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Ganja Talks bola o maior evento baseado em maconha no Brasil e acende a vela de 30 anos do “Verão da Lata”

por: Camila Garófalo

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Verão de 1987. Latas cheias de uma erva verde e misteriosa aportavam paulatinamente nas praias do Rio de Janeiro e São Paulo até chegar no Rio Grande do Sul. Centenas de pescadores e caiçaras não conseguiam acreditar no que os seus olhos viam. Muitos até pensaram ser orégano. Era maconha. Quinze mil latas espalhadas pelo mar, muitas delas camufladas por entre as pedras, trazidas pela maré, como num conto de fadas (ou seria um canto das sereias?). Pura realidade.

Havia poucos dias o barco Solana Star, vindo da Austrália, teria jogado no mar cerca de vinte e duas toneladas de cannabis para fugir da polícia brasileira que foi avisada da operação pela polícia americana (pra onde seria o destino final da mercadoria). Em vez de afundar, as latas boiaram e o único tripulante da embarcação que se apresentou foi preso (momento “entrou de gaiato no navio”). Quem não entrou pelo cano e saiu ganhando foi a população litorânea que, além da brisa de estar vivendo um momento como esse, pôde até reformar seus barcos com o dinheiro clandestino. Era o fim da Ditadura. Afinal, estava inaugurado o “Verão da Lata”.

Trinta anos depois viemos parar no Ganja Talks, em plena Vila Madalena, para relembrar essa história que ficou eternamente marcada no coração dos brasileiros e na mente dos futuros empreendedores canábicos do país. No último final de semana, alguns deles se reuniram dias 29 e 30 de julho nos diversos pontos culturais e de coworking nos arredores do Beco do Batman para palestrar sobre a descriminalização, o business, a relação cultural, a violência policial, e o conteúdo disseminado no atual cenário canábico do Brasil. Em sua segunda edição em São Paulo, o evento é um movimento que enxerga na legalização uma ponte para o avanço da indústria farmacêutica, do mercado têxtil e da justiça na política de drogas.

Através do Ganja 2017 conhecemos os pais de Clárian, a adolescente de 12 anos que descobriu sofrer da Síndrome de Dravet, doença rara com crises epilépticas e atraso no desenvolvimento psicomotor. Desde então Cidinha e Fábio Carvalho lutam na justiça pelo poder de cultivar a erva e se tornaram ativistas: “como mãe eu precisava fazer isso”, desabafa Cidinha durante a palestra que aconteceu na parte externa do Espaço Revista Cult.

Na indústria têxtil não é diferente já que a regulamentação do cânhamo pode ser a solução para tornar o Sertão Brasileiro um polo produtor inserido na economia nacional. Aqui vale citar o exemplo da Grass Roots California, marca de boné que trabalha com material 100% cânhamo. Dando uma intera no assunto, a advogada Lorena Otero soltou uma bucha: “o propósito das empresas do ramo é tornar mais acessível os produtos (permitidos por lei) e por consequência fomentar a cultura canábica no Brasil”.

Também conhecemos dezenas de produtos inovadores no ramo como o bong feito de silicone e a seda feita de ouro (sim, de ouro). Também tinha muito modelos de triturador e uma infinita variedade de produtos e marcas como a aLeda, OCB, Tarja Verde, Di Boa Tabacaria, Inca, Go Green e Cultura Dab. Se por um lado muitas pessoas fazem disso um negócio, para Alexandre Perroud da Ultra 420, é um estilo de vida. “Eu consegui ser o meu próprio patrão. Resolvi ganhar menos e fazer o que gostava. Tem pra todo mundo. É verdade que o futuro do mercado canábico depende das leis. Mas o futuro do mercado canábico também são vocês que estão aqui hoje pessoas interessadas no assunto“.

Outros momentos como esse também chaparam muito, como a palestra  do idealizador do evento, João Paulo Costa. Também criador do aplicativo global Who Is Happy, considerado o FourSquare da maconha e a rede social pioneira na geolocalização para consumidores de cannabis. Os mais de 200 mil usuários podem compartilhar anonimamente seu consumo através de um botão para checkin e buscar informações sobre o consumo de cannabis no mundo.

Para João a ideia vai além dos negócios e tem a ver com ideologia: “mais do que um mapeamento de usuários de maconha, o Who Is Happy é uma ferramenta que estimula as pessoas a assumirem quem são”. Ele também falou sobre as mudanças no consumo de cannabis no Colorado, primeiro estado americano a regularizar o uso recreativo da planta e disse que “o futuro da cannabis é robozinho” alegando que as próximas grandes produções contarão com essa tecnologia para seu cultivo.

“É uma semente como qualquer outra”, simplifica Gabriel Vieira para o Hypeness. Especialista do Bio Green Shop em manejo integrado de pragas, ele nos explicou que existem vários tipos delas, porém para cada uma também existe um predador biológico diferente sendo usado no seu controle, os famigerados ácaros.

Logo depois fomos apresentados ao Tropikali Systems, empresa que fornece iluminação de hortas interiores, fertilizadores, montagem e assessoria indoor, além de substratos avançados, os conhecidos supersolos, ricos em nutrientes, minhocas e condições ideias para o cultivo de plantas saudáveis. Aprendemos que existe o supersolo starter (para o início do cultivo) e o supersolo grow (logo depois que a planta passa de um mês de vida).

Com tantas informações sobre o universo da maconha fica difícil fazer com que as pessoas assimilem tantos conteúdos. Nesse momento é importante o papel dos digital influencers que também marcaram presença no Ganja Talk 2017.

Por meio de uma palestra da galera do Smoke Buddies, que rolou no Viveiro Coworking, fomos apresentados a diversos canais de conteúdo canábico como Baseado no Cotidiano, Eu A Maconha e Uma Câmera, Nah Brisa, Maryjuana Br, Growroombr, Hempadão e Canal Um Dois. Este último desistiu de rentabilizar o canal pelo youtube e foi atrás de marcas porque havia uma demanda no mercado: “Descobrimos que éramos uma empresa já que tínhamos receita, despesas, custos, investimentos e linha final de lucro”.

 

Nesse corre concluímos que, além da comunicação integrada, a solução real para quebrar o preconceito sobre a maconha seria a maior participação política. Essa é a opinião dos militantes André Barros, vice-presidente da comissão de direitos humanos da OAB-RJ, e Fernando da Silva (Profeta Verde), fundador da Associação Cultural Cannábica de São Paulo (ACUCA) e coordenador do EDUCannabis (Profeta Verde) que falaram sobre a necessidade de uma Bancada da Maconha na política brasileira.

Ambos foram candidatos a vereador nas eleições municipais de 2016, um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo, conquistando juntos mais de 5 mil votos. Ambos defendem a urgente necessidade de se eleger políticos que assumam explicitamente a defesa e a promoção da cultura canábica brasileira, trabalhando para garantir que a legalização da maconha em nosso país traga benefícios não só para os pacientes medicinais, mas também para os trabalhadores e empreendedores brasileiros que participarão deste mercado.

Quando o assunto é maconha, são milhares os desafios que temos que queimar pela frente. Para o diretor do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, Cristiano Maronna, o primeiro passo é “pensar numa política de drogas que não proíba nada porque qualquer substância que o consumidor quer ter e for proibida culminará num mercado clandestino”.

Enquanto a legalização não vem, eventos como o Ganja Talks são de ponta pois alinham a comunicação entre empresários, ativistas, lojistas e pessoas interessadas em mudar o futuro careta de um país tão jovem. Não é a toa que o Ganja Talks é considerado o maior festival 4 e 20 do país e atua justamente para mudar moralismos prensados sem nenhum controle de qualidade. Nessa onda, aprendemos que disseminar informação verdadeira é o nosso maior papel. Ou talvez nossa última seda. Sendo assim, catch a fire!

Renato Mantovani
Reprodução/Divulgação


Camila Garófalo

Camila Garófalo é cantora, compositora e publicitária. Produz sua própria carreira e escreve sempre que sente vontade. Tem um único vício: comunicar-se.

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