Matéria Especial Hypeness

Todos os sentimentos no adeus ao poeta Ferreira Gullar

por: Vitor Paiva

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O poeta está morto, e não há texto, obituário, poema ou canção que possa dar conta do que significa, para além do frio fato, tal acontecimento. Junto com o maranhense Ferreira Gullar vai ainda mais o século 20, esse século eterno que parece ter decidido se encerrar inteiramente nesse 2016 igualmente sem fim. Gullar leva consigo mais um pouco da força-tarefa a que se incumbiu a literatura brasileira dos anos mil-novecentos, de dar conta, nome, significado, sentido, caminho, futuro, passado e profundeza ao que hoje chamamos de Brasil.

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Dizer que as contradições, os paradoxos, as incongruências e eventuais desavenças que Gullar defendeu agora não mais importam não é questão de condescendência ou atalho para se tentar polir o morto em questão. Não. Gullar foi ativo militante comunista e bravo combatente da ditadura militar e, na parte final de sua vida, tornou-se crítico inclemente das esquerdas e opositor ferrenho dos governos Lula e Dilma. Jamais permitiu que o resumissem, no fim da vida, como alguém de extrema-direita, mas passou a criticar o que havia se tornado as experiências socialistas no mundo todo.

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O suposto vazio das artes chamadas contemporâneas também foi motivo de críticas e desafetos por e para Gullar, que nunca se despiu nem fugiu de sua rara posição de um poeta que suja as mãos no debate público.

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Esteja, portanto, o leitor do lado que for das questões políticas, estéticas e históricas para as quais Gullar emprestou suas opiniões, o fato é que o que moveu essa vida, o que agora resta, enorme, foi, acima de tudo, sua poesia. Não é preciso escolher um “lado” diante da morte de Gullar – seja esquerda, direita, seja um artista contemporâneo ou um crítico clássico, o que há de restar é o lado da poesia. Motivos para discordância, crítica ou defesa de suas opiniões existem diversos – mas sua poesia caminha em paralelo, como uma das mais luminosas de toda literatura.

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Que permanece carne viva, enfim (e para sempre) indo além do corpo, que finalmente perece. “(…) corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo/ meu corpo feito de água e cinza/ que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio/ e me sentir misturado a toda essa massa de hidrogênio e hélio/ que se desintegra e reintegra/ sem se saber pra quê”. Nascido na cidade de São Luís, no Maranhão, como José Ribamar Ferreira em 1930, Gullar viria a destacar-se em praticamente todas as áreas da escrita artística no país – mas foi a poesia que o ofereceu lugar cativo no debate nacional. Gullar talvez tenha sido o último poeta “público” brasileiro, aquele artista, tão típico do século passado, que oferece sua poesia como parte real da possível transformação social e política de uma nação; o poeta que sabe que sua voz só existe na elevada condição da multidão, como um pequeno corpo que é capaz de guardar dentro, nas palavras, a população, seu ódio e amor.

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E que, ao mesmo tempo, parece sempre cantar uma poesia do mundano, daquilo que não seria importante, do poema presente nas menores e menos expressivas coisas reais – e, ao mesmo tempo, da fúria com que esse mínimo poema escondido pode subitamente nos invadir, sempre como um gesto corporal, um espasmo incontrolável, um espanto que, para ele, era condição para que pudesse haver a poesia. “Corpo meu corpo corpo/ que tem um nariz assim uma boca/ dois olhos/ e um certo jeito de sorrir/ de falar/ que minha mãe identifica como sendo de seu filho/ que meu filho identifica/ como sendo de seu pai”.

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Se em “A Luta Corporal”, Ferreira Gullar, com 24 anos “desintegrou” a linguagem poética, fragmentando palavras e sentidos e encaminhando a poesia para a descoberta de novas formas (na direção da palavra enquanto imagem, da linguagem escrita enquanto performance e arte visual, da participação do leitor como parte do poema), é em seu super comemorado “Poema Sujo” que Gullar encontra seu mais forte chão e voz.

Gullar na Argentina, durante seu exílio Gullar na Argentina, durante seu exílio

Escrito durante o exílio na argentina, no ano de 1975 – quando vivia clandestino, com seu passaporte cancelado – Gullar, escreveu o Poema Sujo tomado pela ideia de sua própria morte, para ele então iminente. O poeta adentrou um estado permanente de escrita convulsiva, que perdurou por cerca de seis meses, culminando em um poema longo e cheio de facetas, ora lírico, ora experimental, ora narrativo, tratando de passado, presente e do futuro tanto da própria vida do poeta, quanto do continente latino-americano e da situação sócio-política do Brasil.

Lançamento do Poema Sujo no Rio de Janeiro, sem a presença de Gullar (Na foto, Mário Lago, Mario da Silva Brito, Guguta e Darwin Brandão, Ziraldo, Cacá Diegues, Leon Hirszman, Bete Mendes, Zuenir e Mary Ventura, entre outros) Lançamento do Poema Sujo no Rio de Janeiro, sem a presença de Gullar (Na foto, Mário Lago, Mario da Silva Brito, Guguta e Darwin Brandão, Ziraldo, Cacá Diegues, Leon Hirszman, Bete Mendes, Zuenir e Mary Ventura, entre outros)

O livro só pôde chegar ao Brasil pelas mãos de Vinicius de Moraes, que gravou Gullar lendo seu Poema Sujo em primeira mão, na Argentina e, já no Rio de Janeiro, organizou audições entre a classe artística, e enfim colocou-o no papel. No lançamento do livro Poema Sujo, em 1976, Gullar não pôde estar presente,ainda proibido de voltar ao país, mas o sucesso da publicação e a força assombrosa da escrita acendeu a campanha por sua volta.

Gullar com os amigos Vinicius de Moraes e Rubem Braga, conversando com o poeta chileno Pablo Neruda Gullar com os amigos Vinicius de Moraes, Rubem Braga, e o poeta chileno Pablo Neruda

A morte, essa matéria prima de seu poema maior, veio a se concretizar somente (e exatos) 40 anos após sua publicação, quando enfim morre o corpo que Gullar metaforicamente matava no poema que o tornaria (muito mais do que a nomeação à cadeira da Academia Brasileira de Letras) imortal. “(…) corpo que se para de funcionar provoca/ um grave acontecimento na família:/ sem ele não há José Ribamar Ferreira/ não há Ferreira Gullar/ e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta/estarão esquecidas para sempre”.

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Talvez o certo fosse simplesmente publicar aqui seus poemas, palavras suas, e não outras que tentem dar conta do que foi o poeta que agora se foi. “Acho que mais me imagino/ do que sou/ ou o que sou não cabe/ no que consigo ser/ e apenas arde/ detrás desta máscara morena/ que já foi rosto de menino./ Conduzo/ sob minha pele/ uma fogueira de um metro e setenta de altura.” A profunda força da própria existencial pessoal, carnal e individual da pessoa do poeta, que tanto se afirma em seus escritos, ao mesmo tempo parece servir de motor para que sua poesia possa atuar justamente no campo comunitário, no sentido social que a arte possuía (e talvez ainda, sempre, possua).

O poeta tornando-se membro da Academia Brasileira de Letras - título que Gullar passou a vida toda afirmando que jamais aceitaria O poeta tornando-se membro da Academia Brasileira de Letras – título que Gullar passou a vida toda afirmando que jamais aceitaria

Assim, a morte de um poeta se torna uma espécie de despedida coletiva, de todos nós, para todos nós, de um tempo que passou e que nos formou, onde o poeta “criança” se confunde com o próprio século que, no Brasil, ele ajudou a moldar. “Não quero assustar ninguém/ Mas se todos se escondem no sorriso/ na palavra medida/ devo dizer/ que o poeta Gullar é uma criança/ que não consegue morrer”.

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É possível hoje descordar com veemência, como eu mesmo faço, de tudo que Gullar afirmou enquanto crítico de arte, literário ou articulista político na metade final de sua vida – mas não é possível diminuir sua poesia. Uma poesia que expôs a ausência de fronteira entre aquilo que somos (que pensamos que somos) e o que podemos ser (e somos também) – entre nós e o outro; outro que há em nós ou que de fato é um diferente alguém. Importa, portanto, a gigantesca contribuição da sua poesia – que, como a vida insiste sempre em nos impor, por maior que seja, está sempre restrita a um corpo falho, humano, finito, “e que pode/ a qualquer momento/ desintegrar-se em soluços (…)”.

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O próprio Gullar sublinhou, ao longo de toda sua vida e obra, os limites desse corpo, como base de uma construção poética que só ela parece agora capaz de nos oferecer consolo e contorno diante de todos esses corpos, célebres ou anônimos, próximos ou distantes, que tanto insistem em morrer. “Só disponho de meu corpo/ para operar o milagre/ esse milagre/que a vida traz/ e zás/ dissipa às gargalhadas”.

© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta e Só o Sol Sabe Sair de Cena.

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