Roteiro Hypeness

Com 460 anos, bairro da Mooca está mais jovem e descolado do que nunca, meu!

por: Brunella Nunes

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Reduto juventino, italiano e de uma das gírias mais usadas pelos paulistanos (né, meu!), o bairro da Mooca completou 460 anos em 2016, mas está mais jovem do que nunca. A região tem atraído bares e restaurantes descolados, além de ser reduto de arte urbana que, aos poucos, tem colorido ainda mais seus arredores.

Ao adentrar no bairro, percebemos que o antigo e o novo caminham de mãos dadas. Embora tenha uma forte presença industrial, abrigando até 2014 o que restou de uma das maiores fábricas de discos de vinil da cidade, a Continental, que agora ocupa um galpão na Barra Funda e ganhou o nome de Vinil Brasil. Essa cultura nostálgica continua forte na região, que ainda conta com o icônico Feirão do Vinil, que às vezes troca boas ações (como doação de agasalhos ou de sangue) por discos, e sua extensão, Casarão do Vinil, loja que tem mais de 100 mil LP’s no acervo.

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Foto: © Wilson Natal

Pela Mooca também se o projeto Jack Records. Essencialmente itinerante, a loja funciona no porta-malas de um clássico Ford Galaxie de 1967, levando discos até eventos e demais ruas de São Paulo, mas agora também tem um ponto fixo, de apenas 1 m², dentro da lanchonete Hot Rod Dog. Apaixonado pelo universo retrô e sócio nas duas empreitadas, Alexandre Brazales me explica porque a região atraiu seus negócios. “O que a gente sempre gostou no bairro é que, talvez, seja o mais tradicional da cidade. Tem muita identidade. Tenho muitas teorias sobre a Mooca, o que a mantém tão reservada, especial, intocável diante o processo selvagem de SP e a especulação imobiliária.”

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De fato, essa sensação de pertencimento, acolhimento e raízes que a região mantém é o que faz com que muita gente se apaixone pelo lugar e queira ficar lá para sempre, como é o caso da professora Jaqueline Brizida, que mora por ali há dois anos e mantém o Instamooca, perfil de fotografias que mostra pequenos encantos cotidianos do bairro. “Antes de morar aqui, eu já frequentava jogos do Juventus, restaurantes e padarias da região. Ao me mudar para cá me apaixonei de vez e comecei a fotografar o local. Eu me sinto completamente integrada ao bairro e, se depender de mim, não saio mais daqui.”

E o que há de tão especial, afinal? A ideia lúdica de estar longe de uma metrópole, mesmo estando, também complementa a lista de motivos que tornam a Mooca um lugar único. “Tenho várias momentos e situações diárias que me fazem sentir no interior. O morador passa essa atmosfera. Na primeira semana que trabalhei na Mooca me impressionei. Se está andando na rua e cruza com uma pessoa, ela te dá bom dia”, pontuou Brazales.

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Por lá, “belas” e “belos” (mais uma gíria mooquense que representa a forte presença de imigrantes italianos) circulam entre casinhas antigas, comércios pra lá de tradicionais, como se vê na Rua Henrique Dantas e outras tantas, e o Museu da Imigração, que narra a história dos movimentos migratórios dentro da cidade e não poderia estar melhor localizado. Este cenário vintage ainda perdura, mas agora divide espaço com vizinhos bem diferentes. Em meados de 2013 o bairro começou a dar indícios de que ganharia um novo público, sedento por novidades que vão além das mais de 100 cantinas e pizzarias tradicionais.

Sócio de Brazales no Hot Rod Dog, Eduardo Jarussi também mantém no bairro um dos endereços mais icônicos da nova geração, o Cateto, bar focado em queijos, embutidos e cervejas artesanais que começou a trazer um novo público e um novo tipo de comércio para a região. “Quando decidimos abrir o bar queríamos um lugar que tivesse história e conteúdo para doar, não queríamos banalizar nossa proposta em mais uma esquina pasteurizada do Itaim ou da Vila Madalena. Decidimos que seria na Mooca para absorver e vestir a atmosfera do bairro, tradicional, antigo e pitoresco. Tínhamos muita similaridade com a gastronomia italiana tradicional, espanhola, uma pegada européia, de migrantes, etc… E o bairro era tudo isso! E mesmo na época não haver praticamente nada com a nossa linguagem mais contemporânea acreditamos e abrimos nossa portinha simpática em uma rua praticamente sem comércio e passamos a fazer parte da paisagem do bairro”, contou.

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A modernização se atribui também aos moradores que deixam de ser apenas nonas e nonos, abrindo portas para pessoas entre 20 e 35 anos, como é o caso da Jaqueline. Seguindo o cheiro de novidade com nostalgia, as empreiteiras que visam os novos moradores precisam, antes de mais nada, entender que ali é um lugar com identidade já consolidada, com um patrimônio histórico gigantesco precisando de mais respeito e até mesmo de restauração dos antigos galpões abandonados, por exemplo. O que eu acho mais triste é ver que o estilo arquitetônico local quase nunca é considerado na construção de novos prédios. Eu penso que a Mooca é legal justamente por ser diferente. Por que não valorizar isso? Na minha opinião, não se deve tentar mudar a cara da Mooca para torna-la ‘mais atraente’. A Mooca é incrível justamente por ser como é”, revelou o coração apaixonado de Jaqueline.

Chaminé do século 19, da antiga Companhia União dos Refinadores, foi tombada e resistiu à construção de prédios no entorno

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Para Brazales, a sensação é a mesma e o fato de alguns resistirem à essa era moderna é o tempero, a essência da região. “Tem aquele aspecto italianão, que não gosta de coisa nova, de modernização, e isso contribui muito para o bairro ser como é hoje. Existe uma nova geração que tem ajudado a mudar a Mooca nos últimos 10 anos, mas que foram para lá em busca de identidade e custo de vida um pouco mais baixo. Estamos ajudando na revitalização, explorando até o lado de tornar a região uma atração turística”.

Rua com trilhos de um antigo bonde

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Mooca Baixa vem aí

Essa vibe meio hipster, meio tradicional, meio mooquense, se expande pelos arredores do Cateto, que deu tão certo que se expandiu com mais uma unidade em Pinheiros, tudo pulsando ao redor da icônica Rua do Mooca. Aos poucos, o lado que aponta sentido Brás vem ganhando o apelido de Mooca Baixa, como acontece na fatídica Rua Augusta, aquela que liga o Jardins ao Centro de São Paulo. Esse lado, cheio de neons e tijolinhos à vista, seria aquele que por muito tempo passou despercebido, esquecido e, pelo enorme potencial que tem, precisa ser revitalizado, respeitando a memória e as tradições que deixam o bairro com cara de Meatpacking District, em Nova York, com um pé em Williamsburg.

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Como não existe transformação positiva sem uma boa dose de cultura, existe um movimento que encabeça boa parte das ações, o projeto chamado Distrito Mooca, focado em economia criativa e na revitalização da zona industrial. Bastante engajado com o bairro, José Américo Crippa, ou Tatá Lowrider, encabeça estas ações e comanda o bar-lanchonete Cadillac Burger, o estúdio Paint Black Tattoo e o espaço de arte e eventos Disjuntor. Ano que vem pretende abrir outra lanchonete pelos arredores e colocar imóveis para locação no Airbnb.

Inaugurado há poucos meses, o Disjuntor acompanha a nova cara da região e já faz a cena cultural ferver. Junto com Mônica e Mozart Fernandes, ex-gerentes da Vértices Casa e responsáveis pela repaginada na também descolex Pizza da Mooca, Tatá abriu as portas do endereço num edifício que estava abandonado. A programação, que já contou até com shows de Karina Buhr e Mombojó, inclui bazares de arte, design, moda, lançamentos de livros, exposições e festas pra lá de animadas, como uma edição da Free Beats, um dos principais movimentos de ocupação da cidade.

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Fotos: © Bruno Guerra

A fama dos lugares despretensiosos e diferentes para os padrões locais se espalhou. Assim, a Mooca foi redescoberta, passando a atrair um público que não era das redondezas. Em 2015 veio o BTNK, que falamos aqui no Hypeness, com uma pegada mais hipster do que nunca: um bar e lanchonete dentro de um antigo vagão de trem, de 1918. O que era para ser essencialmente temporário e durar apenas alguns meses já se prolonga por mais de um ano desde sua inauguração. De fato, a estação desativada por anos merecia uma atenção maior e, se não é do poder público, que seja de empreendedores com boas ideias. O lugar é bem legal, com bandas de jazz tocando ao vivo e público sem aquele carão blasé. Ao lado, a galera do Nos Trilhos tratou de incluir festinhas por onde o trem passava, que rapidamente se tornaram disputadas, como é o caso da Festa Junina e o Halloween.

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Para complementar o chamado distrito Mooca, notamos que pelas ruas principais se enxerga também muitas cores pelos muros, brotando o que podemos chamar de um novo pólo de graffiti e arte urbana. Um breve passeio pela Rua da Mooca, Rua Borges de Figueiredo, Rua Piraçununga com a Mogi Mirim e Rua João Antônio de Oliveira com Ezequiel Ramos mostra que murais coloridos vieram para repaginar um lado que por muito tempo ficou cinza e sem vida.

Outros pontos de interesse para quem deseja tomar rumos nada tradicionais na Mooca é o bar de rhythm and blues CC Rider Blues and Beer, a barbearia e loja de cervejas artesanais BarBear Shop, o pub com gramado para pets serem felizes Hoxton Bar, a renovada A Pizza da Mooca, a balada e pista de patinação Rollerjam, o Gennaro Food Park e ainda a mais nova bolacha do pacote, a Hospedaria, restaurante italiano-paulistano de Fellipe Zanuto (da Pizza da Mooca).

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Como eu sei que também não vale a pena perder de vista os pontos mais antigos e icônicos do bairro, aqui vai a listinha de itens a se fazer: comer um cannoli no Di Cunto, se deslumbrar com os mais de 120 itens do balcão de acepipes do Elídio Bar, sentar ao lado da Mafalda no bar argentino MoocAires, provar as fatias da Pizzaria do Ângelo ou reunir a família na Pizzaria São Pedro, provar as massas do Don Carlini, assistir a um jogo do Juventus, aproveite para provar a culinária árabe da Esfiha Juventus, pegar um pão fresquinho na Padaria Carillo eresolver toda a sua larica por doces no A Casa do Churro, especialista em churros de roda espanhol.

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Tudo isso e mais um pouco acaba atraindo pessoas que não são do bairro, mas que se entregam aos seus encantos. É o caso do boliviano Checho Gonzales, dono da Comedoria Gonzales, em Pinheiros, que sempre cola e até cozinha como convidado nos estabelecimentos de amigos do Cateto e do Cadillac Burger. “Provavelmente a Mooca é um dos bairros a crescer e se desenvolver com linguagem moderna, com identidade, não apenas por consumismo. É muito legal pegar algo na Di Cunto, a comida vem com cheiro de tradição. A Pizza da Mooca é uma referência pra minha família, um lugar que consigo ter a companhia de minha filha. Mas sei que existem muitos lugares que tenho que visitar e com tempo o farei”. Tudo indica que muitos farão como Checho, irão visitar todas as novidades e tradições mooquenses.

Como nada é perfeito, a Mooca tem um (“só um”, tá, belo?) defeito que precisa urgentemente ser consertado e, por isso, vale a menção nessa matéria: “precisamos plantar mais árvores!”, entregou Jaqueline. De fato, o legado industrial não deixou um bom rastro ambiental para os mooquenses que contam com poucas praças e parques. Segundo a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, é a região com menor quantidade de área verde em São Paulo. Para combater o problema sem esperar por medidas do poder público, os próprios moradores criaram coletivos que realizam mutirões de plantios, o Muda Mooca e o Movimento Mooca Verde. Próximo da estação de metrô Bresser-Mooca também tem uma grande horta comunitária, a Horta das Flores.

Mesmo que ainda não tenha tantas áreas verdes como deveria, a região tem o principal ingrediente para crescer bem e forte: uma legião de moradores apaixonados. E, pelo o que vimos, esse amor tem tudo para durar mais 460 anos.

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Criei um mapinha com alguns estabelecimentos citados neste post:

Os trilhos que levam da balada ao trabalho

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O cenário industrial misturado aos graffitis encanta e realmente lembra o Meatpacking District, em NY

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Uma solução prática para resolver a falta de verde: trepadeiras nas casas!

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Barbearias moderninhas também estão surgindo por estas bandas…esse é o BarBear Shop

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O quase-gringo Cadillac Burger: é no Brasil? É na Mooca.

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Restaurante Hospedaria, um dos caçulas do bairro

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A simpática Mafalda no MoocAires, um pedaço de Buenos Aires na Mooca

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Fotos: © Brunella Nunes e divulgação


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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