Chuck Berry: o adeus ao grande inventor do rock n’ roll

Chuck Berry não pariu o Rock, mas o criou e o colocou no mundo. Feito um filho que se reconhece não em seu pai biológico, mas naquele que lhe ensinou a andar, deu forma, conteúdo, texto e visão – muitas vezes tornando-se mais fisicamente similar a um pai adotivo – o rock foi sendo inventado ao longo da primeira metade do século XX, sem que se tivesse certeza alguma da identidade do pai ou da mãe. Quem lhe deu cara, corpo, cabeça, coração e principalmente pernas para parar em pé, no entanto, foi essencial e principalmente Chuck Berry.

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Há, na origem do estilo, o DNA de Sister Roseta Tharpe (principalmente com sua canção “Strange Things Happening Every Day”, de 1944), de Fats Domino, e até mesmo de Elvis. Mas foi Chuck Berry quem, em 1955, explodiu por dentro as estruturas daquele som que parecia passageiro e modista, revelando o potencial furioso que uma música feita por guitarras poderia oferecer.

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Sendo ele o primeiro grande guitarrista de fato da história do rock, (posto somente superado por Hendrix, uma década depois) Berry também foi quem cavou a amplitude poética e o potencial político que o rock escondia, antes da explosão chuckberryana, até então velado naquela embalagem tímida das palavras das canções tocadas pelos astros brancos de então – sim, pois Chuck Berry foi o primeiro verdadeiro poeta do rock.

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Quase a totalidade de seus clássicos foi lançada entre 1956 e 1959, mas ele não precisou de mais do que três anos para personificar o presente e principalmente o futuro daquele que viria a se tornar a afirmação artística mais importante do século. Como perfeitamente afirmou John Lennon, “se você quiser dar um nome ao rock n’ roll, esse nome é Chuck Berry”.

Chuck Berry On Stage

Pois se o nome do rock é Chuck Berry, a força da música do guitarrista, cantor e compositor que faleceu neste sábado, aos 90 anos, faz com que, justo por isso, o rock permaneça vivo, mesmo que sempre condenado, com eventual aparência moribunda. Foi Chuck quem transformou o estilo de uma moda meramente mal-comportada e excitante para algo verdadeiramente denso e desafiador, capaz de se afirmar como uma força motora da cultura jovem por tantas décadas então por vir.

A chama da importância, do significado, da crítica e da subversão que ainda ilumina, mesmo que ora tão pouco, o rock, foi acesa por Chuck – o guitarrista, o cantor, o dançarino, mas principalmente o compositor.

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Charles Edward Anderson Berry nasceu em St. Louis, Missouri, nos EUA, em 18 de outubro de 1926. Como era quase via de regra para um menino negro do sul de um país ainda oficialmente racista, segregado e desigual, o futuro de Chuck parecia que seria o que se apontou quando, em 1944, ele foi condenado por furto e assalto a mão armada, e enviado a um reformatório, onde passou três anos.

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Um realmente jovem Chuck Berry

O que entortou esse futuro que lhe parecia reservado desde antes mesmo dele nascer foi seu interesse pelo blues e pela guitarra, que vinha desde sua infância. No reformatório Berry formou um grupo vocal – que chegou, pela qualidade do trabalho, a ser permitido se apresentar fora do centro de detenção. No dia de seu 21º aniversário, Chuck Berry foi liberado, e retomou a liberdade decidido a criar para si uma outra história, que se tornaria página fundamental da própria história cultural recente.

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Inspirado principalmente em Muddy Waters, Louis Jordan e no blues man T-Bone Walker, Chuck Berry rapidamente começou a se apresentar. Se no início o público, acostumado com a country music, ria do seu jeito de dançar, tocar e cantar, esse mesmo público rapidamente percebeu que aquela era a melhor música para se dançar que já havia sido tocada em um salão no país.

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Pouco tempo depois, por indicação de seu próprio mestre Muddy Waters, Chuck chamou atenção da gravadora Chess Records, com uma composição própria: a música “Maybellene”. A gravadora decidiu por lançar o compacto, que viria a vender um milhão de cópias, e alcançar o topo das paradas R&B americanas em setembro de 1955. Desse momento em diante, não haveria mais Charles Edward, nem modismos passageiros, canções inocentes ou sonoridades meramente simpáticas – haveria sim Chuck Berry, o rock n’ roll, e nada mais.

 

E depois de “Maybellene”, a lista de clássicos formadores do rock seguiu: “Sweet Little Sixteen” (inspiração para “Surfin’ USA”, dos Beach Boys), “You Can’t Catch Me” (de onde Lennon tirou “Come Together”, dos Beatles), “Rock n’ Roll Music” (gravada pelos Beatles, e canção que abria a maioria dos shows da banda), “Roll Over Beethoven” (também gravada pelos Beatles), “Brown Eyed Handsome Man” (uma crônica inclemente sobre pobreza, racismo e crime nos EUA), “Memphis, Tennessee”, “Too Much Monkey Business”, “You Never Can Tell”, “Come On” (a regravação dos Rolling Stones foi a primeira canção lançada pela banda) além, é claro, de “Johnny B. Goode”, talvez seu maior clássico, espécie de hino do rock, e uma das quatro músicas americanas a serem incluídas entre os discos de ouro atirados para o espaço em 1977 pelas espaçonaves Voyager I e II como exemplos da capacidade criativa humana.

 

Enquanto a carreira dos cantores de rock brancos, como Elvis Presley, Bill Halley, Jerry Lee Lewis e Carl Perkins corria facilmente entre o sucesso e o luxo, o sucesso, o talento e o efeito que Chuck Berry provocava em seus fãs fez dele uma figura desafiadora, que precisava enfrentar o mundo para simplesmente exercer sua música – sua vida – como o autor inquieto e questionador que foi.

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O primeiro crítico social e verdadeiro poeta do rock propriamente (ninguém menos que Bob Dylan referiu-se a ele como “o Shakespeare do rock”) era, afinal de contas, negro. Chuck Berry sabia que o mundo lhe olhava com fúria na mesma medida do encanto que provocava ao tocar, cantar e dançar. E tantos outros, como Fats Domino, Muddy Waters, Bo Didley, Sister Roseta Thorpe, até hoje não nos deixam esquecer que o rock é um estilo de origem fundamentalmente negra.

Foi sendo o Shakespeare do rock que Berry expandiu esse som não só em seu sentido rítmico e na maneira de se posicionar e tocar a guitarra em uma gravação, mas também na própria temática que fundaria o rock como fenômeno cultural.

A descrição das danças, os carros velozes, a vida jovem, a escola, a cultura do consumo, os namoros, revelados por um contador de histórias que retratava sua época no mesmo gesto em que a construía. O cenário inocente estava lá, mas sob uma estranha luz que parecia iluminar algo secreto, algo torto, rebelde e perigoso, prestes a explodir, sobre a juventude e o sonho americano.

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E nada do que foi feito dentro do rock nos anos sessenta – principalmente a partir das bandas inglesas que invadiram os EUA no começo da década – sem sua influência direta ou indireta: nem Beatles, Rolling Stones, The Who ou Hendrix, e tantos outros. Para Mick Jagger, Chuck “acendeu nossa adolescência, e soprou vida em nossos sonhos de nos tornarmos músicos”. Bruce Springsteen despediu-se do compositor afirmando-o como “o maior guitarrista e escritor da história do rock n’ roll”, enquanto Slash, que se disse com o coração partido, afirmou simplesmente que Chuck era “indiscutivelmente o rei”.

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Bruce Springsteen e Chuck Berry

Todos nós que vivemos no rock perdemos nosso pai”, disse Alice Cooper. Para Cooper, Berry foi o “gênesis por trás da grande sonoridade do rock n’ roll” – e esse é o ponto primordial, que sobrevive às décadas como uma força insuperável: qualquer que seja sua banda preferida – do Metallica ao Nirvana, passando pelos Mutantes ou os Titãs, Barão Vermelho, The Clash, Ramones, Radiohead, The Smiths ou Pink Floyd (ou qualquer outra banda que tenha no som da guitarra sua primeira voz e força) – tal sonoridade só pôde existir por conta e a partir do jeito de tocar, de compor, de solar, de criar riffs e intensidades que Chuck Berry criou – ou, indo direto ao ponto através das palavras de Lenny Kravitz, “nenhum de nós estaria aqui sem você”.

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Chuck e Keith Richards 

Ninguém do mundo da música, porém, parece ter sentido mais o baque da morte de Chuck do que Keith Richards. O guitarrista dos Stones lançou mão não de um, mas de quatro posts para homenagear o mestre e amigo – em um deles, Keith resume seu sentimento: “Eu nem sei se Chuck compreende o que ele fez. Acho que não… Era uma coisa tão absoluta, um som incrível, um ritmo incrível saindo da agulha de todos os discos de Chuck. Foi quando eu soube o que queria fazer”, escreveu Keith, para arrematar em definitivo: “Uma das minhas grandes luzes se foi”.

“One of my big lights has gone out.” – Keith, 3/18/17

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Nas últimas décadas, Chuck parou de lançar novas canções, mas seguiu na labuta, se apresentando até pouco tempo atrás. No dia em que completou 90 anos, em outubro de 2016, ele anunciou que quebraria uma barreira de 38 anos e lançaria enfim um novo disco de inéditas – o primeiro desde Rock It, de 1979. Chuck, será lançado ainda esse ano, e foi realizado em tributo à sua esposa, Thelmetta “Toddy” Berry, com quem ele foi casado por 69 anos.

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Fazer 90 anos, em especial no universo do rock, não é para qualquer um. Se o som de uma guitarra hoje nos emociona, e gentilmente chora por conta da ausência, esse coração palpita ao ritmo de Chuck, que segue pulsando – a morte, como sempre foi na história do estilo que ele ajudou a fundar e criar, é somente um detalhe.

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© fotos: divulgação

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