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Como foi a terceira edição do Mundial Poético, festival internacional de poesia, no Uruguai

por: Vitor Paiva

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Para o segundo menor país da América do Sul, maior somente que o Suriname, tendo a terceira menor população do continente com cerca de 3,4 milhões de habitantes, nos últimos anos o Uruguai vem fazendo um saudável e importante barulho ao sul do continente.

Em um momento de largos passos sociais, políticos, culturais e humanos dados para trás, em especial pelo Brasil, esse pequeno país à beira do Rio da Prata segue como um gigante empurrando pautas tão fundamentais quanto atrasadas, como a legalização da maconha e do aborto, o casamento gay e a energia limpa.

O que poucos sabem, porém, é que o Uruguai também pode ser visto como uma referência em um assunto talvez surpreendente: a poesia. A terra de Eduardo Galeano e Lautreamont foi pela terceira vez cenário do Mundial Poético de Montevideo, um festival internacional reunindo poetas de todo o mundo por uma semana na capital do país.

 

Em 2017 finalmente pude aceitar ao convite que o querido amigo e poeta uruguaio Martín Barea Mattos já havia me feito na edição anterior do Mundial, e fui a Montevideo para passar a última semana do mês de outubro entre poetas, apresentando-se e falando poemas todos os dias nos mais diversos palcos, teatros, bares e locais da capital do Uruguai.

Martín Barea Mattos, organizador do Mundial © foto: Paola Scagliotti

Formava comigo a comitiva brasileira do Mundial os poetas Pedro Lago, Pedro Rocha, Luiz Felipe Leprevost e a poeta Amora Pêra. Toda a felicidade de viajar como escritor, em especial como poeta, a outro país teria como contraste, no entanto, dois pequenos poréns, que fariam pessoalmente da minha estadia uma pequena cruzada pessoal.

A comitiva brasileira no festival, com Martín (da esquerda pra direita: Eu, Leprevost, Amora, Martín, Pedro Rocha e Pedro Lago) © Foto: Nilson de Souza 

Essa cruzada começou antes mesmo de pousarmos em Montevideo. A viagem ao Uruguai, que deveria durar poucas horas, acabou levando quase um dia inteiro, pois o avião não pôde decolar da conexão em São Paulo, por conta de uma pane no sistema de ar da aeronave.

Tivemos de dormir em um hotel de poucas estrelas em Guarulhos, e somente chegar à cidade pela manhã do dia seguinte. Além da exaustão que naturalmente nos tomou, o jantar que recebemos na madrugada, no tal hotel, não se assentou muito bem em meu estômago, e uma virose tomou conta de mim, que viria a me acompanhar ao longo dos sete dias em que estaria em solo uruguaio.

 

A bela Sala Verdi, em Montevideo, onde aconteceu a abertura do Mundial © foto: divulgação

O sonho de acompanhar o Mundial Poético com litros de cerveja e quilos das melhores carnes foi por água abaixo no instante em que pousei na cidade e entendi que estava doente.

A experiência, portanto, tornou-se pra mim objetivamente o prazer de descobrir o trabalho de poetas de países como Chile, Argentina, Holanda, Peru, Espanha, França, Colombia, Estados Unidos, México, Uruguai e muito mais – o que tornou tudo ainda mais singular e especial, apesar das cólicas e do mal estar que eventualmente me tomavam. Não podia, porém, fraquejar, e mesmo me sentindo mal, fui começar a participação no Mundial.

 

Pedro Lago com seu crachá de poeta 

Logo na abertura, a maioria dos poetas envolvidos com o festival – eram, no total, mais de 30 artistas – subiu ao belíssimo e antigo palco da Sala Verdi, um edifício em estilo neoclássico inaugurado em 1894, por onde diversas orquestras e espetáculos nacionais e internacionais se apresentaram ao longos dos últimos 123 anos.

Um teatro clássico, com o peso e a aura que tais locais possuem em qualquer lugar do mundo, foi nosso palco de entrada no festival. Os brasileiros abriram o festival, com os dois Pedros e Amora, que já haviam participado das outras edições do Mundial, lendo os primeiros poemas. Eu e Leprevost, estreantes, nos apresentamos orgulhosamente na segunda parte do evento de abertura. Todos leram alguns poemas, e assim foram feitas as apresentações formais entre os participantes.

Leprevost e eu © foto: Nilson de Souza 

As noites terminavam quase que invariavelmente no Santa Catalina, um típico boteco que poderia ter saído das ruas de Botafogo, no Rio de Janeiro, ou do centro de São Paulo, onde o querido garçom Marques nos presenteava com sua simpatia e com ampolas geladas da cerveja Patrícia ou garrafas de vinho Don Pascual. Eu, porém, confesso que tentei, mas minha virose não me permitiu maiores ambições boêmias desde o primeiro dia. Estar, no entanto, rodeado de poetas do mundo todo, devidamente embriagados, já era alegria suficiente.

Martin e os poetas Oscar Saavedra, Ángela Segovia e John Martinez Gonzales

Celeste Dieguez e María Eugenia López © foto: Nilson de Souza

Fazer parte de um grupo de poetas brasileiros em um festival que, apesar de internacional, era formado em sua maioria por artistas que trabalham em espanhol revelou-se também uma experiência singular, que diz um tanto sobre a relação cultural entre o Brasil e nossos vizinhos.

Por um lado, em grande parte ignoramos a produção literária e musical de países obviamente ricos e cheios de grandes artistas, como a Argentina, o Chile, a Venezuela e o próprio Uruguai – e, assim, perdemos um interessante, importante e renovador intercâmbio com artistas tão próximos de nossa realidade.

John Martinez Gonzalez e Ángela Segóvia © fotos: Nilson de Souza

Por outro lado, a grandeza geográfica do Brasil e a imensa produção cultural brasileira – consumida intensamente por nossos irmãos da América do Sul – torna nosso país ao mesmo tempo uma força incontornável (excluir o Brasil, afinal, de qualquer jogo literário simplesmente por falarmos outra língua é abrir mão de um gigante da literatura) e uma espécie de influência invasiva, quase imperialista, no continente. De certa forma, o Brasil é como os EUA para o resto da América do Sul: um país grandioso, dono de uma das maiores produções artísticas do planeta e, ao mesmo tempo, culturalmente dominante e autocentrado.

 

Martín preparando mais um roteiro para uma apresentação no Mundial © foto: Nilson de Souza

Se, como em qualquer outro contexto, o inglês também funciona dentro da poesia falada como uma espécie de esperanto, ou o mais próximo de uma língua universal – nem todos falam com fluência, mas para poetas americanos e holandeses, por exemplo, a língua inglesa abria as portas da compreensão – nós, enquanto brasileiros, estávamos ao mesmo tempo tão próximos do castelhano e distantes por completo, sendo o único grupo a falar poemas em português. Rapidamente, porém, ficou claro que a compreensão era absolutamente viável, e que a troca entre os trabalhos e idiomas mais diversos era fluida como se todos falássemos uma mesma língua.

O poeta holandês Jaap Blonk © foto: Nilson de Souza

A agenda do festival era intensa, com apresentações diárias em teatros e espaços variados de Montevideo, como o Centro Cultural de España, El Peregrino, o Museu Zorrila e o incrível bar Fun Fun, que nos serviu uma deliciosa e inebriante cachaça de uva. Participar de um festival de poesia em outro país nos permitiu conhecer esses diversos centros culturais, ainda que a virose e a programação de certa me impedisse de visitar locais turísticos. Cumprir tal agenda estando doente – e, confesso, insistindo em provar diversas vezes a tal cachaça de uva – acabou incluindo na programação a visita a um local um tanto exótico para um turista: um hospital público.

 

O simpático bar Fun Fun © foto: Leprevost

Depois de quase quatro dias de virose, ainda que minha condição não tenha piorado, entendi que era hora de parar de seguir os conselhos traduzidos ao portunhol dos mais diversos farmacêuticos de Montevideo e enfim receber o diagnóstico apropriado de um médico. Passadas algumas boas horas em uma sala de espera limpa e simples fui atendido por uma jovem médica, que vaticinou: sim, é uma virose. O remédio que você está tomando (receitado displicentemente por mim mesmo em parceria com um dos farmacêuticos da cidade), no entanto, está piorando seu quadro, e não, não há muito o que fazer além de se hidratar como um maníaco e esperar – e abandonar o tal remédio.

Pedro Rocha, Claudio Marcelo Martinez e eu, na abertura do Festival © foto: Nilson de Souza

Minha sorte foi que o simpático hotel Splendido, onde a maioria de nós estava hospedada, oferecia uma aconchegante cozinha, onde a Amora pôde preparar a canja de galinha que me salvou. Comecei a melhorar no dia seguinte, mas o final de semana já chegava, e com ele o Mundial Poético de Montevideo de 2017 aproximava-se de seu fim.

De cima para baixo: Amora Pêra, Joseph Makkos e Pedro Lago © fotos: Paola Scagliotti

Ao longo da semana, durante as apresentações, os poemas apresentados variavam completamente, entre estéticas reflexões existenciais e imagéticas – com pouquíssimos poemas de amor – , poemas sonoros e experimentais, e uma vasta presença de poemas políticos, relacionando-se em crítica intensa com o apocalíptico cenário das Américas e mundial atual. Nomes como Jaap Blonk, da Holanda, 
Angela Segovia, da Espanha,
 Joseph Makkos, Bill Lavender e 
Mark Statman, dos Estados Unidos,
 Oscar Saavedra, do Chile, Celeste Dieguez, Maria Eugenia Lopez e Claudio Martinez, da Argentina, John Martinez Gonzalez, do Perú, entre muitos outros, formaram junto de nós, brasileiros, o elenco que diariamente se apresentou gratuitamente nesses tantos palcos uruguaios.

Claudio Martinez se apresenta no bar Fun Fun

A condução de todo espetáculo foi feita através do talento e do afeto de Martin Barea, que reuniu como um cicerone, um querido amigo e antes de tudo um poeta (que por esforço, capacidade, talento e necessidade pessoal conseguiu pela terceira vez reunir nomes da poesia do mundo todo para realizarem um incrível festival internacional, como um desses agitadores de que toda cidade precisa e merece) essas fatias diversas do mundo para, juntas, falarem poemas e se encontrarem poeticamente.

Leprevost fazendo anotações antes de se apresentar © foto: Nilson de Souza

No último dia, boa parte do grupo apresentou-se no espetacular Espacio de Arte Contemporáneo, um antigo presídio, o mais antigo do Uruguai, que reformou parte de suas instalações para receber um museu e no qual, no antigo pátio onde os presos tomavam sol, um palco foi instalado para as apresentações conclusivas do Mundial. O último dia de festival foi aberto com show inesquecível de Martin cantando canções acompanhado ao violão, e foi a primeira vez que todos nós, brasileiros, nos apresentamos juntos (nos outros dias apresentávamos ora sozinhos, ora em duplas e trios).

O incrível Espacio de Arte Contemporáneo, antigo presídio da cidade, cenário do último dia de festival © foto: Amora Pêra

Entre poemas falados e algumas canções, nos despedimos do festival – com uma ligeira passada pela festa de encerramento – para, na manhã seguinte, nos despedirmos também de Montevideo, uma cidade especialmente livre, e de tal forma elegante nessa liberdade conquistada, que é como se ilustrasse um estado natural, nada extraordinário diante de um jovem fumando maconha da mesma forma que se fuma, aqui no Brasil, um cigarro, por exemplo.

Apresentação coletiva dos brasileiros, no encerramento do festival © foto: Nilson de Souza

Assim também foi com os poemas, recebidos com a naturalidade e, ao mesmo tempo, a forte singularidade libertária que a arte deve possuir, em uma pequena cidade repleta de cultura e espaços livres para a arte, que visitei pela primeira vez, e que me despedi certo de que volto em breve.

© fotos: créditos


Vitor Paiva

Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta e Só o Sol Sabe Sair de Cena.

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