Entrevista Hypeness

Brasileira usa o Instagram para vencer a bulimia e ajudar mulheres a se libertarem dos padrões

por: Mari Dutra

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Quem vê a jornalista Mirian Bottan não imagina que por trás de um sorriso no rosto e mensagens poderosas publicadas no Instagram, está uma história de mais de uma década de transtornos alimentares. A moça já reúne mais de 40 mil seguidores na rede social e usa esse espaço para compartilhar sua história e inspirar outras mulheres a se libertarem dos padrões.

Aproveitamos para ter uma conversinha por e-mail com ela, em que Mirian contou ao Hypeness como desenvolveu bulimia e dá dicas para quem também está passando por isso.

Hypeness – Como você desenvolveu bulimia?

Mirian – Aos 13 anos, pré-adolescente, passei a comer por ansiedade e engordei um pouquinho. Mas passei a pesar tipo 46 quilos, sabe? Hoje parece muito louco, acho que o prato do meu namorado pesa mais que isso às vezes, risos. De qualquer forma, eu encanei que estava engordando e queria emagrecer. Aí aconteceu o que eu carinhosamente apelidei de meu milagre ao contrário: no pior momento possível e sem eu pedir, dei de cara com o que eu menos precisava: uma revista contando a história de um garoto que quase havia morrido por vomitar comida. Eu estava tão obcecada com a ideia de emagrecer que não importava ler MORTE na chamada da história, eu ignorei e decidi seguir o que interpretei como minha mais nova descoberta maravilhosa. Mal sabia eu quanto ia me custar abandonar esse caminho.

"Mas agora vc só vai falar sobre transtornos alimentares?" . À esquerda sou eu aos 16 usando faixa para esconder as falhas no cabelo depois de uma queda severa por desnutrição, consequência de muitos períodos de jejum com o objetivo de emagrecer, que sempre terminavam em compulsões monstruosas, seguidas de vômito, seguido de mais jejum. . À direita sou eu aos 30, usando faixa porque quero, só pra franja não irritar enquanto arrumo a casa (e porque é fofo), mais madura e segura com a minha aparência depois de anos de sofrimento e oportunidades perdidas, seguidos de anos de terapia e muito trabalho duro para simplesmente conseguir comer sem me odiar. . Mas esses dias deu na capa da Vogue que jejum de 14 horas duas vezes por semana é "o segredo para secar". E o meu jeito de cuidar da dor da Mirian de 14 anos atrás é tentar impedir que outras adolescentes acabem tapando os olhos pra vida ou os buracos sem cabelo na cabeça por acreditar nessa merda. . Então, sim, eu só vou falar (E MUITO) sobre transtornos alimentares. . #bulimia #anorexia #transtornosalimentares #emagrecer #emagrecimento #dieta #jejumintermitente #jejum #bodypositive #bopo #corpoperfeito #corpopositivo #corpofeliz

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H – Quando você percebeu que isso era um problema e decidiu buscar ajuda pela primeira vez?

M – É engraçado porque, como eu disse, quando começou eu sentia que era minha salvação, porque eu ia poder ter meus episódios de compulsão que acalmavam a ansiedade mas sem engordar, era “só” botar tudo pra fora depois”. Então demorou bastante pra eu passar a ver isso como um problema. Acho que foi quando eu tinha 15 anos, minha família descobriu e eu comecei a frequentar psicólogos. Eu havia chegado aos 38 quilos, comecei a perder cabelo e a ficar doente, então já sentia que aquilo não era normal e não era uma coisa boa, mas mesmo assim eu ainda apresentava muita resistência ao tratamento porque achava que ia engordar e morria de medo disso. Só comecei a levar o tratamento a sério aos 26, quando fui morar com o meu namorado e percebi que não podia mais levar aquela “vida dupla” da bulimia. Aí busquei os profissionais por minha conta e comecei o trabalhão (que já dura quase 4 anos) de mudar toda a minha consciência e estilo de vida.

"Falar de mim é fácil, quero ver sentar sem dobrar" . Sentar sem dobrar é fácil, consegui por uns meses com alimentação e treino regrados. Quero ver é ter orgulho de você e se achar foda independente da sua porcentagem de gordura corporal! Quero ver seus objetivos serem sobre seus sonhos e realizações e não sobre se encaixar num padrão comercial que trata o corpo da mulher como peça de carne na vitrine do açougue! Quero ver não ferrar sua saúde tomando laxante, diurético e ficando sem comer! Quero ver se preocupar mais com as suas ações no mundo em vez de sofrer, enlouquecer e gastar rios de grana pra manter a juventude de um corpo que vai envelhecer de qualquer jeito! Isso eu quero ver! . #bulimia #anorexia #compulsaoalimentar #mybodymyrules

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H – Hoje você utiliza o Instagram para inspirar outras mulheres a se libertarem dos padrões e falar sobre transtornos alimentares. Mas qual foi a sua principal inspiração na luta contra a bulimia?

M – Acho que não teve uma principal, a inspiração inicial foi meu próprio cansaço e o medo de nunca mais ter uma vida normal, de viver aquele terror para sempre. Mas durante o processo de recuperação encontrei várias, e a principal delas nem fala diretamente sobre transtornos alimentares, mas sobre um conceito transformador, que vale pra todo mundo e me ajuda até hoje: falo de Kristin Neff e seu trabalho sobre autocompaixão. Ela prega “sermos gentis com nós mesmos quando a vida dá errado ou quando notamos algo sobre nós que não gostamos, em vez de frios ou severamente autocríticos”. Isso foi muito importante, porque um transtorno alimentar vem justamente do desespero para acabar com a angústia causada pela insegurança, pelo medo de não agradar ou não ser ser aceito ao desobedecer a maior regra social dos últimos tempos: ser magro (e jovem, e bonito). No desespero pra controlar isso, a gente faz qualquer coisa, até se machuca. Mas quando a gente se perdoa e se cuida acima de tudo, vai buscar outras formas, pode até querer ser magro, mas pelo menos sem fazer loucuras, sem se desrespeitar.

Depois de quase dois meses sem malhar direito, me planejei pra voltar com tudo essa semana porque tava aguada pra me exercitar (esse papo que exercício físico vicia é muito real, não é o exercício em si, mas a sensação deliciosa causada pelas endorfinas, o sono regulado, a disposição a milhão), mas uma gripona lôca feat. dor de garganta chegou de um dia pro outro e mudou meus planos. . A gente não tem nada que ir se exercitar religiosamente mesmo se estiver gripada ou na TPM, precisamos é ouvir nosso corpo e cuidar dele com carinho. Se seu corpo fosse alguém que você ama, você forçaria essa pessoa a malhar gripada ou com dor? Não, né? Então por que com você pode ser assim abusivo? . Hoje eu vou me dar de presente um dia de muito chazinho, coberta, sopinha e Netflix (mais especificamente a segunda metade da temporada de Stranger Things, que comecei a ver… ontem à noite hahaha 😬❤️) . #selflove #selfcare #netflixandchill

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H – Como foi a sua recuperação?

M – É uma mudança que vai muito além da alimentação, porque o problema mesmo é com a nossa cabeça. Na primeira fase do tratamento, eu aprendi que peso não significava nada e que se eu quisesse perder gordura tinha que pensar em composição corporal e ganhar músculos. Incentivada por esse objetivo, fiz uma reeducação alimentar, passei a malhar e realmente transformei meu corpo de forma saudável. Mas diferente do que eu imaginava, isso não acabou com a insegurança, muito pelo contrário: ao focar tanto no meu corpo, eu sentia pânico ao pensar em perdê-lo, porque aquilo era minha “garantia de aceitação”. Cheguei a chorar durante uma viagem porque só tinha sanduíche de presunto e queijo e eu achava que aquilo ia me fazer engordar. A doença ainda me dominava.

Foi aí que eu percebi que a resposta não era o corpo. Que eu me sentia insegura justamente porque não achava que tinha nenhum valor além dele. Então passei a buscar propósito: voltei a fazer coisas que eu gostava e acreditava, como estudar línguas para o meu trabalho de repórter e apresentadora, ou escrita criativa apenas por hobby, porque me faz bem. E foi aí também que comecei o projeto de conteúdo e apoio sobre transtornos alimentares na internet. Desde então, a cada mensagem de agradecimento que recebo, o formato do meu corpo tem menos participação em como eu me sinto sobre mim mesma. <3

Quer evitar a compulsão nesse feriado? Respire fundo, relaxe e ABRACE A PÁSCOA! ???? . Aproveite o momento e os dias de descanso com sua família e amigos! Como você se lembrará desses dias em 10 ou 20 anos? Será que todo mundo que você pode abraçar hoje ainda estará aqui? . Não fique sem comer para “compensar”, RESTRIÇÃO GERA COMPULSÃO! Alimente-se e hidrate-se bem durante todo o feriado, isso vai impedir que seu corpo ative o sistema de emergência que gera uma sensação enorme de fome e te faz perder o controle. . CALMA, É SÓ CHOCOLATE! Não tem nenhum ovo assassino vindo te buscar, não é o fim do mundo se aproximando, ninguém vai morrer, você não vai perder tudo o que tem na vida. O máximo que pode acontecer é a gente acumular umas celulazinhas de gordura que não vão diminuir em nada nossa importância, nossa capacidade ou o sentimento de quem nos ama! . Por 15 anos da minha vida foi igual: evitar e desviar do chocolate durante todo o fds pra no domingo à noite não aguentar mais e comer um ovo inteiro em dez minutos. RESTRIÇÃO GERA COMPULSÃO! O que é que o nosso cérebro não consegue esquecer? Tudo que é PROIBIDO! Não se proíba de aproveitar um ovo de páscoa, coma com calma, devagar, prestando atenção, esteja atento e no comando das suas ações, ESTEJA PRESENTE! . Não é um inofensivo e inanimado ovo de chocolate o que nos assombra, e sim a nossa ansiedade e imediatismo desesperado! Mesmo que você coma um ovo inteiro, nada vai mudar de um dia pro outro na sua vida, e se culpar e se odiar por isso só vai te afundar em mais sofrimento. Se você recair, apenas levante e siga em frente. A recuperação não é sobre não cair, e sim sobre não ficar no chão! ????? . #pascoa #bulimia #anorexia #ana #mia #compulsaoalimentar #dieta #emagrecer #emagrecimento #corpoperfeito #barrigachapada #projetoverao #projetovidao

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H – E você tem alguma dica para outras pessoas que sofrem com transtornos alimentares?

M – Sim, na verdade tenho três: primeiro, procurem tratamento! A terapia e a reeducação alimentar são essenciais, é preciso 1: pensar e falar muito sobre o nosso medo de não ser aceito pela nossa forma; e 2: regular questões hormonais e metabólicas que são resultado de dietas malucas e desnutrição, e favorecem a ansiedade e a depressão no cérebro a nível químico.

A segunda é: façam o exercício de escrever num papel o que você gostaria de ver quando olhasse pra trás no fim da vida. Eu fiz isso e percebi que se continuasse vivendo apenas pela aparência eu não me orgulharia da vida que levei, não ia sentir que valeu a pena. Junto com isso comecei a pensar sobre o envelhecimento e como ele é inevitável, e decidi que não queria sofrer de novo a cada mudança física que a sociedade não “aprova”. Será que nossa insegurança é realmente pela aparência, ou será que é pelas mil coisas que deixamos de ser/fazer justamente porque estamos gastando nosso tempo nos odiando na frente do espelho ou diminuindo nossa capacidade mental cortando carboidratos e nos prendendo num eterno efeito ioiô do ciclo “dieta/compulsão”? Pra quebrar o ciclo precisamos… quebrar o ciclo! Não existe resultado diferente se continuamos fazendo tudo igual.

E por último: busque informações sobre e pratique a autocompaixão. Quando a gente se respeita, se ama e se cuida, nunca estamos sozinhos ou desamparados.

"Ai, Mi, com as dobrinhas eu até convivo bem, mas vc não tem celulite, com a celulite não dá" . PÉÉÉÉ 🚨Resposta incorreta! Olha lá quem só precisa de uma perninha cruzada para das as caras! Ela mesma! Essa inimiga eterna que segundo as propagandas de cremes milagrosos atinge 90% das mulheres! . Peraí… 90%? Se só 10% das mulheres do planeta escapam, será que ter celulite não é simplesmente… normal? 😳 . Que tal a gente parar de usar como motivo pra não se amar CADA FUCKING "DEFEITO" que TODAS NÓS TEMOS? Como diabos conseguiram nos convencer que 90% de nós estamos feias e erradas simplesmente por sermos NORMAIS? . Bom, como eu não sei, mas eu sei o porquê: aos 16 anos eu já comprava um pote de creme anticelulite por mês. Aos 19 gastei 1500 reais num tratamento com choques numa clínica de estética. Eu ganhava 600 REAIS por mês. Trabalhei dois meses e meio pra pagar um negócio que nunca sumiu com o meu "grande problema". 🤦‍♀️ . Vamos voltar a usar nosso suado dinheirinho pra viajar, sair com os amigos, comprar um presente pra nós mesmas ou pra alguém que amamos? Essa indústria perversa só pode continuar nos fazendo de trouxas se a gente permitir 🙅💕✌🏻 . #celulite #anorexia #bulimia #emagrecer #emagrecimento #dieta #barrigachapada #corpoperfeito #jejum #jejumintermitente #paleo

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A Mirian também já havia contado um pouco de sua história para o Hypeness nessa publicação aqui


Mari Dutra
Depois de viver na Argentina, na Irlanda e na Romênia, percebeu que poderia carimbar o passaporte mais vezes caso trabalhasse remotamente. Hoje escreve para o Hypeness e mantém um blog de viagens, o Quase Nômade, em que conta mais de suas experiências pelo mundo.

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