Seleção Hypeness

No aniversário da Revolução dos Cravos, 10 artistas portugueses marcantes e que merecem ser ouvidos no Brasil

por: Vitor Paiva

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Uma revolução realizada por capitães com flores no cano dos fuzis e uma lindíssima canção popular como senha e símbolo da derrubada do velho regime. Depois de 48 anos de opressão, sem um só tiro sequer ser disparado pelos revolucionários, Portugal via a volta de sua democracia em 25 de abril de 1974. Justo em Portugal, onde os tristes fados ecoavam entre as vielas antigas aos ouvidos dos senhores de terno e senhoras enviuvadas, uma das mais belas páginas da história recente foi vivenciada como uma emocionante e colorida festa popular: a Revolução dos Cravos, que hoje completa 43 anos.

EDIT_Militares com cravos nas espingardas no dia 25 de Abril de 1974

Fartos da luta pela manutenção colonial na África, que não só custava caros ao escasso orçamento português, como também passara a custar a vida de jovens soldados, os capitães do exército português decidem, entre 1973 e 1974, que era hora de colocar um ponto final no salazarismo, orientação política de extrema-direita, com inclinações fascistas, que mandou em Portugal desde 1933 (o país, no entanto, vivia um regime de exceção desde 1926).

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O ditador António Salazar

Naquele 25 de abril de 1974, os revoltosos, liderados pelo capitão Salgueiro Maia, tinham como senha final – para terem certeza de que podiam avançar, em Lisboa, e enfim depor o governo de Marcelo Caetano (que havia assumido depois da morte do ditador António de Oliveira Salazar) – a canção Grândola, Vila Morena, do grande cantor e compositor português Zeca Afonso.

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Zeca Afonso marchando por Lisboa

Quando ecoaram os primeiros versos na Rádio Renascença, teve início a revolução. Os canhões, que antes apontavam contra a população, agora miravam justamente os edifícios do poder opressor.

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Acima, o capitão Salgueiro Maia; abaixo, Maia discursa ao povo no 25 de abril de 1974

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Cravos vermelhos foram distribuídos e inseridos nos bolsos do povo e no cano dos fuzis. O então lúgubre Portugal tornava-se a capital mais alegre da Europa. Era o fim do regime, e o início da libertação das colônias africanas.

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Com o fim do atraso imposto pelo Estado Novo, Portugal se abriu e, aos poucos, passou a se tornar o país cosmopolita e vibrante que hoje é – e isso se reflete não só na política, mas também em sua cultura.

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Para comemorar o 25 de abril, que ainda traz a canção do grande Zeca Afonso como seu hino, nada melhor, portanto, do que uma seleção de 10 bandas ou artistas da música portuguesa que nós, aqui no Brasil, precisamos conhecer ou relembrar. Nem todos os artistas aqui citados possuem relação direta com a revolução, mas a liberdade para se expressarem e cantarem, certamente sim. A ausência da mítica Amália Rodrigues se dá justamente pelo sucesso mundial que a cantora já possui.

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E viva a revolução dos cravos, como vibram os portugueses: 25 de abril sempre!

Zeca Afonso

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Nessa seleção musical em celebração ao 25 de abril não haveria outro nome para dar início à lista que não o de José Afonso, conhecido pela alcunha de Zeca Afonso. Autor da canção símbolo da revolução, Grândola, Vila Morena, Zeca é um dos maiores compositores e nomes da música portuguesa, atuando diretamente na modernização da canção e do fado de Coimbra.

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Perseguido pelo regime pela conotação política de várias de suas obras, ele hoje é um símbolo musical e cultural de Portugal. Esse ano completam-se 30 anos da morte de Zeca Afonso, em 23 de fevereiro de 1987. Vale a pena conhecer toda a obra desse compositor genial.

Rui Veloso

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Amante incondicional do blues e do rock, Rui Veloso tinha 23 anos quando lançou o disco Ar de Rock, que o tornaria uma estrela em Portugal. Assim, Rui se tornou uma espécie de pai do rock português, tanto em influência quanto em popularidade. É o segundo nome mais citado na “Enciclopédia da música portuguesa”, atrás somente de ninguém menos que Amália Rodrigues.

Xutos & Pontapés

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Formada em 1979, a Xutos & Pontapés é provavelmente a maior banda de rock portuguesa. De postura provocativa e intensa, a Xutos colocou, no início da década de 1980, Portugal no mapa da cultura punk. Em 2014 a banda – que volta e meia apresenta-se em parceria com os Titãs – comemorou 35 anos de atividade, que segue, ainda hoje influenciando novas gerações surgidas na cena musical jovem do país.

Buraka Som Sistema

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Fundada em 2002, a Buraka Som Sistema é uma banda diretamente influenciada pelas sonoridades e misturas das colônias africanas sobre a música portuguesa. Misturando batidas eletrônicas com ritmos africanos como o Zouk e o Kuduro, a banda é definida muitas vezes como uma espécie de “kuduro progressivo”, com a presença feminina e negra como elementos fortes da sonoridade da banda, que traz também o Hip Hop como voz forte. O nome vem de um bairro da periferia de Lisboa, e a banda é uma das mais interessante a surgir recentemente do país.

B Fachada

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O nome mais recente da lista, B Fachada vem se afirmando como o mais forte novo artista da música portuguesa. Utilizando sintetizadores, MPC, teclados e pianos – muitas vezes se apresentando sozinho no palco – B usa tais sonoridades para vestir canções em poéticas realmente própria, sem fugir da política ou de questões existências, com influências da música portuguesa, do folk, do indie e do jazz. B Fachada é visto como um dos principais destaques de sua geração.

Ornatos Violeta

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Referência do rock alternativo em Portugal, a Ornatos Violeta funcionou, em seus pouco mais de 10 anos de atividade (entre 1991 e 2002) como uma esponja, absorvendo as mais diversas influências – do rock alternativo ao cabaré, da psicodelia ao punk. A banda lançou somente dois discos, Cão! e O Monstro Precisa de Amigos, e com eles criou não só sucesso de crítica, como também um verdadeiro culto ao seu redor.

António Variações

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Apesar da curta carreira e vida – tendo morrido aos 39 anos, em decorrência do vírus HIV – o cantor e compositor António Variações é a personificação da liberação que se tornou possível nas mais diversas frentes em Portugal após a revolução dos cravos. Assim, Variações é um dos maiores nomes recentes da cultura portuguesa. Homossexual, entre o fado, o blues, vivia o rock, como um David Bowie português, apaixonado por Amália, ainda hoje considerado à frente de seu tempo.

GNR

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Depois da revolução, um boom do rock em Portugal ocorreu – e um dos nomes mais fortes a sair desse boom é o GNR, ou Grupo Novo Rock. A sigla, porém, é menos ingênua do que parece: ela propositalmente se confunde com a sigla da Guarda Nacional Republicana portuguesa. Como o nome já sugere, ao GNR interessava não o blues ou o velho rock, mas sim o new wave e o punk. O protesto e tal sonoridade tornaram o GNR uma das mais importantes bandas de sua geração, a permanecer na história do estilo no país até hoje.

Sérgio Godinho

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Com especial ênfase em suas letras, Sérgio Godinho é considerado um verdadeiro criador em língua portuguesa da canção. Godinho elenca, entre suas influências, Caetano Veloso, Jim Morrison, Zeca Afonso e Chico Buarque. Tendo sido também perseguido pela censura, Godinho voltou a Portugal depois da revolução para se tornar um dos grandes compositores da então nova canção portuguesa.

Mariza

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Nascida em Moçambique, a cantora de fado Mariza é um dos mais fortes nomes do fado contemporâneo – e, sem dúvida, é uma cantora portuguesa, ilustrando também a relação colonial cultural no país. Misturada ao jazz, o blues e o soul, com os pés na renovação mas sem jamais abandonar a tradição, reconhecida em todo o mundo, Mariza é por muitos considerada a herdeira direta de Amália Rodrigues. Cantar o fado, para ela, é levar a cultura portuguesa ao mundo – que a recebe de braços abertos, considerando que Mariza já vendeu mais de um milhão de discos.

© fotos: divulgação

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta e Só o Sol Sabe Sair de Cena.

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