Entrevista Hypeness

Fotógrafas especializadas em casais LGBT contam histórias por trás dos registros preferidos

por: Gabo Vieira

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Toda forma de amor vale o clique. Mas no caso das relações homoafetivas não se trata apenas de eternizar o deleite de pombinhos apaixonados. É também uma forma de afirmação, de mostrar no beijo, nas mãos entrelaçadas, na troca de olhares que aquele amor existe – bonito como qualquer outro. E foi assim, com uma lente no afeto e outra na causa, que a Gataria surgiu como especialista em fotografar casais LGBT.

Poeticamente, a história começou com dois corações enamorados, no encontro entre Renata Seikel Ferrer e Tata Barreto. O recém-formado casal de fotógrafas percebeu uma lacuna no prolífico mercado casamenteiro. Faltava gente com foco ajustado nas bodas LGBT, uma demanda recente e crescente. E quem melhor para se candidatar ao posto?

“Imagina que você vai fotografar um casamento indiano, algo de uma cultura bem diferente. É muito provável que você perca algum detalhe por não conhecer esse universo. É o que acontece com a cultura LGBT. Tem várias nuances que a maioria dos héteros não conhece, isso faz a diferença. Nossa vivência gera uma empatia que acaba se refletindo nas imagens, disse Renata – que prefere ser chamada de “Re” mesmo.

Em conversa com o Hypeness, Re e Tata tiraram suas fotos preferidas do armário e contaram um pouco da história de cada uma. Ainda fizeram questão de ressaltar que a Gataria é uma empresa hétero-friendly (tem até amigos que são!) e que fotografam casamentos menino-com-menina com o maior prazer.

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Re: A Fabi e a Jeane são duas queridas. Foi o nosso primeiro casamento, uma festa linda na Ilha da Gigoia. Ao contrário do que acontece com os casais héteros, em um casamento gay os noivos normalmente se arrumam juntos. Então já rola essa cumplicidade que gera momentos muito lindos durante o making-of. É a parte que mais gosto de fotografar.

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Re: Ficamos sabendo do casamento quinze dias antes dele acontecer, foi tudo muito corrido. Choveu muito no dia e, como a festa era ao livre, a grama virou um lamaçal. Mas foi super divertido.

Tata: Por ser nosso primeiro casamento, foi um momento emocionante para nós. Mas também de muito estresse. Foi quando tivemos que botar em prática um monte de coisa que ainda não tínhamos feito juntas. Tivemos várias dificuldades por conta da chuva, eu andava com medo de cair. Um desafio físico mesmo. Mas foi um casamento com a cara da Gataria, acho que conseguimos botar a nossa personalidade nas fotos.

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Re: O que é o mundo gay sem festa? As festas dos casamentos gays têm aquelas músicas que a gente já sabe que vão bombar porque são símbolos desse universo. Geralmente são festas muito gostosas, muito animadas.

Tata: E tem uma coisa de referência, né? Nas festas desses casamentos a gente vê referências gays o tempo inteiro, coisas que passariam despercebidas por quem não faz parte da comunidade.

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Tata: Estas fotos são de um casal que pediu pra não ser identificado. Um dos parceiros estava saindo do armário, ainda não se assumia totalmente pro público. Foi um casamento bem delicado nesse sentido. A gente nem sabia se ia rolar beijo no altar.

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Tata: Então a gente já foi com o objetivo de produzir fotos que não mostrassem o rosto deles para podermos publicar depois. Com esse foco a gente pôde trabalhar a nossa criatividade para gerar fotos esteticamente bacanas sem desrespeitar a vontade deles. Foi um desafio bem interessante.

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Re: Outro diferencial dos casamentos gays é que na maioria das vezes os casais entram juntos. Esse é um desejo deles.

Tata: É um momento de vitória. O casal entrando de mão dada perante todos aqueles convidados… por fazer parte dessa comunidade, a gente sabe que é uma hora de afirmação. É um momento muito emocionante – como é a entrada da noiva em um casamento hétero, mas por questões diferentes.

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Tata: A fotografia é um instrumento de visibilidade. Eu sempre quis aplicar isso no meu trabalho e consegui fazer isso quando a Gataria surgiu. Desde o início a gente vai pra rua, se interessa por cobrir eventos de ativismo, de repúdio à homofobia e à transfobia etc.

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Re: A questão do ativismo é uma coisa muito nossa mesmo. Foi assim que a Gataria surgiu, na verdade. Nossas primeiras fotos foram essas, de um beijaço na (praça) São Salvador.

Tata: O momento em que a Gataria começou a fotografar coincidiu com o surgimento de outros movimentos de rua exaltando a cultura gay – no caso mais específico, das lésbicas. A gente cobriu muito Isoporzinho das Sapatão, por exemplo. É uma empresa que dá visibilidade, que luta pela causa.

Re: A empresa é gay!

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Re: A gente postou no Facebook que estava precisando de duas mamães para portfólio. Aí vem uma mensagem da Lorrany, esposa da Lidiane: “Serve grávida de trigêmeos?” Eu falei “É claro!”. A gente foi lá na casa delas, foi super legal, com os quatro poodles fofíssimos.

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Tata: Esse ensaio nos trouxe uma questão interessante porque elas são evangélicas da Igreja Contemporânea, que aceita casais LGBT. Nós ficamos um pouco apreensivas porque não sabíamos como seria essa questão, se iriam querer nos catequizar ou algo do tipo. E, para a nossa surpresa, não foi nada disso. Inclusive no momento em que falaram de religião foi de forma sutil e até tocante para nós.

Re: Serviu para quebrar um preconceito nosso, né?

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Tata: O ensaio teve um astral ótimo, elas são super cabeça aberta, modernas, assumidas. A Lorrany é, inclusive, a primeira policial militar do Rio com o casamento lésbico reconhecido pela corporação. Então foi só astral, um trabalho que teve muita repercussão e trouxe um impacto enorme para a nossa página.

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Tata: Essa é a família Lawrence Bueno. Eles viram o ensaio da Lidiane e da Lorrany e entraram em contato com a gente para fotografarmos um dia da vida deles em São Paulo.

Re: Foi muito legal esse ensaio, as crianças nos receberam de pijama na porta, umas fofas.

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Tata: Nós chegamos lá cedo e demos um passeio nesse parque que eles costumam frequentar. Sempre pedimos para os clientes indicarem lugares que tenham a ver com a história deles, assim agregamos elementos mais pessoais às fotos.

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Tata: A Tay e a Maria são um casal fofo aqui do Rio, outro ensaio que a gente fez logo no início do trabalho. São duas meninas mais jovens, super ativistas, engajadas na causa.

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Tata: O nosso trabalho depende muito da interação com o cliente. Não é aquela coisa “ah, posa aí que eu aperto o botão”. Por ter um background que vem do fotojornalismo, eu prefiro que prefiro que esteja acontecendo alguma coisa para eu fotografar.

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Re: Dois fofinhos também. O Charles é brasileiro e o Jake é americano. O Jake estava chegando dos Estados Unidos justamente para visitar o namorado, os dois não se viam há quatro meses.

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Re: O Jake chegou e os dois, super assumidos, deram o maior beijão no aeroporto. Foi um momento meio doído para mim porque tinha uns taxistas atrás de mim gritando “Viado! Bicha! Vai pro inferno”, esse tipo de coisas. Que bom que os dois nem ouviram.

Tata: E é isso que a gente mais gosta nessa foto, as pessoas olhando. É uma imagem que contextualiza bem o que ainda é a questão de ser gay fora do armário. Ainda não é uma coisa “normal”, digamos assim. Se fosse um casal hétero se beijando ninguém nem olharia, passaria direto. Isso mostra por que ainda é preciso lutar, mostrar a cara. Só vai deixar de ser “anormal” quando a gente mostrar que existe.

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Re: Nossos clientes muitas vezes viram nossos amigos – e eles são os nossos queridinhos. Hoje o Charles mora nos Estados Unidos também. Eles se conheceram na Disney e nós queremos que se casem lá pra gente poder fotografar.

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Tata: Esse casal também pediu pra não ter a identidade revelada e, como foi em um cartório, tínhamos menos elementos para fotografar. Mas foi uma história muito legal. Eles estavam lá sentadinhos, o único casal gay no meio de um monte de hétero. Quando foram chamados, a sala inteira começou a gritar e aplaudir bem forte, tipo torcida de futebol. Foi muito emocionante vê-los tão acolhidos por um público hétero que eles nem conheciam. A própria juíza também fez um discurso super aberto, bem legal. Por fazer parte dessa comunidade a gente se emociona e precisa segurar as lágrimas porque sente que aquilo é uma vitória. E a vitória deles é nossa também.

Você pode ver mais fotos e entrar em contato com Re e Tata no site da Gataria.

Todas as fotos © Gataria Photography

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Gabo Vieira

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