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Precisamos falar sobre ‘loucura’: o que o machismo tem a ver com isso?

por: Laiz Chohfi

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Ele chegou contando que estuda Engenharia. Está no penúltimo ano. Mas queria mesmo era estudar Design de Interiores. Tá pensando em largar o curso e partir pra outro, mas os pais não querem concordar. Dizem que ele está louco, que isso não é profissão de homem, que sendo engenheiro ele vai ter um bom salário e uma boa vida. É uma loucura largar a faculdade tão no fim assim.

Será mesmo uma loucura? Tem tantas pré-concepções nessa vinhetinha que eu nem sei por onde começar.

O que seria uma “profissão de homem”? E, em oposição, será que tem profissões que são “de mulher”? E quem não segue isso é louco? Ou é só alguém que respeita o que gosta e quer pra própria vida? Eu tendo a concordar com a última opção. Cada um no mundo é único. Se todos somos diferentes, como posso categorizar e dizer que esse lugar serve pra um homem ou não, e esse pra uma mulher ou não? Tem gente de todo jeito no mundo – ainda bem! E sim, o lugar da mulher é onde ela quiser! E do homem? Também!

Chapeleiro Maluco

Pensar em trocar de curso quase no fim da faculdade pode parecer uma grande loucura se a lógica for escolher um curso, se formar e trabalhar nisso até morrer. Tipo a árvore que nasce, cresce, se reproduz e morre. A gente é um pouco mais complexo que isso. E mais… Quem disse que a lógica tem que ser essa? De novo: se todos somos diferentes, como dá pra pensar que o caminho vai ser o mesmo pra todo mundo?

Então, coleguinha, se você é esta pessoa que está na dúvida se vai pela cabeça do mundo ou pela sua própria, é bom ir pela sua sempre que possível. No fim, quem vai com você embora desse mundo é você mesmo, você só tem a você. Então se faça feliz! 🙂 E se você se identificou com os pais do rapaz aí acima, talvez fosse legal rever se “brincar de casinha” é só para meninas. 😉

Agora, uma mulher…

Ela chegou à sessão dizendo que tem se sentido meio louca no trabalho. Tem andado irritada, respondona e chorona. Os caras da equipe têm dito que ela deve estar de TPM o mês todo, ou ta grávida, certeza, pra estar agindo desse jeito insano. Nesse dia ela veio chorando. Fui explorar com ela como anda, então, o trabalho. Ela é a única Diretora de Arte na agência onde trabalha. A Criação está lotada de homens. Ela falou de uma série de reuniões por conta de uma concorrência que a agência ta participando, e de como as suas ideias não são boas de fato. Ela diz que os meninos riem quando ela fala, ou simplesmente passam por cima, continuando a conversa de onde pararam. E aí ela anda chorona… “Acho que vou enlouquecer, Laiz! Não quero ser a mulherzinha chata!”.

Ela está parecendo louca? Considerando um certo conceito de loucura e pensando que ela está agindo assim sozinha, sem nada acontecendo no mundo, talvez. Dizer que ela está louca é tirar a importância da ação dos colegas de trabalho no que acontece com ela.

crazywoman

Imagine só: você fala na reunião e ninguém te responde. Você opina e passam por cima da sua opinião. Se olharmos com atenção, veremos que ela está, sim, falando sozinha feito louca. Mas ela não fala sozinha porque quer, ela assim o faz porque ninguém escuta. Ela não é louca. Enlouquecedora é a situação em que ela se encontra! Isso sim.

O resultado do processo de enlouquecimento? Pontapés e respostas atravessadas. Muito choro no banheiro da firma. Muitas caixas de lencinho no consultório também.

Minha conclusão? Ela não poderia estar mais adequada, mais sã. Eu diria que, mais normal, impossível! Quem reagiria diferente a isso? Quem não se chatearia? Quem não responderia mal? Como eu disse pra ela, e diria pra tantxsoutrxs, eu chamaria o SAMU se ela não estivesse achando incrível ser calada e ignorada.

Então, minha querida, antes de aceitar que você é a louca da história, pense no contexto. O que está acontecendo ao teu redor? E, se você se identificou com os caras da firma que calaram a minha cliente – que podem ser minas, que podem ser trans, que podem ser gays, que podem ser tudo que for possível ser neste mundo vasto de meldels –, é bom pensar no que você tem feito no mundo. Você pode estar adoecendo xs amiguinhxs.

louca

Laiz! Eu me identifico! To sofrendo! O que eu faço?

Se tiver sofrimento é porque esse jeito de lidar com a realidade não ta sendo mais suficiente pra você. É hora de construir repertório, coração!

E ainda não acabou! Essa última vinhetinha ajuda a gente a pensar em otrascositas más!

Os homens chegam ao meu consultório dizendo que andam nervosos no trabalho. As mulheres chegam dizendo que parece que estão ficando loucas. O humor do homem tem razão de ser, algo o está deixando nervoso. O humor da mulher é só fruto dela mesma, é ela que vê coisas onde não tem, que fica histérica quando algo acontece. Sabe como se chama isso? Ma-chis-mo. E quando dizemos que profissões são de homem, outras de mulher? Tam-bém.

Então, pessoal, cuidado com as palavras. Tem sempre uma história por trás delas. Cuidado pra não enlouquecer x coleguinhx, x filhx, x amigx, x vizinhx, x namoradx, por elx não ser como você. Pra cada um, a loucura é do outro, e a recíproca é sempre verdadeira – um professor meu na faculdade disse, inclusive, que construímos os manicômios pra isso, pra nos lembrarmos que os loucos são os outros.

dooutroladosótemlouco

Que tal encararmos cada um como é, sem pensar em classificar? 😉

*essas foram vinhetas de histórias de todo dia, de todos os meus clientes, das pessoas que cruzam as ruas, minhas, suas, nossas, etc.

* Laiz Chohfi trabalha como psicóloga na Universidade de São Paulo (USP). É pesquisadora no LEFE-USP (Laboratório de Estudos em Fenomenologia Existencial e Prática em Psicologia), professora na Universidade Paulista (UNIP) e atende em consultório particular. Mãe de dois gatos, é amante de (dirigir) bons carros e está constantemente pensando na próxima tatuagem.


Laiz Chohfi

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