Conheça a carioca que quer revolucionar a praia com o “Uber das areias”

Carol é daquelas cariocas falantes, bem-humoradas, que se apresentam pelo signo antes do nome. Do tipo que aplaude o pôr do sol no Arpoador depois do sagrado banho de sol e mar. Mas essa Carol tão descolada é também Carolina Martins, uma empreendedora obstinada, criadora do “Na Praia. Conhecido como “Uber das areias”, o app faz sucesso ao proporcionar uma dose extra de conforto aos banhistas do Rio e do mundo.

O objetivo principal do aplicativo é facilitar o comércio nas praias, tanto para os clientes quanto para os vendedores. Seu filho quer um picolé e só passa o cara do sanduíche natural? O moço do biquíni está demorando a aparecer? Nenhum mate gelado à vista para matar a sede? É só baixar o Na Praia gratuitamente, chamar o vendedor mais próximo e escolher se paga no dinheiro ou no cartão pelo próprio aplicativo. Mais fácil que isso não fica.

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Em um bate-papo descontraído com o Hypeness, Carol falou sobre o desenvolvimento do Na Praia, o susto de um acidente, a amizade com os vendedores e o machismo no meio do empreendedorismo. Pegue uma cadeira, abra um biscoito Globo e entre na conversa.

Hypeness (H) – Como surgiu o Na Praia?

Carol Martins (CM) – Surgiu porque eu sou taurina, né? Sou muito preguiçosa, adoro comodidade. Sempre gostei muito de serviços como o Uber. O Na Praia surgiu quando brotou uma ideia: “Poxa, e se eu chamasse pelo celular e alguém viesse me entregar?”. Porque tem aquele velho problema na praia, você sabe. Quando você quer o sucolé do Claudinho, por exemplo, ele nunca passa. Parece a Lei de Murphy – se você quer, o Claudinho nunca vai passar.

Então veio a ideia, que nem tem nada de genial. Na verdade, ela já fervilhava na cabeça de muita gente. Eu leio mil e-mails e comentários no Facebook por dia dizendo “Poxa, eu tinha pensado exatamente isso!”. Foi apenas uma identificação de demanda.

H – E como saiu da cabeça para a prática?

CM – É aquela coisa, né, você tem uma ideia e ela fica ali meio adormecidinha. Acontece que eu sofri um acidente de trânsito super sério no ano passado. Bati de frente na Fonte da Saudade, o carro depois pegou fogo… mas sobrevivi. Só que eu quebrei costela, fêmur, punho… fiquei toda quebrada, não podia fazer nada, nem trabalhar. Comecei a ficar muito entediada. Então eu decidi colocar em ação todas as ideias que eu tinha. Na época, eu namorava – hoje o meu ex é meu sócio – e falei dessa ideia do Na Praia. Ele achou muito boa e a gente começou a montar o plano de negócio.

A partir daí, essa fase de plano de negócios foi um grande exercício. Analisar um monte de números, de projeções para acreditar que a ideia é boa. Porque no início é uma intuição, né? Depois que você acredita, tudo muda. Eu já tinha a arquitetura do app na cabeça e logo depois de tirar o gesso do punho, comecei a fazer as interfaces no In Design. Fluiu muito rápido. Aí a gente resolveu programar o app e assim nascia uma start-up.

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H – O que acha da alcunha de “Uber das areias”? Não dá a entender que é um app de transporte?

CM – Eu gosto. É uma maneira didática de explicar. Tem tudo a ver pelo lado do ciclo virtuoso do consumo, pelas avaliações que incentivam melhorias na prestação do serviço. Por exemplo, uma prática que copiei descaradamente deles é chamar vendedores mal avaliados para conversar. Assim eu posso estimulá-los a melhorar.

H – Dá para perceber que você criou uma relação muito forte com os vendedores, pessoas com bagagens e histórias bem distintas. O que essas amizades têm acrescentado à sua vida?

CM – Tudo! É super difícil empreender. Você não tem dinheiro, é um ato motivacional que precisa ser renovado a cada dia, como tomar um banho. Tem dias que você não consegue cumprir uma meta, as coisas não vão bem e eles são os meus maiores apoiadores. O app é realmente vantajoso para eles, cria uma relação de transparência com o cliente. Nos damos tão bem que chega a ser um problema o tempo que eu gasto conversando com eles (risos). São pessoas cheias de histórias para contar, estão sempre para cima, acho que por causa do sol. O Aristeu, que faz as melhores caipirinhas da praia, diz que a maior vantagem de trabalhar ali é ver o sol nascendo e se pondo. É lindo isso. Essa leveza eu quero captar para mim também.

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H – Você disse que eles são cheios de histórias para contar. Quais, por exemplo?

CM – Ah, o próprio Aristeu é uma figura. É barraqueiro há 38 anos, veio do Maranhão ainda na época da ditadura, sem nenhum dinheiro no bolso. Participou de movimentos estudantis e começou a trabalhar na praia porque adora o sol. E ainda é sambista, compõe sambas-enredo para a Grande Rio. Tem o Uruguai, que veio para cá na época da ditadura uruguaia. Um cara super inteligente, culto, fez vários cursos de sociologia. Tem a Carol, que é publicitária, administradora. Começou a vender cerveja no carnaval e nunca mais parou. A Michele do sanduíche natural, o Bandeirinha que tem até uma página no Facebook com mais de 30 mil curtidas… todos me inspiram muito.

H – Eles já tinham um lado empreendedor natural?

CM – Bom, alguns não tinham nem conta bancária, fui a uma agência com eles para abrir. Outros são super empreendedores, até me ensinam a fazer negócio. O Marquinho, que é o “Árabe do Pepê”, costuma dizer: “Se a escola da vida fosse um comércio, a praia seria a pós-graduação”. Ele é super criativo, anda pelas praias com um camelo de fibra de vidro.

Outra coisa que eles me ensinam é a entender a sazonalidade do negócio na praia. É uma coisa bem de formiguinha, trabalhar muito no verão pra poder estar preparado para as baixas. Aprendi com eles a observar este ciclo.

H – Um dos estereótipos da praia é aquela história de ser um lugar de todos, democrático. Quanto de verdade tem nisso?

CM – Acho que a praia é democrática, sim. Mas a gente tem que lutar para que continue democrática. Para que seja realmente um espaço público, inclusivo, que abrace a cidade inteira. Porque você vê gente colocando empecilhos, como pessoas do Leblon reclamando que o metrô irá deixar a praia cheia de gente da Zona Norte. É uma discussão tão mesquinha. A praia não permite esse tipo de divisões, essa é a beleza dela.

Existem movimentos para privatizar a areia aqui no Rio através de concessões. Dizem que é em nome da organização, da infraestrutura. E o próprio app mostra que não é bem assim, que dá para evoluir com iniciativas da própria população, inclusive oferecendo uma tecnologia gratuita. Existe uma falsa crença de que precisa privatizar para organizar. Essa bandeira eu nunca vou levantar na vida. Sou apaixonada por espaços públicos – e quer espaço mais público do que a praia?

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H – Como é ser mulher e ter seu próprio negócio? Mulheres encontram mais dificuldades no mundo do empreendedorismo?

CM – Com certeza. Primeiro pelo machismo clássico de acharem que lugar de mulher é na cozinha, que mulher não pode empreender, que deveria estar no salão de beleza ou alguma coisa do gênero. Outra dificuldade que eu tenho encontrado com frequência é não poder ser dura. Quando você é dura falam que você é agressiva, mal comida – mulher tem que ser subordinada, ter a fala mansa.

Outra clássica é a falta de credibilidade, ainda mais sendo uma mulher jovem. “Quem garante que isso vai dar certo?!”. Mas quando é um homem de 30 anos é porque nasceu com um dom, vai ser um empresário de sucesso. Tem ainda o lance do assédio por trabalhar de shortinho na praia, o pessoal fica olhando. Mas eu consegui superar essas coisas sendo muito firme. Acredito que o empreendedorismo seja mais um meio para as mulheres se posicionarem. Além disso, as estatísticas mostram que as mulheres voltam mais os seus negócios para o impacto social. E o mundo vai mudar através do empreendedorismo social.

H – O Na Praia atualmente opera na Zona Sul do Rio, mas tem planos de chegar em breve na Barra, em Niterói e em Búzios. Você pensa em expandir até outros estados e países?

CM – Sim, porque o negócio é altamente repetível e escalável. A minha operação consiste basicamente em uma rede prestadora de serviços de um lado, os usuários do outro e a plataforma conectando. Então em qualquer lugar que tenha serviços e consumidores eu consigo reproduzir o meu modelo de negócio. Já me falaram muito em levar o aplicativo para Recife, por exemplo, e até para o Algarve, em Portugal. Basta ter um tempo de imersão, para entender as características do lugar, e criar a rede de serviços.

H – Como seria a praia ideal para você?

CM – Com todos conectados ao Na Praia, é claro! Não, brincadeira, é que eu acho a praia já tão ideal, sabe? Eu me mudei de Brasília para o Rio para me curar de uma depressão. Meu exercício era simplesmente ir à praia todo dia. E deu certo! É um lugar mágico.

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Todas as imagens © Divulgação/Na Praia

O app está disponível para iOS e Android.

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