Desafio Hypeness

O que mudou na minha rotina quando fiquei uma semana sem usar carro

por: Joao Rabay

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Hoje, 22/09, é o Dia Mundial Sem Carro, data que foi criada para nos fazer pensar em como nos tornamos dependentes dos automóveis. Quando o pessoal do Hypeness me perguntou se eu toparia passar essa semana sem me locomover de carro (incluindo caronas ou aplicativos), logo respondi que havia dois momentos da semana em que achava impossível abrir mão do conforto que ele traz. “Por isso é um desafio, né?”, disse o João, meu xará e editor.

A frase óbvia, mas verdadeira, fez com que eu me sentisse muito mais dependente do carro do que eu achava, então me senti desafiado mesmo e topei. Mas antes de falar de como foi a semana, preciso contextualizar algumas coisas

Bom, quando o Hypeness publica textos sobre novas maneiras de se trabalhar, não é à toa: o nomadismo digital, isso é, usar a internet a seu favor para produzir de onde quiser, é realmente algo em que se acredita por aqui. Por isso todo mundo trabalha remotamente, de casa mesmo ou de cafés, coworkings, bibliotecas ou qualquer outro lugar.

Um dos principais benefícios desse modelo é não ter que encarar o desconforto de se locomover até o trabalho ao mesmo tempo que centenas de milhares de outros moradores da cidade o fazem, e para quem mora em São Paulo isso faz muita diferença. Fiquei pensando em como isso facilitaria o desafio, já que não preciso ir e voltar do trabalho todo dia.

Mas como, antes de começar a escrever para o Hypeness, eu usava o metrô e às vezes ônibus para fazer esse tipo de trajeto (até o trabalho e também a faculdade), achei que o desafio não perderia tanta força. Até porque a necessidade de garantir que o funcionário chegue até o emprego é um dos poucos motivos que fazem as alternativas ao carro funcionarem mais ou menos bem

Entrando no desafio: tirando aqueles dois momentos que citei no começo do texto, não achei que teria problemas. Eu nem me considero tão dependente do carro assim, costumo fazer trajetos mais curtos de bicicleta e muitas vezes prefiro pegar o metrô a enfrentar o trânsito e as dificuldades para estacionar que o carro traz junto. E convenhamos, tanta gente se movimenta por aí sem carro que pensei que seria um pouco “Classe Média Sofre” ter grandes dificuldades por passar uma semaninha assim (e nem incluía o sábado e o domingo).

Só que eu costumo combinar esses modais de transporte ao carro. Sempre que a alternativa não parece vantajosa, logo me viro com as quatro rodas. Além disso, moro num bairro em que praticamente todo mundo tem carro, o que faz com que o transporte coletivo não receba tanta atenção por aqui… Nem tenho meu próprio veículo, mas logo percebi que sou mais dependente da “carrocracia” do que imaginava.

O desafio começou na segunda-feira. Tirando o trabalho, que fiz de casa mesmo, eu tinha dois compromissos: ir à fisioterapia/pilates no fim da tarde e jogar futevôlei no fim da noite. A primeira parte foi tranquila, já que eu sempre vou de bike mesmo (inclusive a proximidade com minha casa foi importante quando eu decidi fazer pilates nesse lugar).

Agora, o futevôlei… Esse era exatamente o primeiro momento em que eu não queria abrir mão do carro. Não quis ir de ônibus e metrô porque levaria muito tempo, mas ir de bicicleta também não parecia tão bom. Primeiro porque é um pouco distante de casa, segundo porque tem muita subida no caminho (tanto na ida quanto na volta!), terceiro porque eu já chegaria cansado para jogar, quarto porque voltaria bem cansado e precisando pedalar contra a gravidade, quinto porque andar de bike sozinho depois das 23 horas não me soava como uma ideia muito legal.

À esquerda a comparação entre carro (que na verdade é até mais rápido) e ônibus + metrô. À direita, o trajeto de bike – que demorou mais, especialmente na volta, por causa da subida

Mas ok, por isso é um desafio, né?. Fui de bike mesmo, cheguei um pouco cansado para jogar e voltei sofrendo um pouquinho. Fiquei me perguntando como o pessoal que faz da bicicleta o meio de transporte principal faz pra pedalar à noite sem correr muitos riscos – não cheguei a me sentir inseguro, mas essa sensação de precisar prestar atenção em tudo e todos é bem desconfortável.

Já na terça, um compromisso importante: ir ao mercado. Todo mundo precisa fazer isso, e o carro dá uma baita mão. Eu vou a um supermercado um pouco longe de casa para economizar (os que tem por aqui são bem mais caros), e a bike estava descartada por causa das compras. Peguei um ônibus e foi bem tranquilo – esse negócio de trabalhar de onde quiser nos permite fugir dos horários de pico, é uma beleza.

Só precisei andar uns 10 ou 15 minutos até o ponto, o que foi de boa, apesar do sol forte. Problema maior foi na volta, quando a caminhada incluiu sacolas pesadinhas (do mercado até o ponto e depois do ponto até em casa). Como eu disse, o transporte coletivo por aqui não é tão bom como poderia ser, já que a maioria das pessoas usa o carro mesmo. Aliás, a estação de metrô mais próxima fica a uns 30 minutos a pé de onde moro, o que costuma me atrapalhar.

Voltei para casa, trabalhei normalmente e, no fim da tarde, fui encontrar um amigo de Salvador que estava aqui em São Paulo. Não era tão longe e o horário era tranquilo, então fui de bike numa boa (talvez eu fosse de bicicleta mesmo se pudesse usar carro).

Só que depois disso outro amigo, esse de São Paulo mesmo, me chamou para ir até a casa dele trocar uma ideia. Já eram mais de 21h, a preguiça de ir e voltar de bike bateu forte e não tinha nenhum ônibus que me levasse direto até perto de lá. Foi a primeira coisa que eu deixei de fazer por não poder usar carro.

Na quarta, não precisei me preocupar muito. Fui a pé até um restaurante para almoçar, depois à noite andei até a casa do meu pai para assistir ao futebol. Cheguei a pensar se não estava roubando o desafio por não me locomover tanto, mas concluí que a ideia era seguir mais ou menos dentro da minha rotina. Além disso, acho que não ter carro inclui planejar seus deslocamentos para não precisar ir tão longe mesmo.

Já na quinta fui para o pilates e depois chegou o segundo momento em que eu achava o carro essencial: ir à feira. Vou toda semana para comprar frutas, verduras e legumes mais frescos e baratos, e volto com as sacolas cheias e pesadas. De carro, menos de 10 minutos. A pé, mais de 30.

Consegui um carrinho emprestado para não ter que carregar as sacolas, o que ajudou bastante. Demorei quase duas horas para ir, fazer as compras e voltar, mais que o dobro do que o normal. Foi um momento que me fez perceber como o carro pode poupar tempo.

Além disso, tive que voltar andando pelo cantinho da rua, já que as calçadas são muito irregulares. Fiquei pensando que, se isso atrapalha quem está com carrinho de feira, imagina para pessoas com deficiências motoras que precisam usar cadeiras de rodas… Mas isso é tema para outra pauta sobre mobilidade urbana.

Mesmo o carrinho parece pesado depois de um tempo debaixo do sol…

Voltei para casa, tive alguns problemas para trabalhar por causa do tempo que perdi indo e voltando da feira. À noite, o mesmo amigo de terça falou para ir até a casa dele. Mesma história: estava cansado e a preguiça me venceu. Mais uma vez deixei de fazer algo por falta do carro.

Enfim, sexta, último dia do meu desafio. Como precisamos publicar logo, afinal, o Dia Mundial Sem Carro é hoje mesmo, estou encerrando na hora do almoço. E com uma coisa diferente…

Durante a semana, o McDonald’s entrou em contato com o Hypeness para divulgar uma ação pontual: excepcionalmente hoje, o Dia Mundial Sem Carro, eles estão permitindo que qualquer um vá ao Drive-Thru do jeito que quiser. De bike, a pé, de cavalo, montado nas costas de um amigo ou no jeito tradicional mesmo. Só vai que tá valendo!

Achamos que combinou com o desafio, por isso minha última missão livre do carro foi testar essa história. Fui para o restaurante deles mais perto de casa de bike, cheguei no Drive-Thru para ver se era isso mesmo e fui super bem atendido, sem diferença alguma para quando se passa lá de carro. Ainda fiquei sabendo que quem compra uma McOferta leva um McFlurry por mais R$3 (só hoje), e voltei com uma sobremesa inesperada.

E quais as minhas conclusões após terminar o desafio? Bem, não posso falar que foi fácil, mas também não é o fim do mundo ficar sem carro. Talvez fosse perfeitamente possível abrir mão dele se eu conseguisse planejar para que algumas coisas se encaixassem melhor nessa condição, e, desafio à parte, pegar um táxi ou usar um aplicativo de transporte pode ajudar muito bem em um momento ou outro em que o carro é mesmo a melhor opção.

O que eu fiquei pensando em vários momentos do desafio é em como o transporte coletivo funciona dentro do possível para os deslocamentos casa-trabalho-casa, mas faz falta nos momentos de lazer. Nem passei por um fim de semana dentro do desafio e já deixei de fazer coisas pela falta do carro, e ainda lembrei de algumas situações em que não ter um carro próprio me complicou para sair na sexta, sábado ou domingo.

Acho o carro um modal de transporte com muitos pontos positivos, mas parece que o ideal é combinar a outros modais sempre que for possível. Planejar fazer coisas mais perto de casa, para poder ir de bicicleta ou a pé, e cobrar um transporte coletivo mais eficiente. Afinal, o carro individualmente é ótimo, mas quando você junta milhões de individualidades na mesma cidade a situação tende a ficar um pouco caótica, e só a coletividade pode resolver.

Convido todo mundo que costuma até ir para a padaria de carro a tentar passar uns dias sem o veículo para ver como ele não é imprescindível. Além disso, a experiência faz perceber o quanto podemos nos fazer dependentes desse meio de transporte sem perceber. Não pretendo abrir mão do carro num futuro tão próximo, mas acho que vou mesmo evitar contribuir para com o enorme trânsito e o excesso de uso de combustíveis sempre que for possível.


Joao Rabay

Gosta de ler boas histórias para aliviar a mente no meio de tantas notícias ruins. Ainda acredita que elas podem inspirar boas mudanças e fica feliz quando pode contá-las.

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