Matéria Especial Hypeness

Ativismo cannábico: os bastidores da luta pela descriminalização da maconha

por: Stephanie Bevilaqua

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Dá preguiça, a gente sabe. Sair de casa para colar na manifestação. Discutir com o chefe, no almoço de domingo. Encarar a família, duvidar da mídia, confrontar aquele seu amigo querido que é tão diferente de você. Ativismo e maconha são duas palavras que andam juntas e assim são extremamente necessárias em tempos sombrios como estes. E é por isso que precisamos falar sobre isso.

Seja você consumidor, ou não, quem luta pela descriminalização da Cannábis, ou contra a guerra às drogas, muitas vezes acredita que o contexto vai muito além do individual. Ou seja, transcende o meu e o seu direito de fumar um baseado na paz de Jah e clama por uma sociedade mais justa.

Colocamos no caldo questões ligadas a saúde pública, economia, segurança e obviamente social. Não é à toa que “fogo na bomba e paz na quebrada” é um dos lemas da Marcha da Maconha. Ou você achou mesmo que todo mundo está pedindo pelo direito de chapar a qualquer hora em qualquer lugar?

Conversei com dois ativistas de carteirinha para entender um pouco mais como andam as coisas em relação a ganja e a luta no Brasil hoje, a fim de colocar o assunto em pauta e relembrar a importância da nossa manifestação como cidadãos políticos. Olha só:

Rebeca Lerer é jornalista e ativista. Já trabalhou em muitas agendas ambientais como Greenpeace e SOS Mata Atlântica… Morou na Amazônia, pediu pelo direito aos animais, pela mídia independente. Lutou contra o racismo, a Copa do Mundo, a tarifa do transporte público e obviamente pela maconha.

“Eu acho que depois de 2013 houve uma ressignificação do que é o ativismo. Até então as pessoas não viam isso como uma opção de vida”, comenta.

Facebook Rebeca Lerer

Desde 2009 a Rebeca acompanha o coletivo da Marcha da Maconha, fortalecendo voluntariamente a luta. Ela nos explica que é muito mais complexo do que parece: “É um coletivo cheio de coletivos (blocos). Ou seja, existe a agenda feminista, a agenda negra, a religiosa, a do cultivo… São muitas pautas dentro de uma”.

“A guerra às drogas é a principal fonte de corrupção em vários níveis de articulação do governo. De um lado, sob as políticas ruralistas de desmatamento você vê racismo, genocídio, e as repressões ao índio, ao favelado. Do outro os movimentos que não conseguem atuar de forma integrada enquanto a bancada ‘boi, bala e bíblia’ está super articulada. Do mesmo jeito que falta independência. Muitas marchas se aliam a partidos e ONGs que estão por trás de agendas institucionais e financiamento”.

Enquanto isso, eu, já desesperada com o cenário atual do país pergunto se não rola uma depressão ao se jogar de cabeça nesses movimentos. “Olha, eu fumo muita maconha”, ri. “Mentira, eu já fiz muita terapia, cuido da saúde, da alimentação… Não dá para entrar numa tendência de ‘síndrome do herói’. Eu sou uma pessoa privilegiada, branca, classe média alta, falo inglês, espanhol, morei fora… Meu start já é muito diferente de 95% da população. E o dia que eu entendi isso, o ativismo não se tornou um mérito – e sim uma obrigação“.

Luiz Pires/Facebook Rebeca Lerer

O Profeta Verde, ou então, Fernando DaSilva, se coloca na mesma posição social – e também é advogado, ativista, privilegiado e usuário. Fumo maconha desde os 17 anos e também sou bacharel em marketing, direito, sou pai de duas garotas lindas, funcionário público e candidato a vereador. E apesar de todas as condições que tive, sempre me senti oprimido por causa da maconha, conta.

“Não tenho dúvidas que o ativismo me levou à política. Muitas vezes a gente reclama dos políticos, do condomínio e assim somos apenas passivistas. Mas eu acho que definir o ativismo seja uma coisa bem simples como ‘levantar a bunda da cadeira para tentar mudar algo que não está legal no mundo'”.

Facebook Fernando DaSilva

Em uma entrevista anterior ao Hypeness, o Profeta conta que foi pego pela polícia plantando, julgado como usuário – e que ainda assim leva as últimas instâncias o processo. “Eu acho um absurdo o usuário ter qualquer tipo de punição, ainda mais uma esdrúxula como essa advertência verbal, prevista na lei antidrogas. Queria fazer disso um ativismo jurídico negando a advertência assim forçando o STF se pronunciar sobre a insconstitucionalidade do crime de porte de drogas para uso pessoal”.

Até aí o Profeta conta que estava na faculdade de direito, tinha todo o apoio de um excelente advogado e ativista político e eu pergunto: e quando a gente tem que conversar com o outro lado, ou seja, aquele que não concorda com uma opinião nossa, um amigo, familiar, vizinho… Como a gente faz?

“Conversar com o outro lado é um trabalho que a gente tem que aprender a fazer. O que eu faço pra dialogar é tentar criar empatia. Acho que essa é a palavra chave e assim temos uma abertura melhor. É encontrar um ponto em comum e levar esse ponto para debate melhorando a abertura e a receptividade das nossas posições.

Facebook Fernando DaSilva

E é em um cenário como esse, de pessimismo geral no país, que é urgente uma reflexão sobre o que, como e porque estamos fazendo alguma coisa.

Para Aristóteles “o homem livre é soberano porque é senhor de si”. E como este é um ser que necessita de coisas e dos outros, busca a comunidade para alcançar a “completude”. E a partir disso, ele deduz que o homem é naturalmente político.

A teoria vai além e é muito mais complexa que essa pequena exposição acima. Mas da próxima vez que te chamarem de maconheiro (por fumar, usar ou defender a maconha), talvez uma solução seja criar empatia e dizer-se político. E faça isso valer na prática. Quem sabe assim a gente sai desse texto, quebra preconceitos, estereótipos, faz política e consegue ver o resultado nas ruas e o reflexo em toda a sociedade.

Facebook Fernando DaSilva

Foto destaque: Alice Vergueiro/reprodução Facebook 


Stephanie Bevilaqua
Depois de uma relação de amor e ódio com São Paulo e o jornalismo, hoje vivo em Buenos Aires para me dedicar ao cinema. Ou seja, acrescentei mais duas coisas na lista da vida para amar e odiar.

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