Entrevista Hypeness

Entrevista Hypeness: Ana Lúcia, a artesã que conquistou a França com seu carisma e criatividade

por: Brunella Nunes

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Conversar com a Lúcia é uma delícia. O papo flui e o riso fácil vem junto, porque essa carioca, além de artesã, é uma mulher que cativa as pessoas ao redor. E acredito que foi assim que ela voou mais longe do que poderia ter imaginado, chegando até eventos de gala em Paris. Criada para ser uma “mulher de família”, no sentido mais conservador possível que o termo carrega, ela mudou completamente quando abriu portas para si mesma, arrumou um trabalho com base no seu talento e conquistou independência financeira através da criatividade.

Foi no meio do nosso papo por telefone, nessa conexão São Paulo-Rio de Janeiro, que ela me fez pensar num desenrolar para essa pauta. Nascida em São Fidelis e atualmente vivendo na comunidade  do Jardim América, Zona Norte do Rio, Ana Lúcia da Silva Franco teve uma criação diferente de seus oito irmãos. A mãe, como muitas outras da mesma época, queria que ela fosse uma esposa submissa, dona de casa e, consequentemente, dependente do marido. Mas isso ia contra a vontade e os sonhos de Lúcia, que almejava coisas maiores e melhores para si mesma do que ficar na aba de algum homem.

Foi então que, há 22 anos atrás, ela participou de um curso numa ONG para jovens da comunidade, resultando na dimensão de que era capaz de gerar renda e sobreviver sem depender de terceiros. O primeiro contato com o dinheiro próprio foi de apenas R$ 50, mas de valor inestimável para Lúcia, que começou a dar seus primeiros passos rumo à tão almejada independência.

analucia

Assim ela fundou a Fuxicarte, passou a confeccionar almofadas de fuxico e foi descoberta pela Rede Asta em 2007, que transforma pequenos artesãos de comunidades em empreendedores, colocando seus produtos à venda online e oferecendo consultoria da ONG francesa PlaNet Finance Brasil. Com auxílio de uma designer do projeto, criaram juntos a Almofada Fuxicão, que seria um fuxico tamanho família, para venderem na loja e gerar renda para Lúcia, que no início desacreditou um pouco na ideia, resultado também de sua baixa autoestima da época.

Com a produção a todo vapor, a grana entrando e o sucesso de vendas chegando, hoje ela se considera outra Lúcia, uma nova mulher, muito distante daquela do passado após um período de transformação pessoal e profissional. Junto com seu grupo de amigas artesãs, chegou a participar de muitos eventos, como o Fashion Week Rio e o TEDxJardim Botânico, no Rio. Em 2012, entrou num avião pela primeira vez na vida rumo a Paris, parece receber o Prêmio Internacional de Microfinanças conferido pelo Grupo PlaNet Finance em 2012. E tudo isso “0800”, ou seja, grátis, como a Lúcia costuma brincar.

lucia-fuxicarte

No ano seguinte, ela esteve no Festival de Cannes e contou pra gente como foi a experiência numa conversa descontraída e regada a bom humor:

Hypeness: E aí Lúcia, me conta…gostou de Cannes?

Ana Lúcia: A Alice Freitas, diretora executiva da rede Asta, falou assim pra mim, brincando, “Lu, até pra Dilma (Rousseff) entrar lá tinha que ter o convite. É uma coisa muito VIP. Um ser mortal não entra lá”. Eu nem sabia o que era, só conhecia o que era o Oscar. Mas amei!

Como você chegou lá? O que rolou?

A PlaNet ia dar um prêmio para o grupo de melhor artesão. Seria uma apresentação para um grupo fechado e foi escolhido cinco grupos para assessoria na França dentro dos 100 artesãos da rede. Na última reunião, no último minuto, pediram para contar a história da minha vida e eu não queria participar. Pedi pra uma amiga enviar a minha história, que foi escolhida. Foram na minha comunidade no Jd. América e pensei “o que esses gringos estão fazendo aqui?”. Me convidaram para ir ao Museu do Louvre receber uma premiação. Quando cheguei lá para receber como Melhor Grupo Produtivo em nome da Fuxicarte, o cara lá me deu um troféu e apertou minha mão. Aí eu falei pra minha intérprete, “pergunta se posso beijar o rosto dele?”. Quebrei o protocolo e não sabia. Puxei ele e tasquei um beijo.

Caramba, Lúcia, que máximo! Foi daí que surgiu o convite para ir até o Festival de Cannes?

Foi. No ano seguinte, esse empresário chiquerézimo me deu um jantar de gala e me levou para o Festival de Cannes em 2013. Se eu gostei? Nossa…fizeram um vestido fenomenal, pintaram meu cabelo…fiquei me sentindo. Vem cá, meia noite eu tenho que correr? Porque vai acabar o encanto! Fiquei enlouquecida, foi um sonho de Cinderela. Só achei triste n]ao poder tirar foto com o Leonardo diCaprio. Perguntei porque não podia e me falaram “porque aqui você é igual a ele”. Meu amor, não sou!

Nesses 10 anos, qual foi a sua maior realização pessoal?

Mudou a minha autoestima, sou outra Lúcia. Era muito calada, fui criada para ser esposa, não podia pedir nada. Hoje faço parte de um coletivo de cinco mulheres e dona do meu próprio dinheiro. A almofada Fuxicão é campeã de vendas há uns cinco anos. Imagina uma pecinha pequenina se transformar numa almofada. Mas é um trabalho bem produtivo mesmo, já chegamos a fazer mil almofadas em dezembro, o que significa que as pessoas gostam.

Artesãs do grupo Fuxicarte com os produtos feitos por elas

Os gringos piram no artesanato brasileiro, né?

Menina, no jantar de gala me colocaram como embaixadora para ajudar outras mulheres. OFuxicão que levei foi leiloada por 30 mil euros, um dos maiores valores arrecadados na noite, para dar apoio a projetos sociais. Imagina se eu fosse vender lá!

Você acha que no Brasil ainda precisa crescer esse reconhecimento dos artesãos, que muitas vezes usam a criatividade e os trabalhos manuais para a própria sobrevivência?

Acho que falta a valorização do Brasil e dos próprios brasileiros. Se o povo daqui visse o artesanato não só como enfeite, mas como trabalho, geração de renda, transformar famílias mesmo, muitas vidas poderiam mudar. E ter apoio principalmente dos governos e programas sociais.

Qual conselho daria a outras mulheres como você?

Se tivesse uma oportunidade que elas possam aproveitar…essa história começou com um curso numa ONG para jovens em comunidade. Eu gostei da ideia de trabalhar fora e ter meu dinheirinho. Eu gosto de reforçar que aproveitei a oportunidade. A dificuldade vem de montão, o desespero de não querer virar dona de casa também. Costumo falar que gostaria de criar novas Lúcias. Olhem em volta de vocês, vejam as oportunidades e aproveitem!

Fuxicão, produto do grupo Fuxicarte, que é marca da Rede Asta

rede asta

Assim a Lúcia segue a vida, quebrando o protocolo. Na primeira oportunidade que teve, foi atrás e conseguiu mudar seu destino. Por isso é tão importante acreditar e investir no potencial criativo do brasileiro, que vai muito além das universidades, brotando nos lugares mais simples e de menor renda.

A criatividade está em nosso DNA desde os primórdios. A sobrevivência em regiões remotas e comunidades, muita vezes, exige essa capacidade, seja para consertar um item dentro de casa ou garantir o próprio sustento. Para a inovação acontecer, basta abrir a porta e deixar ela entrar.

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Fuxicão no cenário da novela I Love Paraisópolis da TV Globo

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*Como não poderia deixar de ser, o Hypeness está presente no Cannes Lions e fazendo a cobertura do melhor que rola por lá. Confira as novidades ao vivo através do nosso Snapachat em @hypenessoficial.

Todas as fotos: divulgação/Rede Asta


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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