Matéria Especial Hypeness

O adeus à elegância e à poesia de Luiz Melodia, uma das mais belas vozes da história da música brasileira

por: Vitor Paiva

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A partir do final dos anos sessenta, especialmente depois dos esforços e conquistas estéticas tropicalistas, a música popular brasileira pareceu finalmente abraçar como vocação a sua pluralidade de estilos, poéticas e possibilidades. Não era mais preciso ser uma coisa só: do samba ao baião, do rock ao blues, do choro à bossa, do popular ao erudito, podíamos ser o que quiséssemos.

A geração seguinte ao tropicalismo rapidamente assimilou tal abertura, e soube transforma-la em uma sucessão de obras-primas. Poucos, no entanto, souberam orquestrar tal mistura de forma tão original e bela – e com o adorno de uma voz tão singular quanto impressionante – como Luiz Melodia, o cantor e compositor carioca falecido na manhã de hoje, 4 de agosto de 2017, aos 66 anos, em decorrência de um câncer de medula.

Em 1973, quando lançou seu disco de estreia, Melodia era um jovem de 22 anos, vindo do morro de São Carlos, no bairro do Estácio – conhecido como berço do samba, onde o grande Ismael Silva fundou a Deixa Falar, a primeira escola de samba do Brasil. O samba, portanto, atravessava desde criança tão naturalmente a vida de Luiz Melodia quanto o vento.

O jovem Melodia

O que ele trazia em sua bagagem, porém, não se restringia somente à música das escolas: Melodia sabia apreciar e se deixar influenciar pelo bolero, o samba canção, a música de Lupicínio Rodrigues, o baião de Luiz Gonzaga e a modernidade nordestina de Jackson do Pandeiro.

 

Tudo começou, porém, em 1971, quando, pelas mãos dos poetas Waly Salomão e Torquato Neto, Melodia se aproximou dos artistas ligados à Tropicália.

Melodia ao lado de Gal Costa, Nara Leão, Odair José, Caetano Veloso e Maria Bethânia

Sua canção “Pérola Negra” (que então ainda se chamava “My Black, Meu Nego”, e que teve o nome alterado por sugestão de Waly) foi escolhida por Gal Costa para fazer parte de seu novo show e disco. A canção se tornou um dos pontos altos do show Gal A Todo Vapor – registrado no antológico disco Fatal – e, a reboque desse sucesso, Melodia começou a preparar seu primeiro disco.

 

Melodia cantando ao lado de Gal Costa

Do samba, Melodia passou a nutrir admiração também pelo rock, através dos programas de TV e da jovem guarda, e naturalmente chegou ao blues e ao jazz. Ao farnel de estilos que já trazia consigo, somou-se assim também a música americana e, sem nunca perder o samba como pano de fundo essencial, foi esse o arsenal que Melodia carregou para preparar seu primeiro disco, o absoluto clássico Pérola Negra. O ano de 1973, quando Pérola Negra foi lançado, pode ser visto como uma espécie de renascimento da música brasileira, depois do fim do tropicalismo.

Capa do disco Pérola Negra, de 1973 

Foram lançados, nesse ano, os discos de estreia de João Bosco, Raul Seixas, Fagner, Sérgio Sampaio e Gonzaguinha (que também cresceu no morro de São Carlos), além de Matita Perê, de Tom Jobim, Elis, de Elis Regina, Nervos de Aço, de Paulinho da Viola, Canto por um Novo Dia, de Beth Carvalho, Novos Baianos F.C., Quem é quem, de João Donato, Todos os Olhos, de Tom Zé e Araça Azul, de Caetano Veloso, entre outros. Mas mesmo entre pares tão brilhantes, poucos discos souberam significar o hibridismo de estilos com a qualidade e quantidade de grandes composições, uma boa dose de coragem e a voz visceralmente fatal e instantaneamente imortal como fez Melodia em seu primeiro disco.

Vamos passear na praça/ enquanto o lobo não vem/ Enquanto sou de ninguém/ Enquanto quero te ver”, diz o primeiro verso do disco, o belo choro “Estácio, eu e você”. Não por acaso, diversas letras do disco foram proibidas pela censura vigente na ditadura militar de então. Dessa faixa de abertura ao final do disco passam-se somente 28 minutos – mas bastou essa meia hora encurtada para o nome de Luiz Melodia estar inscrito na história da música brasileira.

O entrelaçamento tão natural que Melodia realiza entre o samba, o choro, o samba-canção e o blues, o rock, o soul – como a maturidade do elo herdado do tropicalismo, unindo o samba do Estácio e a música estrangeira – é transformado em um triunfo musical não só através da beleza da voz do cantor, como também pelos belos e estranhos versos que compõem o imaginário poético do disco.

Melancólica e sofrida e, ao mesmo tempo, urbana, apaixonada e bem humorada, assim se apresenta a identidade do compositor, evidente em clássicos como “Estácio Holly Estácio”, “Magrelinha”, e na canção que batiza o disco.

Melodia em ação durante a década de 1970

Da naturalidade com que assumia a identidade de um sambista que gostava de rock – ou de um roqueiro nascido e criado no berço do samba -, Melodia acabou carregando a infeliz alcunha de “maldito” ao longo de sua carreira, rótulo que costuma significar simplesmente um artista que não respeita as limitadas exigências da indústria, pautando-se somente por sua própria liberdade e criatividade.

Depois de Pérola Negra (que obteve intenso sucesso de crítica mas pouco sucesso comercial) a gravadora o pressionou a fazer rapidamente um novo trabalho, mais fácil, de sambas (para vende-lo simplesmente como um “sambista do Estácio”), mas Melodia resistiu, e não aceitou.

Seu segundo disco, Maravilhas Contemporâneas, viria somente em 1976, confirmando seu lugar cativo de Melodia entre os criadores de nossa música.

Com arranjos requintados e timbres preciosos, o disco traz canções como “Congênito”, “Baby Rose” e a imortal “Juventude Transviada” – um desses sambas que parecem ter existido desde sempre, que não parece possível que tenha sido composto por um jovem há pouco mais de 40 anos.

 

De lá pra cá, alternando momentos de maior sucesso com outros de mais discrição, entre o brilho como compositor e raro intérprete que foi, Luiz Melodia somente se confirmou como uma das mais belas e originais vozes da música em todos os tempos. Perder um artista de tamanha elegância, originalidade e talento em um momento tão difícil quanto o que o país hoje vive torna o luto ainda mais amargo.

Ter, no entanto, sua obra como luz, acalanto e pólvora para nossas inquietações e sonhos sempre será, porém, um alívio, uma janela de saída como um respiro para o Brasil que realmente queremos – no qual devemos agradecer e comemorar um grande como Luiz Melodia foi e é.

© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta e Só o Sol Sabe Sair de Cena.

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