Entrevista Hypeness

Entrevista Hypeness com John Bramblitt, o artista cego que se inspira em sons para pintar e criou uma obra exclusiva pra o Rock in Rio

por: Joao Rabay

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Desde criança, o norte-americano John Bramblitt sabia que a arte era parte importante de sua vida. Desde cedo o desenho o ajudou a lidar com problemas de saúde, e tem sido assim até hoje: após perder a visão, ele passou a pintar, e faz isso usando a música como inspiração, na mais pura sinestesia – os sons que ouve o ajudam a escolher quais cores e formas utilizar.

(Leia também: O talentoso pintor cego que nunca enxergou nenhuma de suas obras)

Além da audição, outro sentido é fundamental para as obras de John: o tato. Usando tintas de secagem rápida, ele sente na ponta dos dedos cada forma que colocou na tela antes de dar a próxima pincelada. Etiquetas em braile nos tubos de tinta e muito talento ajudam a misturar as cores e encontrar os tons ideais, e ele até descobriu que cada cor tem uma textura diferente. Hoje, é capaz de sentir os quadros que pinta de uma maneira única.

O artista veio ao Brasil para apresentar sua última obra, uma pintura que estampa a aeronave de uma das patrocinadoras oficiais do Rock In Rio. O público do festival, que começa no dia 15 de setembro, participou de uma votação online para criar uma lista de canções de artistas que vão tocar na edição deste ano.

As 10 músicas mais votadas pelo público do RiR

Foi ouvindo as 10 músicas mais votadas que John criou a arte batizada de Musicolors, em ação patrocinada em conjunto pelas transportadoras aéreas oficiais do Rock In Rio: GOL, Delta Air Lines, Air France e KLM.

Aproveitamos a passagem do artista pelo país para conversar sobre sua relação com a arte, sua técnica exclusiva de pintura e a experiência de visitar o Brasil pela primeira vez. Confira:

Hypeness: Como era sua relação com a arte antes de perder a visão?

John Bramblitt: Eu só comecei a pintar depois de perder a visão, mas a arte sempre foi parte importante da minha vida. Desenho desde criança, e sempre tentei fazer aulas e ler livros em que encontrasse desenhos e ilustrações.

Enquanto eu crescia, tive epilepsia e problemas no fígado, e a arte me ajudou a lidar com tudo isso. Passava muito tempo no hospital e desenhar ajudava a me distrair nos dias ruins, além de ser a melhor forma de comemorar os dias bons. Eu desenhei por literalmente todos os dias da minha vida desde que pude segurar um lápis até perder a visão.

H: Como a pintura entrou na sua vida e como ajudou a lidar com a perda da visão? Li que no começo não foi nada fácil…

JB: No começo eu achei que a arte estava fora da minha vida para sempre. Há quem as chame de “artes visuais”, e eu não era mais visual. Mas aprendi a fazer as coisas de novas maneiras – a usar minhas mãos para fazer o trabalho que era dos meus olhos.

Comecei a usar uma bengala e aprendi a me locomover pela cidade de forma independente e a navegar pela universidade que eu frequentava. Comecei a pensar que, se eu podia andar por aí entre carros e pessoas, então eu poderia fazer algo parecido em uma tela se conseguisse sentir o que estava desenhando.

Foi isso que me levou à pintura, porque você realmente pode sentir cada pincelada. Quanto mais pinceladas se dá na tela, mais há para sentir e entender para onde você está indo.

Fiquei muito deprimido quando perdi a visão, porque eu estava acostumado a ir onde quisesse na hora que quisesse, e de repente passei a depender das pessoas para sair e fazer as coisas mais simples. Me sentia muito isolado e perdi toda a esperança para o futuro. Continuei indo à Universidade, mas não sentia que realmente tinha muito na vida. Quando comecei a pintar, tudo isso mudou. A pintura me trouxe uma nova forma de ver o mundo e me fez parte dele novamente.

H: Como você desenvolveu a técnica chamada de Touch to Sight (algo como “Do Toque à Visão”)? Você sabia de alguém que tivesse feito algo parecido ou veio naturalmente?

JB: Desenvolvi as técnicas que uso hoje a partir do que eu já conhecia sobre composição artística, combinado àquilo que estava aprendendo com quem me ensinava a me locomover com a bengala. Juntando as duas coisas, fui capaz de entender como navegar dentro da tela assim como uma pessoa cega navega pela cidade.

Eu não conhecia nenhum pintor cego na época, e para ser honesto me achava louco por estar tentando. A arte sempre foi minha maneira de ligar com a vida, então sabia que precisava ao menor tentar achar uma maneira de me conectar a ela novamente.

Nas primeiras exibições que eu fiz, nem contei às pessoas que era cego. Eu não queria que elas focassem em mim e na minha cegueira, e sim que elas focassem na arte. As exibições correram bem, e então a questão foi divulgada, o que acabou sendo ótimo. Instituições de caridade passaram a entrar em contato para que eu trabalhasse junto com elas. A cada ano consigo trabalhar com mais e mais instituições e conhecer pessoas incríveis. Realmente me sinto abençoado.

H: Como você se sentiu ao perceber que era mesmo possível pintar através da música? Suas pinturas costumam ser muito coloridas e vibrantes, isso tem a ver com a sinestesia? Como exatamente a música impacta sua arte, e quais gêneros você prefere ouvir para trabalhar?

JB: Enquanto crescia, eu pensava que todo mundo via cores enquanto ouvia música. Nunca percebi que isso era estranho. Quando perdi a visão, isso ganhou um novo significado, porque eu não via mais as cores através dos olhos, mas, quando uma música começava, minha mente era tomada pelas cores mais maravilhosas!

É isso que chamamos de sinestesia, e é importante demais para minha pintura. Se você visitar meu estúdio, uma das primeiras coisas em que vai reparar é que há alto-falantes enormes espalhados. Quando pinto, sempre ouço música, e costumo achar que quanto mais alto, melhor. Inclusive a paleta onde coloco as tintas é um subwoofer de 2000 watts!

Gosto de ouvir várias sonoridades enquanto trabalho e transformo tudo em cores. Amo músicas cheias de sentimento e uma boa batida, mas o principal é encontrar músicas que me deem o sentimento que quero transmitir nas obras. Fico ouvindo e pensando em pinturas, e de repente vem um ‘clique’ que me indica para onde seguir no próximo trabalho.

Tenho várias músicas brasileiras na lista principal que ouço no estúdio, amo suas batidas e ritmos, e também amo o rock and roll, tanto os mais antigos quanto os recentes, além do jazz de New Orleans. Mas na verdade gosto de todo tipo de música, tudo depende do tipo de quadro que quero pintar.

H: Você já conversou com outras pessoas cegas ou outros artistas sobre as possibilidades que a sinestesia pode trazer?

JB: Como uso muito a música para me inspirar, já trabalhei bastante com músicos, alguns muito famosos e incrivelmente talentosos. Vários deles tem ao menos sinestesia parcial, e isso facilita o trabalho em conjunto, porque eu posso pedir que eles tornem as canções que estão tocando mais azuis ou vermelhas, e eles entendem o que estou falando (risos).

Também já conversei com muitas pessoas cegas que também tem a sinestesia, e todos amam música, é claro. Quando a música é a única cor que você tem em sua vida, acaba se tornando parte importante de quem você é.

H: Você pode nos contar um pouco sobre seu processo criativo? O que te inspira a continuar pintando?

JB: Amo encontrar pessoas, e muitas vezes são meus amigos que acabam nas minhas telas. Se eu conhecer alguém que eu considero interessante, vou sentir seu rosto. Mas pode demorar para eu encontrar a pintura ideal para seu rosto.

Eu conheci o skatista Tony Hawk, mas demorou uns seis meses para encontrar a música e a composição visual certas para fazer seu retrato. Aconteceu o mesmo com o ator Jeff Bridges.

Outras vezes, é como se uma pintura simplesmente saísse de dentro de você. Mas acho que é importante não forçar demais. Trabalhar todos os dias, praticar constantemente, e então, quando for a hora certa, a pintura vai sair do jeito que ela deveria. Minha principal regra é não julgar o que estou fazendo, e assim me dar a liberdade necessária para criar.

H: Falando sobre sua visita ao Brasil, o que exatamente você veio fazer? Já fez algo parecido antes?

JB: Tinha vontade de ir ao Brasil desde que era criança, e tenho amigos no Texas, minha terra natal, que são brasileiros, então ouço coisas maravilhosas sobre as pessoas, a comida, a música e a arte daqui.

A primeira coisa que fiz no Brasil foi pintar, é claro – sou um tanto obcecado pela arte, e preciso pintar todos os dias. Estava ansioso para poder pintar no Brasil, comendo a comida e ouvindo a música do país. Tem sido fantástico!

Minha arte já foi a 30 países pelo mundo, mas eu digo que essa é uma viagem que eu queria fazer desde quando consigo me lembrar. É até difícil colocar em palavras o que isso significa para mim. Todo mundo tem sido tão gentil e fiz tantos novos amigos!

Essa viagem vai ficar comigo para sempre e mudará minha arte. Cada experiência que tenho tido, das ruas aos restaurantes e cafés, vai colorir meu trabalho por vários anos. Trabalhar na pintura para o avião foi uma experiência incrível, e poder voar na aeronave, levando minha obra para o céu e fazendo parte de um festival tão divertido, tudo isso é uma oportunidade única na vida.

Me sinto realmente abençoado por fazer o trabalho que tenho feito, e ao lado de algumas das pessoas mais extraordinárias que já conheci.

Fotos: John Bramblitt/Divulgação


Joao Rabay
Gosta de ler boas histórias para aliviar a mente no meio de tantas notícias ruins. Ainda acredita que elas podem inspirar boas mudanças e fica feliz quando pode contá-las.

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