Matéria Especial Hypeness

Andy Warhol: 30 anos da morte do artista que previu e inventou o futuro em que vivemos hoje

por: Vitor Paiva

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Das profundezas culturais dos anos 1950, quando a revolução da década seguinte ainda era uma bomba esperando para explodir, um artista plástico foi capaz de compreender e significar o verdadeiro espírito da época que estava por vir. Ao transformar os ícones e símbolos da cultura de massa e de consumo (tão reproduzidos e copiados que pareciam não possuir valor único ou original) em obras de arte, Andy Warhol previu e fundou o futuro – do qual, hoje, vemos chegar os 30 anos de sua morte.

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Nascido Andrew Warhola em Pittsburgh, nos EUA, em 1928, Andy foi uma criança tímida. Entrando e saindo de hospitais por conta de complicações de saúde que o tornariam um hipocondríaco incorrigível, o pequeno Andrew não parecia sugerir qualquer futuro extraordinário.

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Havia, porém, um nada mero detalhe: desde muito cedo sua aptidão para o desenho e as artes, desenvolvida nos longos períodos em que esteve de cama, se destacava – assim como sua paixão irrefreável pelas estrelas de Hollywood.

AndyW5O jovem Andy Warhol 

Estava assim formado uma espécie de tripé conceitual que viria a sustentar seu trabalho e vida: uma personalidade exótica e peculiar, dono de um talento artístico incontornável, apaixonado não só pela cultura de massa e suas celebridades, mas principalmente pela força que esse fenômeno exerce sobre o mundo. Era o tal espírito de uma época que Andy foi capaz de compreender e capturar.

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Sua carreira como ilustrador começou com anúncios publicitários para revistas de moda. Antes de alcançar o sucesso como artista, Warhol ilustrou revistas como Vogue, Harper’s The New Yorker, entre outras. A percepção do quanto nossa identidade moderna passou a ser pautada pelo imaginário da publicidade levou o jovem Warhol a tornar seus anúncios ilustrados verdadeiras obras de arte.

AndyW24Ilustrações criadas por Warhol no início de sua carreira

Antes mesmo de colocar um trabalho em uma galeria, Andy já era o ilustrador mais bem pago de Nova Iorque. Dessa experiência sairia seu repertório artístico – aquilo que, para ele, eram os verdadeiros ícones da cultura americana: notas de dólar, cadeiras elétricas, garrafas de coca-cola, celebridades comerciais, além, é claro, de latas de sopa de tomate.

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O que é incrível sobre esse país é que os consumidores mais ricos e os mais pobres compram essencialmente as mesmas coisas. Você pode estar assistindo TV, ver uma Coca-Cola, e você saberá que o presidente toma Coca-Cola, Elizabeth Taylor toma Coca-Cola, e você pensa que também pode, você, tomar uma. Uma Coca é uma Coca, e não há dinheiro que te faça ter uma coca melhor do que a que o vagabundo da esquina está tomando. Todas são iguais e todas são boas: Liz Taylor sabe disso, o presidente sabe disso, o vagabundo sabe disso, e você sabe disso”, afirmou Andy, forjando o espírito do que viria a ser reconhecido como Pop Art, movimento do qual foi figura central e um dos fundadores.

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Ao lado de nomes como Jasper Johns, James Rosenquist, Robert Rauschenberg e Roy Lichtenstein, a Pop Art de Andy e seu grupo parecia capaz de em um só gesto revelar o refinamento que havia na estética publicitária (assim como o quanto tais estéticas e produtos faziam parte de nossas identidades profundas) e uma certa tristeza essencial e vazia na força das coisas que o dinheiro era capaz de comprar.

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O entendimento de quanto a publicidade, a cultura das celebridades e o consumo eram centrais em nossas vidas era o início dessa “descoberta e fundação” do futuro que hoje vivemos, e que Warhol apontou e fundou, 50 anos atrás.

Warhol & Brillo Boxes At Stable Gallery

Warhol em meio às suas esculturas de embalagens de Brillo, uma marca de sabão 

Apesar da contundência crítica e estética que alçou o trabalho de Warhol e a Pop Art como um todo ao sucesso absoluto no início dos anos 1960, a crítica e o público recebiam seus trabalhos com escândalo. Como alguém que não consegue desviar os olhos de um acidente de carro, tanto público quanto crítica pareciam infalivelmente atraídos e repelidos pelas imagens e o sentido do pop – feito fossem um espelho.

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Cadeiras elétricas

Ao aproximar-se do fim da década, Andy Warhol já havia fundado a Factory – o estúdio onde trabalhava e reunia toda sorte de artistas, jovens deslocados, doidões, travestis, prostitutas, malucos e gênios em uma convivência criativa e intensa – migrado também para a realização de filmes experimentais, era um fotógrafo consagrado e até um importante produtor musical.

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Na Factory, Bob Dylan segura uma das impressões de Elvis criada por Warhol

Sem o incentivo financeiro, a produção e a concepção de Warhol não haveria, por exemplo, Lou Reed e a banda Velvet Underground (e não é, portanto, exagero afirmar que Andy está também por trás do nascimento da música alternativa e até mesmo do punk, tamanha foi a influência do Velvet nos anos que se seguiram), além de algumas das mais icônicas capas de disco de todos os tempos.

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Andy com a cantora Nico e a banda Velvet Underground, de Lou Reed e John Cale

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Capa do disco Sticky Fingers, dos Rolling Stones, criada por Warhol (a original vinha de fato com um zíper preso ao papel)

Andy também posicionou-se ao centro de profundos debates a respeito da função e posição do artista enquanto autor. No lugar das obras únicas, pintadas a mão pelo pincel do artista como previa a tradição, Warhol passou a usar técnicas de reprodução como silkscreen, copiando sua obra em série. Não havia, portanto, um “original” ou mesmo um autor, nos moldes consagrados pela tradição.

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Tal qual qualquer grande indústria ainda faz, as obras de Warhol eram como “produtos”, reproduzidas em série para serem exibidas e consumidas como cópias de um original que simplesmente não existia (ou que de fato estava exposto nas prateleiras de qualquer supermercado).

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Andy Warhol e John Lennon – e uma das obras de Warhol que retratou Lennon 

Andy “pintou” (ou imprimiu) em suas mais famosas obras imagens icônicas culturais como a série de cadeiras elétricas, o Mickey Mouse, o líder chinês Mao Tsé-Tung, Elvis Presley, Marilyn Monroe, flores, autorretratos, caixas de sabão em pó, garrafas de Coca-Cola, imagens de acidentes de carro, dólares, animais, celebridades em geral – tudo que povoasse o imaginário coletivo do desejo, da compra, da fama, do dinheiro e poder.

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Marilyn Monroe e Mao Tsé-Tung

Em suas mãos, a arte deixava a abstrações dos debates acadêmicos, a frieza das avaliações dos críticos, o tédio dos velhos temas e passava a retratar aquilo que as pessoas simplesmente amavam e desejavam – mesmo que tivessem vergonha de admitir. “Pop art nada mais é do que gostar das coisas”, Andy definiu.

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Em 1968, um acontecimento viria a transformar a intensidade e até mesmo a disposição crítica e política com que Warhol atuaria até o fim de sua vida: cobiçado dentro do meio artístico pelo seu sucesso e sua capacidade de amplificar carreiras e vozes (como uma espécie de figura central do jet set e da cena artística americana nos anos 1960), Warhol sofreu uma tentativa de assassinato pelas mãos de Valerie Solanas, militante radical feminista, que teria sido rejeitada e destratada por Warhol.

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Warhol mostrando as cicatrizes por conta das cirurgias que sofreu depois do atentado

O artista sobreviveu aos tiros, mas sua paranoia, hipocondria e a própria saúde debilitada o levaram a diminuir a intensidade de sua produção e até mesmo sua atuação protagonista na cena americana.

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Andy e Michael Jackson 

Ainda que as décadas de 1970 e 1980 tenham visto um Andy Warhol mais tímido e quieto ressurgir, o sucesso jamais o abandonaria. A maneira com que jogava com esse sucesso, tornando-o objeto de suas obras e, ao mesmo tempo, um produto sem valor, levou Warhol a cunhar uma das mais repetidas frases em todos os tempos: “No futuro, todos serão famosos no mundo todo por 15 minutos”.

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Andy Warhol e Jack Nicholson

Tal frase pode hoje parecer banal, mas sua precisão sublinha o quanto Andy Warhol apontava o futuro com seu trabalho – ou, diante de tantos reality shows e do protagonismo total das redes sociais e de nossas vidas pessoais no imaginário contemporâneo, alguém tem dúvida de que Andy Warhol atuou feito quase um profeta – um verdadeiro filósofo dentro da arte?

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Andy Warhol morreu em Nova Iorque em 1987, por arritmia cardíaca depois de uma cirurgia aos 59 anos. Seu legado, porém, permanece como um dos mais importantes da história da arte do século XX.

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Entre a ingenuidade e a crueldade, a brutal exposição de nossas mesquinharias coletivas e o mais banal desejo de ser aceito e amado enquanto artista, personagem e pessoa, Andy Warhol olhou o capitalismo e o século XX no fundo dos olhos, e teve coragem de reconhecer amor, desejo, identidade e sonho em algo descartável como um rótulo de uma lata ou uma celebridade passageira.

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O pai da Pop Art permanece como uma espécie de artista do futuro, prestes a acontecer, revelando a todos, em um só gesto, o que há de mais doce, banal e até divertido no sentido mais cruel e inclemente do verdadeiro espírito de nossa época.

Self-Portrait 1986 by Andy Warhol 1928-1987

© imagens: Andy Warhol/Acervo/Divulgação

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta e Só o Sol Sabe Sair de Cena.

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