Entrevista Hypeness

Casal volta ao Brasil e conta o que aprendeu após viajar o mundo de carro

por: Joao Rabay

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Foram 43 meses viajando o mundo a bordo de um carro, passando por 78 países de cinco continentes. Leonardo e Rachel Spencer, do Viajo Logo Existo, dirigiram mais de 120 mil quilômetros, lançaram três livros (o quarto está a caminho) e chegaram ao Brasil em dezembro.

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A viagem, a bordo de um Land Rover equipado com barraca no teto, começou em São Paulo. O casal desceu até a Argentina e de lá viajou pela América com destino aos Estados Unidos. Para ir até a Europa, enviaram o carro em um navio. Depois de rodar pelo continente, passaram meses na África antes de ir para a Ásia e, finalmente, a Oceania.

De volta à casa, em São Paulo, depois de 1324 dias na estrada, Leonardo e Rachel bateram um papo com o Hypeness, falando de experiências, aprendizados e desafios.

Planejamento

Deixar o emprego para trás e viajar por aí é um dos principais sonhos dos jovens, mas, no caso de Leo e Rachel, tudo foi feito com bastante planejamento, nada de “jogar tudo para o alto. Os dois passaram meses juntando dinheiro e desenhando a rota que seria seguida antes de partir de São Paulo em maio de 2013.

Mesmo assim, durante a viagem, parte dos planos foi adaptada para não deixar de aproveitar oportunidades inesperadas. Logo na primeira perna da aventura, na América do Sul, a estadia no Peru foi estendida de 30 dias para dois meses.

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Foram três meses na África do Sul, dois na Tanzânia e no Quênia. “A gente sempre pensava que seria o lugar mais difícil de voltar, então valia a pena flexibilizar e ficar mais”, conta Rachel.

De forma geral, os dois conseguiram seguir o roteiro, fechando a viagem em 43 meses, bem perto dos 42 planejados. Eles se permitiam ficar mais ou menos tempo que o esperado em alguns lugares, dependendo do quanto estivessem gostando, mas sempre respeitando as estações: evitar a época dos furacões no Caribe e as monções na Índia e pegar a época das migrações de animais na África, por exemplo.

Segurança

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Para garantir ao máximo a segurança durante a volta ao mundo, os dois se mantiverem fieis à ideia de só dirigir durante o dia. O casal sempre tentava entrar em contato com quem tinha estado nos países que eles visitariam em seguida para obter mais informações.

Mas, sempre sujeitos a contratempos, eles foram surpreendidos por um furto em Valparaíso, no Chile, justamente o país que eles consideravam (e ainda consideram) o mais seguro da América Latina.

Talvez o momento mais tenso dos quase 4 anos de estrada tenha sido no México, quando, temendo o risco de serem vítimas de um golpe, eles não pararam numa espécie de blitz montada por uma polícia comunitária. O carro ficou sob a mira de uma arma, e o choque fez com que o casal ficasse sem se falar por algumas horas.

Na República Democrática do Congo, único país pelo qual eles passaram que esteve em guerra recentemente, o casal esteve sempre acompanhado por guardas armados por fuzis. Apesar da estranheza de estar rodeado por armas o tempo todo, eles não tiveram nenhuma experiência violenta por lá.

Comunicação

Para se comunicar, os dois apostaram no espanhol na América Latina e no inglês no resto do mundo, sem deixar de tentar aprender um pouco dos idiomas locais. Leo lembra de quando contou as palavras que sabia em suaíli, língua falada na Tanzânia e no Quênia.

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Expressões chave como “como você está?”, “meu amigo” e “estou com fome” serviam de ponte para conversas em inglês ou, quando necessário, para a mímica. “Eles adoram quando percebem o interesse pelo idioma, e é uma ótima forma de fazer amigos”, conta Leo.

Esse bom relacionamento abriu portas, como quando eles assistiam à migração de animais no Quênia e o guia abriu uma exceção, permitindo que eles descessem do carro para observar mais de perto, escoltados por dois guardas armados.

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Os dois evitaram contratar guias ou tradutores, afinal, eles são um custo pesado no orçamento. No Marrocos, quando o carro quebrou, foi inevitável contar com a ajuda do dono da pousada para se comunicar com o mecânico, que só falava árabe e queria cobrar mais do que eles dispunham para arrumar o veículo.

Acomodação

Ao longo dos 43 meses de viagem, Rachel e Leonardo tiveram vários tipos de acomodação para dormir: eles levaram uma barraca no carro, para gastar o mínimo possível com hospedagem, dormindo em campings ou hostels.

Rachel em tenda na ZâmbiaRachel em tenda na Zâmbia

Com o passar do tempo, conforme o projeto foi atingindo mais pessoas, surgiram convites para passar alguns dias na casa de fãs do projeto, a maioria brasileiros – foram quase 400 dias assim.

Eles também se permitiram ficar em pousadas ou hotéis quando o cansaço da estrada apertava, especialmente na Ásia, onde a diária de um lugar legal pode ser até mais barata que a de um hostel na Europa.

Nascer do sol na Muralha da China, onde o casal passou uma noite

Algumas acomodações se tornaram grandes experiências. Destaque para uma noite que eles passaram em cima da Grande Muralha da China E para a tenda onde eles dormiram na Zâmbia, quando Rachel foi acordada por Leo, que disse: “Só abre o olho, não se mexe”. O que ela viu? Um elefante logo na porta, só com a uma tela entre eles e o animal.

Já no Congo, os dois passaram uma noite no topo do Vulcão Nyiragongo, observando os lagos de lava abaixo. O enxofre chegou a corroer a estrutura das barracas onde eles dormiram!

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Alimentação

Rachel é fã de culinária – tanto que criou o Viagem Comida como braço do Viajo Logo Existo -, e a volta ao mundo foi uma oportunidade de experimentar novos sabores, tentando vivenciar a culinária do dia a dia local – na maioria dos dias, para economizar, eles mesmos cozinhavam, utilizando os ingredientes nativos.

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Eles chegaram a experimentar grilo frito no México – chamado Chapolin -, mas evitavam o que chamam de “alimentação de turista”, como os escorpiões na Tailândia, onde um morador chegou a dizer que só tinha comido o animal uma vez na vida.

Leo e Rachel até viram alimentos diferentes, como as sopas de cobra em Taiwan e os sapos, cobras e lagartos em Laos, mas preferiram não experimentar nada do tipo.

Pad Thai, prato típico tailandês
Pad Thai, prato típico tailandês

Em muitos dos quase 400 dias em que ficaram hospedados em casas de pessoas, a maioria brasileiros, eles comeram a comida típica do nosso país, o que ajudou a evitar aquela famosa saudade do arroz e feijão.

Higiene

Os hábitos de higiene são uma das diferenças culturais mais marcantes em alguns países. Em muitos dos lugares por onde o casal passou não se usa papel higiênico, problema que eles contornavam com facilidade graças ao carro, onde sempre levavam alguns rolos.

Mesmo em locais onde o banho não é um hábito diário, os viajantes procuravam algum lugar com chuveiro para se limpar, ainda que às vezes isso representasse gastos adicionais ao planejado.

Eles observam que a globalização já diminuiu bastante os desafios quando se trata dos banheiros. Em países muçulmanos, onde, em vez de vasos sanitários, se usa buracos no chão, os estabelecimentos costumam construir banheiros especiais para os ocidentais, com a privada com a qual estamos acostumados.

Pessoas

Se viajar é sempre uma oportunidade de conhecer novas pessoas, imagine quando você decide dar a volta ao mundo… Um dos grandes aprendizados de Leonardo e Rachel foi perceber que há muito mais gente boa e disposta a oferecer ajuda do que eles esperavam.

Leo e Rachel com amigo no NepalLeo e Rachel com amigo no Nepal

Eu diria que 99% do mundo é feito de pessoas que fazem o bem, e o que vemos no noticiário, com tanta violência e guerra, é obra de uma minoria”, diz Leo.

Mesmo em países como a Coreia do Norte, que tem um governo totalmente diferente dos a que estamos acostumados, o dia a dia das pessoas é comum. Rachel resume: “As pessoas vão levar os filhos na escola, estão preocupadas com pagar as contas do mês… o tipo de governo não define as pessoas de um país”.

O casal também fez amigos no Camboja...O casal também fez amigos no Camboja…

O carro com placa do Brasil costumava surpreender, e o futebol logo virava assunto, especialmente na África. Por lá, os dois ouviram algumas vezes pessoas dizerem que choraram ao ver a Alemanha eliminar o Brasil da Copa ganhando de 7 a 1.

A viagem rendeu boas amizades, especialmente com as pessoas que abriram suas portas para recebe-los em casa. Um brasileiro que vive no Equador e estava no interior de São Paulo viajou para a capital só para acompanhar a chegada do casal.

...e na Tailândia, além de muitos outros países…e na Tailândia, além de muitos outros países

Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, foi uma cidade que eles visitaram três vezes, especialmente para rever duas famílias que os acolheram na primeira passagem. Apesar de não conseguir manter contato frequente por causa da rotina da viagem, muitos dos anfitriões deixaram as portas abertas para quando o casal voltar aos seus países. “Nunca imaginei fazer tantos amigos”, conclui Leonardo.

Trabalho

Ainda que a viagem tenha sido essencialmente prazerosa, o Viajo Logo Existo se tornou um trabalho que consumiu bastante tempo dos dois. Eles abriram mão de muita coisa para cair na estrada, e o projeto se transformou em uma maneira de se autofinanciar.

Em ação preparando material para a internetEm ação preparando material para a internet

Havia dias em que os dois passavam de seis a oito horas trabalhando: escrevendo, editando e selecionando fotos, administrando as contas, pesquisando sobre os destinos, organizando a documentação, atualizando as redes sociais do projeto, interagindo com os seguidores e preparando os livros.

A ideia de que a viagem só é possível para quem é rico não agrada. “É claro que é preciso ter algum dinheiro, mas quem é rico não vai passar perrengue com estadia, com banho frio, fazer conta para não ficar no vermelho… Vai viajar de avião, ficar num hotel luxuoso e comer bem”, dizem.

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Rachel ressalta que a viagem não foi o contraponto da infelicidade com o trabalho, mas um caminho diferente que os dois decidiram seguir. Eles se consideravam felizes nas suas profissões, mas achavam que era preciso algo mais. De volta ao Brasil, não descartam a possibilidade de retomar as carreiras.

Curiosidades

A pergunta “quais os melhores lugares que vocês conheceram?”, que os dois costumam ouvir muitas vezes, não tem uma resposta objetiva. “Melhor para que?”, brinca Leo. “Pode ser para morar, para surfar, para escalar, ver paisagens…”. Os dois acham muito difícil comparar os tipos diferentes de experiências, e preferem não fazer coisas como o ranking dos locais favoritos.

De dezembro de 2014 até praticamente o fim da viagem, dois anos depois, eles passaram por países de “mão inglesa”, em que os veículos trafegam pela pista esquerda. Eles se acostumaram tanto que demorou um pouco para retomar o hábito no Brasil.

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Nenhum governo fez observações quanto à circulação do carro, com o banco do motorista na esquerda, e Leo, o motorista da dupla, precisou redobrar a atenção por causa da falta de visibilidade. O trabalho de copilota de Rachel ganhou importância, avisando quando era possível ultrapassar e fazer conversões, já que Leo não conseguia enxergar a pista contrária.

As mudanças de temperatura não afetaram tanto o casal, já que elas aconteciam sempre de forma gradual. Mas, como a vedação do carro não segurou muito o vento quando eles estavam em lugares frios, os dois decidiram, depois de noites geladas na Patagônia, evitar ao máximo o inverno, transformando a viagem em uma espécie de verão sem fim.

Futuro

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2017 está aberto para Rachel e Leonardo trilharem. Os próximos passos do Viajo Logo Existo são o lançamento do quarto livro, sobre a Ásia e a Oceania, que deve ser entregue em fevereiro, e um circuito de palestras sobre as experiências que eles viveram.

O plano do casal é trabalhar no projeto até o meio do ano, e, vendo como as coisas se desenrolam, decidir o que vai ser do futuro. A volta à carreira na economia não é descartada, assim como uma possibilidade de investir na divulgação do projeto em Portugal.

Você pode acompanhar o que eles estão fazendo através do site, da página no Facebook, do Instagram e do YouTube. Na Loja VLE, é possível adquirir os livros sobre a América, a Europa e a África, e, entrando em contato direto com os dois, saber mais sobre as palestras e o livro da Ásia e Oceania.

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Todas as fotos © Viajo Logo Existo

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Joao Rabay

Gosta de ler boas histórias para aliviar a mente no meio de tantas notícias ruins. Ainda acredita que elas podem inspirar boas mudanças e fica feliz quando pode contá-las.

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