um violão tenor, de somente quatro cordas. Desde muito pequeno Naná sabia o que queria ser e viver, e que seu caminho seria somente o da música, e principalmente da percussão.

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Instrumentista de amplitude absoluta, Naná era um especialista no berimbau, e gostava de frisar que suas influências iam de Villa-Lobos a Jimi Hendrix. Transitava perfeitamente entre mestres regionais e internacionais, e ajudou a levar a percussão brasileira para o mundo, sem tomar conhecimento de fronteiras ou estilos.

Mudou-se do Recife para o Rio, a fim de gravar dois LPs com Milton Nascimento nos anos sessenta, saiu em turnê pelo mundo com o saxofonista argentino Gato Barbieri, e ao ganhar o mundo, o mundo ganhou Naná, e jamais o devolveu. Seu reconhecimento internacional é tamanho, que Naná foi eleito oito vezes seguidas o melhor percussionista do mundo pela conceituada revista Down Beat, a mais importante publicação sobre percussão que existe, e venceu o Grammy também oito vezes. Naná em 1971 mudou-se para Paris, onde gravou seu primeiro disco, Africadeus.

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A partir de então foram mais de vinte discos próprios, e trabalhos ao lado de nomes como B.B. King, David Byrne e os Talking Heads, Jean-Luc Ponty, Pat Matheny – com quem realizou uma turnê mundial – , Caetano Veloso, Marisa Monte, Milton Nascimento, Mundo Livre S/A, Don Cherry, Egberto Gismonti, Arto Lindsay e muitos outros, além de trilhas para o cinema nacional e internacional, como Procura-se Susan Desesperadamente, de Susan Seidelman, Down By Law, do cultuado diretor Jim Jarmusch, e O Menino e o Mundo, animação brasileira indicada ao Oscar em 2016.

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Naná era também o maestro do carnaval de Recife, responsável há 15 anos pela cerimônia de abertura do evento. Reunindo doze maracatus, 600 batuqueiros e um coral na sexta-feira de carnaval, Naná conduzia com ritmo firme a pulsação de uma das maiores festas populares do mundo.

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Ensaio de Maracatu - Naná Vasconcelos

Como uma encarnação da complexidade e pluralidade rítmica e estilística da música brasileira, Naná levou ao mundo a percussão do Brasil, no mesmo passo em que trouxe o mundo para dentro de nosso quintal. Como um dos mais importantes arquitetos dos ritmos que caracterizam a musicalidade de cá, Naná é por definição aquilo que de melhor podemos supor sobre a música brasileira: a mistura de estilos que traz não a diluição, mas sim a alquimia densa e original que, ao se misturar, sem jamais deixar pra lá suas raízes profundas, tira ouro de tudo que toca – ou batuca.

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Imagens: divulgação