Desafio Hypeness

O que aconteceu quando decidi passar um mês sem usar descartáveis

por: Mari Dutra

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Uma das minhas lembranças mais inusitadas sobre o lixo é de quando morei em Buenos Aires, em 2010. Na época, a cidade ainda não contava com separação de resíduos.

Éramos quase três milhões de pessoas jogando todo o lixo num lugar qualquer, com uma possibilidade mínima de que alguma parte dele fosse reciclado. E aquilo me doeu.

Essa dor inicial não me impediu de continuar com meus hábitos de sempre, poluindo esse mundão que parece estar cada vez mais próximo de chegar ao seu prazo de validade.

Eu deixava de pegar a sacolinha plástica do supermercado e achava que estava contribuindo para o bem da humanidade.

Andava pela rua com a minha ecobag com o maior ar de quem tá fazendo um grande sacrifício pelo bem do universo inteiro.

Claro que eu continuo usando minha sacola de pano para ir ao supermercado. Já virei até piada no mercadinho da esquina por causa disso, mas também não entro em pânico quando esqueço a bendita sacola em casa. Como a maioria das pessoas, eu tenho feito aquele mínimo possível para não deixar o mundo um lugar pior do que ele já está.

E, esse mês, eu decidi que iria ampliar um pouco esse mínimo com uma ação tão mínima quanto: eu deixaria de usar descartáveis durante 30 dias. Obviamente, esse período foi estipulado como uma experiência e eu não estou pensando em voltar com os hábitos antigos só “porquesim”.

Eu listei tudo aquilo que ia sair da minha vida nesse tempo: guardanapos, canudos, copinhos, pratos, talheres e outros recipientes descartáveis e hashis. Confesso que imaginei essa experiência como algo bem mais complexo do que realmente foi. Nos primeiros dias pensei em comprar um copinho portátil e reutilizável da Menos 1 Lixo (uma das iniciativas que me inspirou e segue inspirando a viver uma vida mais sustentável), acabei flertando com um kit de sustentabilidade para o dia a dia da Paz de Gaia e me dei conta que essas compras só gerariam mais resíduos na minha vida – além de uma pegada de carbono.

Foi aí que eu adaptei a ideia para adotar uma rotina com menos descartáveis sem ter que necessariamente sair consumindo coisas novas – que geram lixo para sua produção, entrega e eventual descarte. Descobri um copo que eu tinha em casa que, embora grande, pode ser levado para qualquer lugar. Uma toalhinha de rosto nunca usada virou meu guardanapo de emergência, coloquei tudo numa sacola de pano e o mini-kit tava pronto. Simples assim. Canudos, talheres e pratos descartáveis eu evito há séculos, então foram itens que não me preocuparam.

A maior parte do tempo, tudo funcionou no maior deboísmo. Praticamente nem precisei usar o copinho, mas o guardanapo foi incrivelmente útil. Pegava a toalhinha na bolsa quando ia comer fora e não precisava mais nada. Como restaurantes mais arrumadinhos costumam ter seus próprios guardanapos de pano, isso também não foi um problema e acabei usando minha toalhinha principalmente em buffets ou lanchonetes mais simples, por exemplo. Ninguém olhou com cara feia e acho que nem notaram minha inovação. 😛

Como tudo na vida, a experiência não foi perfeita. Um dia fui comer em um lugar que ainda não conhecia e pedi um hambúrguer, coisa que não comia há tempos. Eu imaginava que o lanche viria no prato e nem perguntei nada sobre isso, mas quando chegou o hambúrguer estava envolto em umas 15 toneladas de lixo papel. #fail

Olha a toalhinha ali no canto! ;)

Suspirei fundo e comi assim mesmo. Com a prática nessa modalidade menos-lixo, situações assim podem ser evitadas. A Cristal, do blog Um Ano Sem Lixo, comentou em uma publicação que costuma pedir que os lugares entreguem o lanche no seu próprio guardanapo de pano e, geralmente, não enfrenta nenhum problema com isso. Vou copiar a ideia.

No sushi, acabei optando pelos temakis, que podem ser comidos facilmente sem hashis. Na verdade, qualquer peça pode – e eu sou bem adepta de comer tudo com a mão mesmo, como é bastante comum no Japão. Outra vez que visitei um restaurante do gênero, acabei entrando em modo automático e quando vi já tinha aberto o pacotinho de hashis (alguém me explica por que precisa de pacotinho pra tudo?).

Depois de usar, guardei na bolsa para reutilizar, completando meu kit. Eles também poderiam ser compostados, o que faz com que não seja completamente descartáveis. Apesar disso, na mesma semana me deparei com essa publicação no Instagram sobre os problema dos palitinhos.

Hashis reutilizáveis de bambu ou mesmo aqueles de plástico podem ser uma boa saída para quem não abre mão do utensílio na hora de comer no restaurante japonês.

Sobre o copinho, que foi uma das minhas primeiras inspirações para começar esse desafio, li que uma pessoa usaria em média 6 mil copos plásticos por ano, caso só tomasse água em recipientes descartáveis. É óbvio que esse número está superestimado, porque (eu acredito que) pouca gente usa tantos copos. Mas, mesmo que os números sejam cortados pela metade, eles já são alarmantes. Só no Brasil, cerca de 96 mil toneladas de copos plásticos são produzidas por ano – e eles demoram pelo menos 100 anos para se decompor.

O passo que eu dei neste mês ainda é só um grãozinho de areia no meio de tanta poluição. Mesmo assim, eu acredito que cada grãozinho é fundamental e sei que esse mês serviu para perceber que diminuir nossa produção de lixo é mais simples do que parece. Dizem que demora 66 dias para criarmos um hábito – os meus primeiros 30 indicam que pode ser bem mais rápido do que isso.

Tá tudo bem deslizar de vez em quando, demora um pouco para pegar a prática, mas logo a gente entra no modo automático. Quem me acompanha nessa?

Fotos 1 e 2 via Pixabay/Todas as outras: Mari Dutra


Mari Dutra
Depois de viver na Argentina, na Irlanda e na Romênia, percebeu que poderia carimbar o passaporte mais vezes caso trabalhasse remotamente. Hoje escreve para o Hypeness e mantém um blog de viagens, o Quase Nômade, em que conta mais de suas experiências pelo mundo.

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