Meu Guarda Roupa é Hype

“Não acho que alguma regra agregue na vida de uma mulher. A gente tem que prezar a liberdade!”

por: Brunella Nunes

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Autodenominada como uma gordinha de cílios longos e pernas curtas, a jornalista Ju Romano vai bem além do que os olhos veem. A paulistana de 27 anos é pioneira em muitas coisas, entre elas: teve um dos primeiros blogs de moda plus size no Brasil e foi a primeira mulher gorda a sair nas páginas da revista Playboy do país. Falando abertamente de e para aquelas que não se encaixam nos padrões, é defensora da liberdade de ser quem e o que você quiser.

No mundo fashion, o manequim costumava dizer mais do que mil palavras e ser do tamanho GG era praticamente um crime dentro das passarelas. Provando que essa ideia é ultrapassada e já não há mais razão de continuar existindo, pessoas como a Juliana pintam, bordam e abrem suas próprias alas para mostrar que tamanho não é documento. Ou é, pelo menos por enquanto, até que todos percebam que a mulher gorda também tem estilo, também quer seguir tendências e também tem um guarda-roupa hype!

Sem poupar suas vontades, ela tem uma visão bastante lúcida sobre seu corpo, sua beleza, seu estilo e sua opinião: “Eu luto há mais de 9 anos para que a mulher não precise da aprovação de ninguém, eu sou feminista a ponto de saber que eu não preciso ser NADA para agradar a homem nenhum, mas eu também luto para que a sociedade olhe a mulher gorda como uma mulher normal, que as pessoas encarem uma mulher gorda da mesma forma que encaram uma mulher magra e um dos meios para conquistar isso se chama representatividade, desabafou, ao falar sobre a Playboy, experiência que curtiu bastante.

Nessa entrevista, descobri que ela não é só uma referência para o público feminino, mas também um amorzíneo de pessoa! Espia só:

– Você já foi capa da Elle, já saiu em várias revistas. Mas como é ser a primeira gorda a sair na Playboy? Curtiu o resultado?

Ahhh eu amei, principalmente porque eu estava usando minhas roupas, com as minhas caretas. Não tive que fazer uma personagem para posar e a matéria era sobre a Ju Romano inteira, corpo, carreira e personalidade. Sem contar que as fotos tiveram pouquíssimo Photoshop, então acho que foi um passo muito legal para a representatividade da mulher gorda na mídia tradicional. Eu ouvi muitas críticas em relação a fetichização da mulher nessas revistas e refleti bastante sobre isso, concordo totalmente com a crítica. No entanto na luta contra a gordofobia e a favor da diversidade em todos os campos da mídia acho que foi positivo para uma mulher que ainda não se aceita ver um corpo mais perto do seu em uma revista como a Playboy.

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– Seu estilo diz muito sobre sua personalidade? Qual é a característica mais marcante?

Meu estilo diz muito sobre meu humor e minha personalidade, principalmente nas cores e nas modelagens das peças. Eu sempre uso alguma coisa bem diferente ou uma peça mais marcante, mas sempre com cores abertas, alegres e estampas mais divertidas. Eu acho que por mais fofos que sejam alguns looks, sempre consigo colocar um toque de força e rebeldia neles, sabe?! Que é assim que eu me sinto: sempre alegre e bem humorada, mas ao mesmo tempo cheia de resistência e rebeldia. Fazer o que?! Sou de gêmeos, sempre uma contradição hahahah.

– O que não pode faltar no guarda-roupa da Ju Romano e o que não vai ter de jeito nenhum?

Nunca vai faltar uma calça skinny preta, tenho no mínimo quatro para nunca faltar quando uma estiver lavando. E acho que não tem nada que eu diga NUNCA, eu gosto de mudar de ideia, de reinventar peças, então acho que tudo é possível. Até hoje a única coisa que eu não gostei MESMO, foram peças balonê, mas até elas eu estou aberta a tentar novamente um dia.

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– Você é uma fashion victim (vítima da moda)? Costuma seguir tendências?

Não sou, nem daria para ser sendo plus size. É super difícil encontrar muitas peças fashion numa mesma estação para quem tem corpo tamanho 50. Eu acabo comprando uma ou duas peças-chaves, mas não troco o guarda-roupas a cada estação. E também eu gosto de ter aquelas peças diferentonas, que não são necessariamente da última passarela, mas que dão um toque especial nos looks e são atemporais. Então eu costumo seguir tendências, mas sem gastar muito dinheiro, adaptando o que eu já tenho na maioria das vezes.

– A moda plus size ganhou notoriedade e deu um up nos últimos tempos. O que ainda falta nesse mercado?

Ihhhhh, tanta coisa! hahah Ainda tem muito preconceito nesse mercado, como lojistas que não acreditam no potencial fashion e na ousadia da mulher gorda, aí só vendem roupas fechadas e que escondem. Os tecidos são ainda muito ruins e feios, quase não temos roupas em tecidos finos e planos, tudo é de malha, que tira muito a beleza de uma peça fina por exemplo. A maioria das lojas do mercado plus não acompanham as tendências fashion, parece que a gente vive um grande looping na moda plus size, onde as fábricas produziram uma modelagem em 1997 e continuam usando a mesma ainda em 2017 e só mudam a cor ou a estampa.

Ainda nisso, as coleções plus size parecem não ter conceito, salve algumas exceções, parece que as marcas produzem peças que não casam entre si, que não contam uma história e não tem um conceito mesmo, são peças perdidas e isoladas, sabe? Mangas também são um problema, sempre são feias e feitas para esconder o braço. Custa pensar em manga bonita? Roupas sensuais para jovens que saem de balada… Não existe! A gente até encontra roupas sensuais, mas são mais voltadas para executivas ou mulheres mais sérias. Uma simples regatinha mais soltinha, com decote cavado e alcinhas, pra ir dançar é impossível, por exemplo.  Nossa me empolguei nessa resposta, desculpa! Acho que até saí do que você perguntou, mas é que embora seja um mercado com potencial GIGANTE as marcas ainda são muito resistentes a inovação e não têm muita coragem para ousar, apostar e inovar.

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– Aliás, existe “roupa pra gordinha”? O que você acha desse rótulo? (eu acho que deveria existir apenas roupa, sem designação. Mas né…o mundo não colabora).

Eu concordo SUPER com você, acho realmente que rótulo só serve para segregar… No entanto, no momento em que vivemos eu acho necessário que exista um rótulo para a moda acima do tamanho 46. Isso porque é tudo muito recente, até ontem a mulher gorda nem sabia que podia usar uma roupa legal, ela jamais encontraria uma peça pensada para ela em uma loja, então enquanto TODAS as mulheres não souberem que sim, existe roupa bonita acima do 46 em todas as araras (e aí é quando realmente tiver em todas as lojas mesmo), aí então a gente não vai mais precisar rotular para AVISAR aquela mulher que a roupa é para ela.

No entanto a gente vê pouquíssimas lojas com tamanhos grandes, acho que o rótulo será desnecessário quando as marcas entenderem que a grade deve aumentar e que não é pra ser uma coleção “especial”, eles tem que atender todas as mulheres com a numeração. Então resumindo: sou contra a segregação que o nome causa, mas sou a favor nesse momento para que as consumidoras se acostumem a comprar uma peça pensada para si.

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– Acha que ainda são válidas algumas regrinhas da moda? Tipo, mulher baixinha não pode usar calça curta e etc. Você segue alguma premissa na hora de se vestir?

Não, não acho que alguma regra agregue na vida de uma mulher. A gente tem que prezar a liberdade! Se a mulher quer se basear nos efeitos visuais para se vestir, a escolha é dela, mas isso jamais deve ser uma regra. Eu não sigo regrinha nenhuma, visto as peças que eu olho e acho bonitas ou as vezes nem são bonitas, só causam um estranhamento, mas elas são realmente muito legais. Eu tenho uns truques pessoais, que não são regras, mas servem para facilitar a vida na hora de eu me vestir, como por exemplo: na hora de misturar estampas, sempre escolho duas peças com o mesmo tom de fundo. Quando uso estampa em baixo, uso uma peça lisa em cima – e vice-versa. Quando uso muito volume na região superior, escolho uma parte de baixo mais sequinha. E esse tipo de coisa que facilita minha vida na hora de escolher e combinar as roupas, mas nem eu mesma levo isso como regra e me permito ousar sempre.

– Como você desenvolveu seu estilo ao longo do tempo?

Eu acho que ele foi acompanhando meu humor e minha personalidade e eu sempre gostei muito de observar referências em revistas e sites de moda e de comportamento. Eu acho que estilo é meio que isso: uma reorganização das suas referências para atender à sua personalidade. Eu não gosto de ser uma coisa só, não gosto de rótulos, então meu estilo segue muito isso. Um dia eu estou uma princesa fofa romântica, outro uma gótica suave e no seguinte uma piriguete ultra sensual hahaha.

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– Quem é a sua maior inspiração na moda?

Eu amo de paixão a Gabi Gregg, blogueira plus size, eu queria muito ter o armário dela! hahah

– Quantas cores de cabelo você já teve? Teria um cabelo arco-íris?

Acho que todas, menos preto e se contar as intermediárias enquanto as outras desbotavam não dá nem para contar. Já foi roxo, rosa, azul, verde e todas as variações desses tons, já foi ruivo e desbotou para loiro, já foi castanho (a cor dele natural)… Eu teria o cabelo arco-íris sim, se não desse TANTO trabalho descolorir meu cabelo hahaha. Mas eu amo cabelos coloridos, acho divertido, acho simpático e alegre.

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– Sua autoestima sempre foi boa? Qual conselho dá para as meninas e meninos pararem de se frustrar com sua própria imagem?

Não! Nem sempre, quando eu era adolescente eu tinha uma autoestima péssima, sentia que enquanto eu não me encaixasse no padrão eu nunca seria bem sucedida em nada na vida. Meu conselho para essas meninas e meninos é: olhem para fora do círculo de vocês, olhem para adultos bem sucedidos (no amor, na carreira, na vida). Eles são cada um de um jeito, cada um com um corpo. Vocês também poderão ser o que quiserem com o corpo que tiverem!!!

– Roupa é uma ferramenta de empoderamento? Por quê?

SIM! Principalmente quando falamos de grupos excluídos como o das gordas. Quando você fala para uma mulher: olha, você também faz parte da moda, além de inserir socialmente aquela mulher que sempre foi excluída, você ainda dá ferramentas para que ela expresse sua personalidade e suas vontades. É lindo isso! Por isso a moda plus size é tão importante nesse momento de aceitação, porque a mulher se empodera do seu próprio corpo e para de apenas aceitar roupas que cabem e começa a ESCOLHER como ela quer se apresentar para o mundo. Você dá o poder de escolha a essa mulher e diz que o que ela vai usar é só ela quem pode escolher. Isso é empoderador, isso eleva a autoestima e a autoconfiança. É transformador.

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Todas as fotos © Ju Romano


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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