Matéria Especial Hypeness

Especial Prince: o adeus a um artista raro e completo

por: Vitor Paiva

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A morte do cantor e multi-instrumentista norte-americano Prince, ocorrida ontem, 21 de abril de 2016, amplia ainda mais o vácuo de heróis e heroínas da música surgidos no século XX e que, conforme o tempo não cessa em passar, desaparecem sem deixar herdeiros do mesmo quilate.

Aos nossos corações, ouvidos e quadris, resta o campo amplo de transformações musicais e comportamentais fomentado por esse artista raro, além, é claro, da obra, tão vasta e importante quanto a estranha sensação de vazio que nos toma enquanto os gênios insistem em morrer.

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Prince pertence a uma estirpe nobre de músicos capazes de tudo. Compositor de mão cheia, hitmaker abundante, foi também um guitarrista original, influente e profundamente habilidoso – vale a justiça de coloca-lo entre os maiores guitarristas de todos os tempos, como uma espécie de Hendrix do pop.

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Não bastando tocar dezenas de instrumentos com maestria, ter se tornado produtor musical fundamental para se entender qualquer sonoridade pop desde os anos 1980, e misturar com destreza alquímica sonoridades entre o funk, o rock, o soul e o pop, Prince era ainda um dançarino infalível.

Junto de tantos atributos, o cantor impecável, amplo e visceral e o inventor musical que foi o alinha ao olimpo da música negra, com James Brown, Michael Jackson, Marvin Gaye, Ottis Reading, Stevie Wonder, Aretha Franklin, Etta James, Sly, George Clinton e tantos outros.

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É difícil não lembrar da morte recente de David Bowie diante do impacto que esse tipo tão único de artista é capaz de provocar. O nome de sua banda nos anos 1980 não era “Revolution” por acaso: Prince mudou a face da música de sua época para sempre, e não somente. Desafiou as limitações de gênero, sempre se posicionando como um libertário personagem andrógeno, um fortíssimo homem feminino, desafiou a indústria fonográfica, questionou o funcionamento da internet em relação aos abusos sobre direitos autorais – tópico pelo qual foi duramente criticado e que, para além de ter estado certo ou errado, cada vez mais se sobressai como tema importante e cheio de camadas a serem de fato questionadas.

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Até mesmo a lógica midiática e comercial de exploração de um artista, seu nome e obra, foi questionada por ele com originalidade. Em 1993, por conta de uma disputa com sua gravadora, Prince mudou seu nome para um símbolo impronunciável, tornando-se então O Artista Anteriormente Conhecido como Prince. A imprensa passou a se referir a ele pela diminuição desse apelido, como O Artista – e tanto essa alcunha quanto a ideia de se tornar um símbolo, em retrospecto, fazem sentido: poucos foram tão simbólicos, tão artísticos quanto o pequeno gênio de Minneapolis.

É claro que gestos extremos trazem consequências extremas, e ao combater as gravadoras, as grandes corporações e até a mídia, o preço que pagou foi a perda de parte de um público mais preguiçoso, que passou a considera-lo excêntrico e a perde-lo de vista. O mesmo ocorreu em sua briga contra a internet: é bastante difícil encontrar sua obra disponível online, o que o afastou um tanto das novas gerações.

O artista e seu símbolo
O artista e seu símbolo

Prince vendeu mais de 100 milhões de discos, venceu sete Grammys e um Oscar, e sua produção foi intensa e extensa. Alguns de seus discos considerados menores foram propositalmente lançados a fim de que ele enfim se libertasse de seu contrato com a gravadora Warner. A revolta em que se colocou diante do fato de que não era dono de suas gravações e composições o fez aparecer diversas vezes com a palavra “Slave” (Escravo) escrita no rosto.

Excêntrico, rebelde, mimado ou guerreiro, Prince se expôs em lutas caras para uma indústria tão cheia de excessos e explorações quanto a fonográfica.

Manadatory Credit: Photo by Brian Rasic / Rex Features (396812dh) PRINCE VARIOUS

Seu álbum mais impactante, Purple Rain (trilha sonoro do filme homônimo) rapidamente conquistou lugar cativo nas listas dos melhores discos de todos os tempos. Tendo vendido mais de 22 milhões de cópias pelo mundo, o disco é de fato um feito, capitaneado pelos três clássicos que traz em seu repertório: When Doves Cry, Let’s Go Crazy e Purple Rain. As duas primeiras canções alcançaram o topo das paradas americanas, e a que batiza o disco chegou ao segundo lugar. O disco como um todo atravessou 24 semanas em primeiro lugar na Billboard, se tornando uma das trilhas sonoras mais vendidas da história.

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A abrangência de sonoridades e estilos em suas composições pode ser vista em diversos exemplos. Prince é autor de um dos maiores hits das pistas de todos os tempos, a canção “Kiss”, e também da bela e melancólica canção imortalizada por Sinead O’ Connor, e que poucos sabem ser de sua autoria: “Nothing Compares 2 U”. Mais do que um Midas, era um alquimista, que tirava ouro de suas misturas de maneira quase mística.

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A lembrança de Bowie não é, portanto, mera coincidência temporal. Tal qual o camaleão inglês, Prince era uma espécie de artista completo, que também foi ator, ícone fashion, que mudou a face de seu ofício, criou sonoridades, e misturou temáticas difíceis, como sexualidade, gêneros e religião, oferecendo-se como espelho para que diversas gerações pudessem explorar e expandir as próprias identidades.

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Duas de suas mais icônicas guitarras
Duas de suas mais icônicas guitarras

A sexualidade de sua persona era tão elétrica quanto sua guitarra, e a força com que empurrava os limites entre feminino e masculino, privado e público, real e personagem o posiciona dentro da santíssima trindade comportamental da música da década de 1980. Ao lado de Madonna e Michael Jackson, o trio se insurgiu como sintoma e cura ao conservadorismo inodoro e  tóxico que tomava conta dos EUA ao longo da Era Reagan.

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Sabemos que ao mundo não mais interessa, e talvez não seja mais possível, o surgimento de heróis e gênios de tal calibre. Com isso, a lista que nos resta vai minguando a cada ano. Artistas capazes de nos fazer dançar, assoviar, gargalhar, transar e chorar sem se afastar jamais dos nossos temas essenciais, como o sexo, a morte, a vida, a tristeza, a dor, o sentido e a ausência de sentido, transformando nossas ideias através de nossos corações e corpos. Prince criou e recriou sua própria vida e obra e nos convidou sempre com sensualidade e carisma para que fizéssemos o mesmo com nossas vidas, ao seu som, com a qualidade dos raros – quando um príncipe se torna maior do que um rei.

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Todas as fotos: Reprodução

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta e Só o Sol Sabe Sair de Cena.

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